sábado, março 31, 2018

Por que ovos e coelhos são símbolos da Páscoa?

André Bernardo
Do Rio de Janeiro para a BBC Brasil

Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Ovos representam vida e renascimento; 
acima, exemplares decorados, em uma tradição que remonta à Idade Média

O que explica a associação entre os símbolos do ovo e do coelho com a celebração da Páscoa, a crença na ressurreição de Jesus Cristo? Há controvérsias e diferentes versões circulam entre os religiosos.

Uma dessas versões, que tem sido disseminada ao longo dos séculos é a de que, Maria Madalena teria ido antes do amanhecer de domingo ao sepulcro de Jesus de Nazaré - crucificado, na sexta-feira - levando consigo material para ungir o corpo dele. Ao chegar ao local, teria visto a sepultura entreaberta.

Um coelho, que teria ficado preso no túmulo aberto na rocha, seria o primeiro ser vivo a testemunhar a ressurreição de Jesus. Por essa razão, ganhou o privilégio de anunciar a boa nova às crianças do mundo inteiro na manhã da Páscoa. É ele, portanto, o suposto portador do ovo de chocolate.

O ovo, por sua vez, é um símbolo de vida e renascimento. Povos da Antiguidade, como os romanos, propagavam a ideia de que o Universo teria a sugestiva forma oval. Na Idade Média, houve quem acreditasse que o mundo teria surgido dentro da casca de um ovo.

Logo, estabeleceu-se o hábito de presentear uns aos outros com ovos de galinha. Alguns historiadores especulam que essa tradição teria surgido entre os persas. Outros atribuem sua origem aos chineses.

 Direito de imagem EPA Image caption
Na Alemanha, os ovos são pendurados nos galhos das árvores, 
como se fossem bolas de Natal

"Muitos séculos antes do nascimento de Cristo, a troca de ovos no equinócio da primavera, comemorado no dia 21 de março no hemisfério Norte, era um costume que celebrava o fim do inverno", explica o monsenhor André Sampaio Oliveira, doutor em Direito Canônico.

"Quando a Páscoa cristã começou a ser celebrada, o rito pagão de festejar a primavera foi integrado à Semana Santa. Os cristãos, então, passaram a ver no ovo um símbolo da ressurreição de Jesus."


Ovo de US$ 20 milhões

Foi uma questão de tempo para que os ovos presenteados passassem a ser ornamentados. Na Idade Média, as cascas dos ovos de galinha eram pintados à mão.

"Na Alemanha, os ovos coloridos são pendurados nos galhos das árvores, como se fossem bolas de Natal. Na Rússia, são colocados nos túmulos como homenagem aos que já se foram. Na Itália, as mesas da ceia pascal são decoradas com ovos coloridos", exemplifica o escritor e pesquisador Evaristo Eduardo de Miranda, autor do livro Guia de Curiosidades Católicas.

Os czares russos elevaram o hábito de dar ovos de presente a um novo patamar. Entre 1885 e 1916, 50 ovos foram encomendados a Peter Carl Fabergé, um famoso joalheiro russo, pelos czares Alexandre 3º e Nicolau 2º.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Entre 1885 e 1916, 50 ovos foram encomendados 
ao joalheiro Peter Carl Fabergé por czares russos

Um deles, dado de presente por Alexandre 3º para sua mulher, a imperatriz Marie Feodorovna, trazia em seu interior um relógio cravejado de safiras e diamantes. Em abril de 2014, o mimo, de 8,2 cm de altura, foi avaliado em US$ 20 milhões.

Por volta do século 18, os confeiteiros franceses resolveram experimentar uma nova técnica de preparo: que tal esvaziar os ovos e recheá-los de chocolate? Um século depois, os ovos passaram a ser feitos de chocolate e recheados por bombons. A invencionice gastronômica foi aprovada até por quem não vê qualquer significado religioso em ovos e coelhos.

É o caso do rabino Michel Schlesinger, da Confederação Israelita do Brasil (Conib). "Crianças judias que ganham ovos de Páscoa de presente ficam muito felizes e não os recusam de jeito nenhum", faz graça o rabino. "Imagino que as crianças cristãs que experimentarem o matzá (pão ázimo) com chocolate ou requeijão também vão gostar", sugere.


Símbolo

Mas, e o coelho? Se o animal, como a maioria dos mamíferos, não bota ovos, por que, então, se consolidou como um símbolo da maior festa cristã?

Desde o antigo Egito, o simpático roedor já era sinônimo de fertilidade. Em média, podem gerar filhotes de 4 a 8 vezes por ano, de oito a 10 coelhinhos por ninhada.

Com o tempo, o coelho tornou-se também símbolo de renascimento, por ser o primeiro animal a sair da toca depois do inverno. "A lebre já foi associada até a Cristo na iconografia cristã, com orelhas grandes para escutar melhor a palavra de Deus", observa o pesquisador Evaristo de Miranda.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Desde o Egito antigo, o coelho já era sinônimo de fertilidade

No Brasil, o costume de associá-lo à ressurreição de Jesus teve início na década de 1910. Na ocasião, imigrantes alemães pintavam ovos à mão e os escondiam pela casa para as crianças encontrarem.

