terça-feira, outubro 13, 2015

Como o comércio moldou a natureza humana

Leandro Narloch 
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Tratados de livre-comércio, como a Parceria Transpacífico, não são apenas uma vantagem econômica, mas uma vantagem evolutiva que explica boa parte do comportamento humano


Comércio no Egito, há 4 mil anos

A Parceria Transpacífico, tratado de livre-comércio assinado ontem, se baseia na ideia de benefício mútuo. Eu me especializo no que faço melhor; você se concentra no que produz com menor custo de oportunidade, depois a gente troca parte do que produziu e todos saem ganhando.

Relações como essa não começaram durante a Revolução Industrial. Nem com as caravanas de Marco Polo ou no Egito Antigo. Nem entre os sumérios, há 6 mil anos. São provavelmente tão antigas quanto a nossa espécie.

Se a especialização e o comércio facilitam a nossa vida hoje, não há razão para acreditarmos que tenha sido diferente na Idade da Pedra. Nas sociedades de caçadores-coletores, conseguia mais comida e proteção as pessoas que se especializavam numa atividade e trocavam o que obtinham. A seleção natural deve ter favorecido, então, capacidades humanas que possibilitavam ou facilitavam as trocas, como a capacidade de sentir empatia, de confiar (e desconfiar) dos outros, a satisfação em fechar acordos e punir quem não cumpre o combinado.

Ou seja: o comércio não é só uma vantagem econômica, mas uma vantagem evolutiva. Essa é uma conclusão espantosa – e estudiosos de áreas diferentes (biólogos, economistas, psicólogos evolutivos) chegaram a ela quase ao mesmo tempo, a partir dos anos 1970. “O intercâmbio com benefício mútuo tem sido parte da condição humana pelo menos desde que o Homo sapiens é uma espécie. Não é uma invenção moderna”, diz o zoólogo e escritor Matt Ridley. “O comércio é uma predisposição universal humana com óbvias implicações evolutivas”, afirma o economista Haim Ofek.

A primeira relação de especialização e comércio de toda a história da humanidade foi provavelmente entre um homem e uma mulher. Muitos estudos antropológicos com sociedades isoladas mostram que, com raras variações, mulheres são responsáveis por obter carboidratos; homens, proteínas.

No ambiente natural, mulheres passam boa parte do tempo amamentando. Com um filho no colo é mais difícil e perigoso atacar grandes animais. Por isso elas se concentraram em atividades com menor risco para bebês – a coleta de frutas, insetos, legumes e raízes (tanto que se credita às mulheres a invenção da agricultura). Já aos homens coube atividades de maior risco e recompensa – a caça de grandes animais e a guerra.

Durante os milênios de evolução, essa divisão do trabalho favoreceu capacidades diferentes. Entre as mulheres, ganharam o páreo da seleção natural as mais observadoras e meticulosas; entre os homens, os mais violentos, com melhor pontaria e menor aversão ao risco. Eis por que os homens, em qualquer civilização da história, cometeram 90% dos homicídios e são maioria dos apostadores da Bolsa de Valores e das vítimas de quedas e acidentes.

Tratados de livre-comércio vão muito além da geopolítica: explicam um bom pedaço da natureza humana.

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