"Na perspectiva histórica, não é possível precisar a origem do coelho e dos ovos de Páscoa. No máximo, é possível saber que não há uma única versão, mas diversas, todas válidas, narradas pelos mais diferentes povos e culturas", esclarece o doutorando em História pela Universidade de Campinas (Unicamp) Jefferson Ramalho.

"Para nós, historiadores, o mais importante não é identificar a 'verdadeira história', mas decifrar os significados atribuídos a esses símbolos e as ideias que eles procuram transmitir", completa.

Para a Igreja Católica, o verdadeiro símbolo da Páscoa é o círio pascal, uma grande vela branca que simboliza a ressurreição de Jesus. Nela, estão inscritas as letras alfa e ômega, a primeira e a última do alfabeto grego, indicando que o filho de Deus é o princípio e o fim.

"O símbolo maior da Páscoa é a luz de Cristo. A luz do Domingo da Páscoa se contrapõe à escuridão da Sexta-Feira da Paixão. O que era dor e tristeza se transforma em força e alegria", afirma o teólogo Isidoro Mazzarolo, da PUC-Rio.

Da autoflagelação à ‘farra’ do chocolate, a origem dos rituais que marcam a Páscoa cristã

Erika ZidkoDe Roma 
BBC Brasil


 Direito de imagem MARIO DI GIOVANNI Image caption
Para o cristianismo, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus 
três dias depois de sua crucificação no Calvário

A comemoração da Semana Santa, a apoteose da fé católica, representa a morte e a ressurreição de Jesus. Para o cristianismo, é o evento com o qual Deus concedeu vida eterna aos homens de fé.

E para celebrar, além da liturgia oficial, comum em todas as igrejas do mundo, a comunidade católica conta com inúmeras tradições, que vão desde presentear amigos e parentes com ovos de chocolate, jejuar ou não comer carne na Sexta-feira Santa, benzer alimentos, malhar o Judas, participar de procissões carregando uma cruz e até autoflagelar-se.

As festividades começam no Domingo de Ramos, que relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, prosseguem até a Sexta-feira da Paixão, com a crucificação e morte de Jesus no Calvário, e termina com a sua ressurreição, celebrada no domingo de Páscoa.

 Direito de imagem LUCA DI RICCARDI Image caption
Um dos principais momentos da Semana Santa
 é a crucificação e morte de Jesus no Calvário

Em muitos países, todavia, a festa está cada vez mais relacionada ao consumo de ovos de chocolate. A simbologia do ovo deriva de tempos remotos. Séculos antes do nascimento de Jesus já se trocavam ovos de galinha para celebrar o fim do inverno e a chegada da estação das colheitas.

Com o surgimento do cristianismo, esta tradição passou a ser associada também à ressurreição, ao renascimento dos homens de fé.

 Direito de imagem DINO RUZZICONI Image caption
Monarcas europeus doavam ovos ricamente decorados para celebrar a Páscoa

A partir de então, os devotos começaram a pintar os ovos de galinha para festejar. Os monarcas europeus também doavam ovos ricamente decorados para celebrarem a Páscoa.

O consumo de ovos de chocolate foi a transformação mais recente desta tradição. A partir do século 17, quando o cacau começou a chegar ao Velho Continente, a fabricação de chocolates estendeu-se também ao costume pascal. Os confeiteiros franceses foram os primeiros a preparar os ovos de chocolate como acontece ainda hoje.

E se para alguns este gesto tem se transformado em alvo de especulações comerciais que poderiam ofuscar ou até mesmo cancelar o significado original da celebração, o italiano Roberto Cipriani, um dos mais importantes sociólogos do mundo em matéria de religiões, vê a troca de ovos de Páscoa como algo positivo.

 Direito de imagem LUIGI SALSINI Image caption 
Autoflagelação também acontece no México, no Peru e até nas Filipinas,
 onde alguns fiéis chegam a submeter-se 'a uma real crucificação'

"Ainda que as pessoas não tenham uma consciência plena, não tenham lido a Bíblia nem participado de catequeses preparatórias para a Semana Santa, e mesmo que prevaleçam costumes como viajar no feriado ou preparar determinadas refeições, como a carne de cordeiro no almoço de Páscoa na Itália, os elementos conectivos continuam presentes", diz em entrevista à BBC Basil.

Cipriani, autor da teoria da religião difusa, rebate as preocupações de que a Páscoa esteja perdendo o valor entre católicos. "A data é, no mínimo, uma ocasião para as manter relações de amizade, de solidariedade e compartilhamento."

"Se eliminarmos tudo, os ovos de chocolate, o almoço especial no domingo, a troca de mensagens de Boa Páscoa, fica um vazio. O simbolismo ainda é forte. Quando você vê uma cruz, sabe o que significa".

Ritos paralelos

"As celebrações populares são ritos paralelos aos que a Igreja realiza dentro dos templos", explica o sociólogo.

 Direito de imagem MARIO DI GIOVANNI Image caption
Ritos de autoflagelação ainda estão presentes em vilarejos da Calábria

De acordo com Cipriani, as festividades religiosas, especialmente durante a Semana Santa, eram as únicas ocasiões em que estes grupos de pessoas podiam exprimir-se de forma alternativa ou até mesmo contraposta à Igreja oficial.

"Estas manifestações ganharam força após o Concílio de Trento, com o qual a Igreja Católica promoveu, entre os anos de 1545 e 1563, medidas que tinham o objetivo de reavivar a fé e a disciplina religiosa".

 Direito de imagem LUCIA MASCELLINO Image caption
Séculos antes do nascimento de Jesus, já se trocavam ovos de galinha 
para celebrar o fim do inverno e a chegada da estação das colheitas

"Participar de procissões carregando uma cruz ou jejuar são também ocasiões de penitência, de sofrimento, um modo de compartilhar da dor e da morte de Cristo."

"Mesmo que os sacerdotes também participem e façam preces durante as procissões numa tentativa de contrastar ou ao menos contrabalançar o caráter laico destas manifestações, os protagonistas são sempre as confraternidades, as pessoas do povo que dão vida às celebrações".

Em algumas cidades italianas, as festividades mantêm as mesmas características há centenas de anos. Duas delas, Chieti e Orte, disputam o recorde de procissão de Páscoa mais antiga do país, ambas datadas em 842. Nesta última, um vilarejo com cerca de 8 mil habitantes, na Sexta-feira da Paixão os peregrinos caminham durante a noite, descalços e com correntes amarradas ao tornozelo. Em Taranto, os fiéis se revezam em quase 40 horas de procissão contínua.

Cultos sangrentos

Muitas destas tradições populares se mesclaram ao longo dos séculos. "No caso da Itália, por exemplo, a Espanha teve um papel decisivo durante o período de sua dominação, especialmente no sul do país, em localidades como Sicília, Calábria e Campanha, com a introdução de seus cultos exuberantes, ricos e muito atrativos".

É o caso dos ritos de autoflagelação, que ainda estão presentes em algumas localidades da Calábria, como em Verbicaro e Nocera Terinese. Nestes dois vilarejos, durante a Semana Santa alguns devotos percorrem as ruas e igrejas da cidade chicoteando as próprias pernas até sangrarem. Durante o percurso deixam manchas de sangue na fachada dos edifícios. Os espetáculos atraem católicos e TVs do mundo todo.

 Direito de imagem LUIGI SALSINI Image caption
Oficialmente, a Igreja é contrária às manifestações cruéis de autoflagelação

"Os episódios de autoflagelação na celebração da Semana Santa acontecem também no México, no Peru e até nas Filipinas, onde alguns fiéis chegam a submeter-se a uma real crucificação".

Oficialmente, a Igreja é contrária a estas manifestações cruéis. "Mas de certa forma aceita e tolera", afirma Cipriani.

 Direito de imagem LUIGI SALSINI Image caption 
De acordo com sociólogo, Igreja 'de certa forma aceita e tolera' rituais de autoflagelação

Em nível global, as celebrações de Páscoa mais importantes para os católicos são a Via Crucis, quando o Papa se locomove em meio aos fiéis com o papa móvel pelas ruas de Roma, do Vaticano ao Coliseu, e a missa do domingo, na praça São Pedro, transmitida pela TV em inúmeros países.

O sociólogo acrescenta que não vê no consumismo, nem em qualquer outro fenômeno, uma ameaça aos valores cristãos. "Conforme com a minha teoria da religião difusa, é improvável que o cristianismo, ou qualquer outra cultura milenar, possa desaparecer de um momento a outro. O motivo são as socializações, a educação, a transmissão através das gerações. Pode haver críticas, resistências, mas ainda assim, tudo procede", diz.

"O cristianismo, assim como o budismo, hinduísmo e islamismo, não vão terminar nos próximos 100 anos."

Quais são as tendências em ovos de chocolate para a Páscoa

 Lívia Andrade
Veja online

O chocolate ao leite lidera o ranking dos mais consumidos do país com uma fatia de 42%, segundo ranking da Abicab

(IStock/Getty Images)
O costume de dar ovos de chocolate durante a festa cristã –  que celebra
 a ressurreição de Jesus Cristo – foi criada pelos franceses no século 18, 
em substituição aos ovos cozidos decorados, usados para comemorar a o dia 

O Brasil é um país multicultural e essa diversidade se reflete na Páscoa, a data mais importante para a indústria nacional de chocolates. Há quem goste do ao leite, outros preferem o amargo, alguns optam por versões enriquecidas com wey protein – são inúmeras as opções. O importante é o consumidor ter clareza do que deseja comprar e olhar os rótulos.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o chocolate é resultado da mistura de massa de cacau, cacau em pó e/ou manteiga de cacau com outros ingredientes e precisa conter o mínimo de 25% de sólidos totais de cacau. Muitos dos chocolates disponíveis nas gôndolas são ricos em açúcar e gorduras (além da manteiga de cacau, gorduras do leite, vegetal, e vegetal hidrogenada) e a indústria não está fazendo nada de errado, isso é permitido por lei. O agravante está no fato de o órgão regulatório não estabelecer porcentuais para esses ingredientes. “Isso torna os chocolates menos puros e abre uma oportunidade para a onda dos 70% cacau, porque eles são diferentes do convencional e têm um apelo maior de uso de ingredientes”, diz Cynthia Antonaccio, nutricionista da Consultoria Equilibrium.

Pesquisas recentes apontam três nichos de chocolate como tendência. O primeiro é voltado para aqueles que buscam produtos mais saudáveis. São os chocolates mais puros, com um porcentual de cacau de 60% para cima. O segundo são os chocolates funcionais, aqueles que têm um melhor balanço nutricional, substituição de açúcares, redução de gordura e adição de ingredientes ricos em vitaminas, minerais e fibras. E o terceiro está relacionado à qualidade e engloba três segmentos: 1- Os chocolates premium Bean to Bar, em que o fabricante controla todas as etapas desde a escolha da amêndoa até a fabricação da barra. 2- Os chocolates de origem, aqueles elaborados com matéria-prima de uma região, conhecida por seu terroir, o que garante ao produto final características únicas relacionadas à procedência. 3- Chocolates varietais, produtos feitos com um único tipo de cacau, o que evidencia peculiaridades específicas de aroma e sabor. “Esta onda de produtos saudáveis permeia a tribo dos vegetarianos, dos flexitarianos, dos bodybuilders, que querem uma alimentação mais proteica. Enfim, todos os consumidores que buscam saúde das mais diferentes formas”, diz Cynthia.

(Mega Vitaminas/Reprodução)
O consumidor vem procurando produtos com mais qualidade: 
o segmento de ovos light, com 25% a menos de gordura ou açúcar, é uma opção  

O mercado e os empreendedores estão aproveitando esses nichos. Marcas de suplementos alimentares lançaram ovos de Páscoa com whey protein. Há também opções para os intolerantes à lactose e/ou ao glúten. “O chocolate sem lactose tem substituição na formulação de qualquer ingrediente que contenha leite ou derivados com lactose. Esses itens são substituídos por produtos à base de soja ou por leite sem lactose”, diz Arali Pedroso, professora da Castelli Escola de Chocolataria. No caso da chef de cozinha e cake designer Paula Pavoni , ela faz doces de acordo com a demanda do cliente. “Na linha muscle food, eu tenho ovo com casca de chocolate 70% cacau, recheado com brownie sem glúten e brigadeiro whey protein”, diz.

Outro segmento são os ovos light, que têm redução de 25% de algum ingrediente (gordura, açúcar) em relação à versão tradicional. E também os produtos para diabéticos e celíacos, pessoas que não podem comer glúten, pois seu corpo não processa a proteína. Para o primeiro grupo, a opção são os chocolates dietéticos, que não têm adição de açúcar. Mas é necessário cautela: muitas vezes, esse tipo de produto tem uma dose maior de gordura para compensar a falta de açúcar. Já no caso dos celíacos, o consumidor deve prestar atenção aos rótulos. “O chocolate não é uma fonte natural de glúten, mas, dependendo do que for adicionado à formulação, ele pode conter. Outro ponto é que as fábricas, que produzem o chocolate, podem produzir outros itens que levam glúten, acarretando o que chamamos de contaminação cruzada”, explica a nutricionista Fernanda Leme, da Consultoria Equilibrium.

 (Reprodução/Instagram)
Ovo de bolo cenoura sem glúten com brigadeiro 
de Whey Protein da chef Paula Pavoni 

Nichos à parte, quando se fala na maioria da população, pode-se dizer que o paladar do brasileiro é doce. “Isso até por razões históricas resultantes do ciclo da cana-de-açúcar e da fusão de diversas culturas culinárias”, explica Jumar Pedreira, professor da Castelli Escola de Chocolataria. Prova disso é que o tipo ao leite lidera o ranking dos chocolates mais consumidos do país com uma fatia de 42% – de acordo com dados da Abicab, associação que representa a indústria brasileira de chocolate e cacau. “O Brasil possui hoje uma das maiores Páscoas do mundo”, diz Ubiracy Fonseca, presidente da organização.

O costume de dar ovos de chocolate durante a festa cristã –  que celebra a ressurreição de Jesus Cristo – foi criada pelos franceses no século XVIII, em substituição aos ovos cozidos decorados, usados para comemorar  o dia. “A Páscoa é disparada a data comemorativa em que o brasileiro mais presenteia com chocolate, seguida de aniversário e dia dos namorados”, diz Fonseca. No ano passado, a produção nacional para a data foi de 9.000 toneladas de chocolate, o equivalente a 36 milhões de ovos.

A razão pela qual gostamos tanto de comer chocolate

Michael Mosley
BBC Brasil

 Direito de imagem1905 HKN Image caption
Paixão por chocolate pode estar relacionada ao leite materno

Por que gostamos tanto de chocolate?

A resposta pode parecer simples - porque tem um "gosto bom". Mas vai além disso. Tem a ver com uma determinada relação entre gorduras e carboidratos, a que somos apresentados logo no início de nossas vidas.

Os amantes de chocolate dificilmente abrem um tablete e conseguem se contentar em comer apenas um quadradinho - acabam devorando a barra inteira. E isso também acontece com outros alimentos.

Mas o que faz com que a gente ache algumas comidas irresistíveis? E que características o chocolate compartilha com outros alimentos que simplesmente não conseguimos dizer "não"?


'Limonada e fruta do conde'

O chocolate é feito a partir de grãos de cacau, cultivados e consumidos nas Américas há milhares de anos.

Os Maias e Astecas criaram uma bebida de cacau chamada xocolatl, que significa "água amarga". Isso porque, in natura, os grãos de cacau são bastante amargos.

Para chegar ao grão, primeiro você precisa tirar a casca grossa do cacau, liberando uma polpa de sabor tropical intenso - com gosto entre a limonada e a fruta do conde. Conhecida como baba de cacau, é doce, ácida e muito pegajosa.

Os grãos e a polpa são colocados para fermentar durante vários dias, antes de serem secos e torrados.
Ao serem torrados, liberam uma variedade de compostos químicos, incluindo o ácido 3-metil-butanoico, que por si só tem um odor rançoso, e o dimetil trissulfeto, com cheiro de repolho cozido em excesso.

A combinação dessas e outras moléculas de aroma cria uma assinatura química única que os nossos cérebros adoram.

 Direito de imagem ISTOCK Image caption
Adição de açúcar e gordura levou o cacau a se tornar irresistível

Mas os cheiros e as memórias felizes da juventude que esses odores provocam são apenas parte da atração do chocolate.

O chocolate contém uma série de substâncias químicas psicoativas interessantes, que incluem a anandamida, um neurotransmissor cujo nome vem do sânscrito - "ananda", que significa "alegria, felicidade, prazer". As anandamidas estimulam o cérebro da mesma forma que a cannabis.

Ele também contém tiramina e feniletilamina, ambas com efeitos semelhantes às anfetaminas.

Além disso, você vai encontrar pequenos vestígios de teobromina e cafeína, conhecidos estimulantes.

Por algum tempo, alguns cientistas de alimentos ficaram entusiasmados com a descoberta. Mas, embora o chocolate contenha essas substâncias, sabemos agora que são apenas alguns traços.

Açúcares mais gorduras

Então, o que mais o chocolate tem?

Ele também tem uma viscosidade cremosa. Quando você tira da embalagem e coloca um pedaço na boca sem morder, você vai notar que ele rapidamente derrete na língua, deixando uma sensação prolongada de suavidade.

Receptores em nossas línguas detectam essa mudança de textura, que, então, estimula os sentimentos de prazer.

Mas o que realmente levou o cacau - uma bebida amarga e aquosa - a se transformar no doce que adoramos hoje, foi a adição de açúcar e gordura.

O acréscimo da quantidade certa de cada um desses elementos é crucial para a apreciação do chocolate. Observe uma embalagem de chocolate ao leite e você vai perceber que ele normalmente contém cerca de 20-25% de gordura e 40-50% de açúcar.

 Direito de imagem THINKSTOCK Image caption
Leite materno é composto por 4% de gorduras e 8% de açúcares

Na natureza, tais níveis elevados de açúcar e gordura são raramente encontrados - pelo menos juntos.
Você pode obter açúcares naturais de frutas e raízes, e há muita gordura em nozes ou no salmão, por exemplo. Mas um dos poucos lugares onde você vai encontrar ambos é no leite.

O leite materno humano é particularmente rico em açúcares naturais, principalmente lactose. É composto por cerca de 4% de gorduras e 8% de açúcares. O leite em pó, que também é usado na alimentação de bebês, contém uma proporção semelhante de gorduras em relação a açúcares.

Essa proporção, 1g de gordura para 2g de açúcar, é a mesma relação que você encontra no chocolate ao leite. E em biscoitos, donuts, no sorvete...Na verdade, essa proporção em particular está presente em muitos alimentos a que não resistimos.

Então, por que você ama chocolate?

Por uma série de razões. Mas também pode ser porque esteja tentando resgatar o gosto e a sensação de proximidade que temos em relação ao primeiro alimento que já experimentamos: o leite materno humano.

A polêmica moda de cheirar chocolate, que ganha adeptos na Europa

BBC Brasil

 Direito de imagem THINKSTOCK Image caption
O chocolate já não é consumido apenas pela boca: 
alguns preferem cheirá-lo

Morder um chocolate é capaz de levantar o ânimo de muita gente. Uma nova moda na Europa, no entanto, subverte essa ideia: alguns estão optando por aspirar o alimento em vez de devorá-lo.

O pó de cacau se transformou em uma alternativa que muitos dizem ser "saudável" para quem deseja ir para a balada sem tomar drogas.

O uso vem aumentando em eventos alternativos europeus, em meio a preocupações sobre possíveis efeitos tóxicos.

Origem

A moda nasceu de uma ideia de um dos principais chocolatiers do mundo, o belga Dominique Persoone.

Em 2007, ele criou um dispositivo para cheirar chocolate em pó, da mesma forma que drogas como cocaína são aspiradas.

A empresa de Persoone, a Chocolate Line, afirma já ter vendido 25 mil unidades do dispositivo.

Cada "máquina de cheirar chocolate" vem com uma mistura para o consumidor aspirar. Persoone afirma que só conseguiu chegar à mistura certa após várias tentativas.

 Direito de imagem THE CHOCOLATE LINE Image caption 
Dominique Persoone inventou um dispositivo para cheirar 
o cacau em uma mistura 'gourmet'

O chocolatier começou provando o cacau puro, mas percebeu que não era suficientemente forte. Então misturou o pó de cacau com pimenta malagueta, mas a mistura era dolorosa demais para se aspirar.

Finalmente ele conseguiu chegar ao que considerou a "mistura ideal": pó de cacau com hortelã e gengibre, colocado em um dispositivo com uma espécie de "lançador" em formato de colher que, acionado, dispara o pó para a narina.

"O hortelã e o gengibre ativam seu nariz. Daí o sabor deles diminui e o chocolate fica no cérebro", costuma dizer Persoone.


Euforia e efeitos colaterais

O cacau provoca uma injeção de endorfinas no sistema circulatório, o que pode resultar em euforia.

Também tem doses altas de magnésio, o que relaxa os músculos, e de flavonoides, que melhoram a circulação e a função cognitiva, segundo estudo publicado pela Revista Americana de Nutrição Clínica.

Outro estudo, de abril de 2016, sugere que o chocolate amargo melhora o rendimento durante o exercício por deixar as pessoas mais rápidas e eficazes na realização de uma tarefa física.

No entanto, fica a dúvida: é perigoso aspirar o cacau? A pergunta ainda é difícil de ser respondida, já que não há registros de risco ou vício em pó de cacau.

"Os efeitos de cheirar chocolate não foram estudados", disse Andrés Herane, médico psiquiatra que pesquisa depressão e estresse no King's College de Londres.

Mas isso não quer dizer que o pó de cacau seja totalmente inofensivo.

"O chocolate tem muitas propriedades que o transformam em uma substância viciante e, obviamente, tem um efeito no cérebro", acrescentou Herane.

O médico afirma que há pesquisadores, inclusive ele, que acreditam que o chocolate deveria ser classificado como droga.

"Há um efeito de busca compulsiva que implica que quem o consome precisa aumentar cada vez mais a dose para sentir o mesmo efeito de prazer."

E cheirar o chocolate tem um efeito muito mais imediato que comer.

"Vai dos pulmões diretamente ao sangue, que o leva para o cérebro. É um efeito 'peak' (de auge) mais alto, mas com uma duração menor. Por isso, os que cheiram substâncias precisam fazer isso várias vezes em um período relativamente curto e têm maior risco de vício, porque a vida média (da substância no corpo) é mais curta", afirmou.

 Direito de imagem THINKSTOCK Image caption 

Médicos alertam que cheirar chocolate pode prejudicar o nariz

E isso sem levar em conta que o chocolate foi criado para ser comido, e não para ser aspirado.

"Cheirar chocolate em pó não é seguro, porque (se trata de) uma substância estranha e tóxica no nariz", afirmou Jordan Josephson, otorrinolaringologista do Hospital Lenox Hill, de Nova York, consultado pela revista Science.

Festa

A tendência de cheirar chocolate começou a aparecer em algumas festas alternativas da Alemanha e do norte da Europa.

Uma das mais famosas é a Lucid, no clube Alchemy Eros, de Berlim. Os frequentadores da festa, que acontece um domingo por mês, dançam até o dia seguinte com apenas um estimulante: o cacau.

"Não servimos bebidas alcoólicas, mas isso não significa que somos 'anti' tudo. Servimos vários remédios estimulantes, como o cacau puro", afirmam os organizadores no site da festa.

A BBC entrou em contato Ruby May, principal organizadora da festa. E ela afirmou que não irá mais falar sobre o assunto.

 Direito de imagem THINKSTOCK Image caption 
Cheirar cacau está ficando mais popular em algumas festas e festivais da Europa

May explicou que, depois de dar uma série de entrevistas, "fomos tão distorcidos que decidimos não dar mais nenhuma declaração".

Há informações de que a tendência já tenha atravessado o oceano Atlântico até os Estados Unidos.

Bárbara Carreño, porta-voz do órgão de combate às drogas dos Estados Unidos, a DEA, disse que não pode interferir no uso de "substâncias não controladas (pela Lei de Controle de Drogas)", como é o caso do cacau.

Quais as semelhanças e diferenças entre a Páscoa judaica e a cristã?

André Bernardo
BBC Brasil

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
O 'matzá', iguaria judaica, e o pão e vinho, parte de celebrações cristãs; 
refeições simbolizam episódios importantes da liturgia das religiões

No próximo domingo, judeus e cristãos comemorarão - cada um à sua maneira - a solenidade da Páscoa. Ainda hoje, os judeus se referem à festa pelo seu nome original: Pessach. De origem hebraica, quer dizer "passagem" e deu origem, entre outras, às palavras "páscoa" em português, "pascua" em espanhol, "pasqua" em italiano, e "pâques" em francês.

"É a festa que comemora a passagem do povo israelita da escravidão do Egito para a libertação da Terra Prometida, através da travessia do Mar Vermelho", sintetiza o rabino Michel Schlesinger, da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

A Páscoa cristã também está associada à ideia de "passagem": no caso, da morte para a vida. A solenidade que celebra a ressurreição de Jesus é a mais importante do cristianismo. Mais até do que o Natal, que festeja a encarnação divina através do nascimento de Cristo.

"A vitória de Jesus sobre a morte é o que confere sentido ao cristianismo. 'Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé!'", afirma o teólogo Isidoro Mazzarolo, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), citando a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 15, 17.

Enquanto a Páscoa está centrada na figura de Jesus, a Pessach evoca a memória de Moisés. Foi ele que, segundo o Livro do Êxodo, recebeu de Deus a missão de libertar os israelitas da opressão do faraó e, pelos próximos 40 anos, guiá-los até a Terra Prometida.

"Os cristãos acreditam que Jesus é o Messias. Ele já veio e, um dia, voltará. Nós, judeus, reconhecemos que Jesus foi um rabino que disseminou uma mensagem muito positiva de amor e respeito ao próximo, mas não o consideramos o Messias. Para nós, o Messias ainda não chegou", esclarece o rabino Michel Schlesinger.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Tanto no Pessach quanto na Páscoa cristã há uma reverência à ideia de passagem

Até o século 4, a mesma data

Em geral, as comemorações da Pessach e da Páscoa não coincidem. Este ano, porém, as festas caem no mesmo dia: 1º de abril.

Diferentemente do Natal, que é comemorado sempre no dia 25 de dezembro, a Páscoa é, por assim dizer, uma "festa móvel".

Até meados do século 4, judeus e cristãos comemoravam a Páscoa no mesmo dia. Mas, se o significado da festa é diferente, por que, então, comemorá-la no mesmo dia? A reivindicação partiu de gentios - os novos convertidos ao cristianismo na Europa e Oriente Médio.

Foi quando, no ano de 325, o Imperador Constantino Magno convocou o Concílio de Niceia. Por unanimidade, a Igreja Católica convencionou festejar a ressurreição de Jesus sempre no primeiro domingo depois da primeira lua cheia ocorrida após (ou no dia) do equinócio da primavera no hemisfério norte (e do outono no hemisfério sul). Ou seja, em geral, depois da Páscoa judaica, que começa a ser celebrada na primeira lua cheia do mesmo equinócio (e pode cair num dia de semana).

O equinócio, a propósito, é o nome dado à época do ano em que o dia e a noite têm a mesma duração em todos os países do mundo.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Igreja Católica convencionou festejar a Páscoa sempre no primeiro domingo
 depois da lua cheia do equinócio da primavera no hemisfério norte

Tudo ia bem até 1582, quando o papa Gregório 13 resolveu instituir o calendário que leva seu nome, o gregoriano. Na ocasião, a Igreja Ortodoxa não aprovou a mudança e continuou a se basear pelo calendário juliano, instituído por Júlio César no ano 46 a.C., para comemorar a Páscoa.

Conclusão: a Igreja Romana comemora em uma data e a Ortodoxa em outra. Um exemplo? Este ano, católicos romanos celebrarão a ressurreição de Jesus no dia 1º de abril, e os ortodoxos, no dia 8.


Pão ázimo e ervas amargas

A Páscoa é uma solenidade tão importante que um dia só é pouco. Por essa razão, judeus e cristãos levam oito dias para festejar, respectivamente, a passagem do cativeiro à liberdade e da morte à vida.

Os cristão marcam a Semana Santa com missas especiais como o lava-pés na quinta-feira e a procissão do enterro na sexta, dia em que muitos fiéis evitam comer carne vermelha em respeito à morte de Cristo. No domingo, muitas famílias com crianças celebram a tradição da busca por ovos escondidos, adotada de rituais pagãos. Os ovos de Páscoa se tornaram, com o passar do tempo, um dos símbolos mais conhecidos da data.

Já os judeus não podem comer nada feito à base de farinha. Macarrão, pizza e lasanha? Nem pensar! Uma iguaria que não pode faltar à mesa é o pão ázimo, feito só de trigo e água, sem fermento. Conhecida como matzá, simboliza a pressa do povo hebreu ao fugir da escravidão no Egito.

"Durante a Pessach, comemos ervas amargas para lembrar a amargura da escravidão, mas também bebemos vinho para recordar a doçura da liberdade. Não somos nem escravos nem livres. Ainda estamos no caminho", diz o rabino Michel Schlesinger.

Por que a data da Páscoa varia tanto? Entenda como ela é determinada

Caroline Wyatt
BBC Brasil

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
'A astronomia está no coração do estabelecimento da data', 
diz astronômo no Observatório Real de Greenwich, em Londres

A Páscoa chegou mais cedo neste ano. Será celebrada no dia 1º de abril, enquanto, no ano passado, isso ocorreu no dia 16 do mesmo mês.

Na verdade, desde 2008, essa festa foi comemorada sempre em dias diferentes, com o domingo de Páscoa variando a cada ano entre os dias 23 de março e 24 de abril.

Mas por que não há uma data fixa para a Páscoa?

Segundo afirmava Beda, o Venerável, religioso inglês que viveu no século 7, a Páscoa se dá no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio da primavera no hemisfério norte (20 de março, em 2018).

"A astronomia está no coração do estabelecimento da data para a Páscoa. (A data) depende de dois fatos astronômicos - o equinócio da primavera e a lua cheia", disse Marek Kukula, astrônomo no Observatório Real de Greenwich, em Londres.

Trata-se de um "feriado móvel", e isso se dá graças ao sistema complexo que foi desenvolvido para tentar calcular a Páscoa (e a Páscoa Judaica) a partir do céu, acomodando calendários diferentes.

A data mais frequente para a Páscoa nas igrejas ocidentais tem sido 19 de abril, mas o evento já chegou a cair até em 25 de abril.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
A data da Páscoa varia, entre outras razões, na tentativa
 de harmonizar os calendários lunares e solares

O nosso calendário não combina exatamente com os ciclos astronômicos.

"Durante milhares de anos vêm sendo feitos cálculos e ajustes na tentativa de coincidir os calendários artificiais com a astronomia. Mas, exatamente pela falta de uma combinação precisa entre eles, são necessários cálculos complexos para se determinar o dia exato do equinócio e da lua cheia", acrescentou Kukula.

Apesar da famosa briga da Igreja Católica com Galileu, em 1633, por divergências em relação aos estudos de astronomia do físico, os religiosos sempre souberam que era preciso calcular as datas para a Páscoa e os dias santos - e que para isso era necessário recorrer ao estudo dos astros.

Com esse objetivo, a Igreja Católica construiu seu primeiro observatório em 1774.

Mistura

O complicado sistema de determinação da data da Páscoa é resultado da combinação de calendários, práticas culturais e tradições hebraicas, romanas e egípcias.

O calendário egípcio era baseado no Sol, prática adotada primeiramente pelos romanos e posteriormente incorporada pela cultura cristã. O judaísmo baseia o calendário hebraico parcialmente na Lua, e o islamismo também utiliza fases da Lua.

A data da Páscoa varia não somente pela tentativa de harmonizar os calendários lunares e solares, mas também há outras complicações que acabam interferindo, como o fato de diferentes vertentes do cristianismo usarem fórmulas distintas em seus cálculos.

Em 1582 foi criado o Calendário Gregoriano, adotado e promovido pelo papa Gregório para fazer com que a Páscoa caísse mais cedo e fosse mais fácil de ser calculada. Esse é o calendário que usamos até hoje.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption 
Gregório 13 introduziu o calendário gregoriano, ainda usado no mundo ocidental

Segundo a Bíblia, a morte e ressurreição de Jesus, os eventos celebrados pela Páscoa, ocorreram na época da Páscoa Judaica.

A Páscoa Judaica era celebrada na primeira lua cheia depois do equinócio da primavera no hemisfério norte.

Mas isso levou os cristãos a celebrar a Páscoa em diferentes datas. No fim do século 2, algumas igrejas celebravam a Páscoa junto com a Páscoa Judaica, enquanto outras marcavam a data no domingo seguinte.

No ano 325, a data da Páscoa foi unificada graças ao Concílio de Nicéia.

A Páscoa passaria a ser no primeiro domingo depois da primeira lua cheia que ocorresse após o equinócio da primavera (ou na mesma data, caso a lua cheia e o equinócio ocorressem no mesmo dia).

Domingos diferentes

Mesmo assim, tradições e culturas diferentes continuaram fazendo cálculos distintos para a data.

Um exemplo se deu na Inglaterra, no ano de 664. No reino de Northumbria, o rei Oswiu e sua esposa celebravam a Páscoa em domingos diferentes. O rei observava a tradição irlandesa, e a rainha, a romana. Ela era originária de uma parte do reino que tinha sido evangelizada segundo as tradições romanas, enquanto a cidade natal do rei Oswiu seguia a tradição irlandesa.

Em consequência, um certo ano o rei celebrou a Páscoa em um domingo, mas a rainha ainda estava no período da quaresma. Para acertar a data, o rei convocou um sínodo (assembleia de religiosos) na cidade de Whitby.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption 
A data mais frequente para a Páscoa nas igrejas ocidentais tem sido 19 de abril

Na defesa da tradição irlandesa, estava o bispo Colman de Lindisfarne. São Wilfrid, um nativo de Northumbria treinado em Roma, defendeu a tradição romana.

"Em um ponto crucial do debate, ele mencionou São Pedro, o guardião das chaves do paraíso, que as recebeu do próprio Cristo. E o rei Oswiu, que presidia o sínodo, ficou muito impressionado", disse Michael Carter, membro do Patrimônio Histórico Inglês.

Com isso, a decisão foi tomada a favor da tradição romana.

"O Sínodo de Whitby garantiu que a Igreja na Inglaterra passasse a adotar a prática ocidental padrão. Isso significou a unificação da celebração do mais importante evento do calendário cristão pela igreja inglesa, o dia da ressurreição de Cristo. Isso persistiu no país (...) até a Reforma Anglicana, quando a Inglaterra rompeu com o padrão religioso e cultural da Europa", acrescentou Carter.

Ortodoxos

As tradições ortodoxas dentro do cristianismo continuaram usando o Calendário Juliano em vez de aceitar a reforma do calendário imposta pelo papa Gregório.

As igrejas ortodoxas, portanto, continuaram a celebrar a Páscoa e o Natal em datas diferentes das tradições ocidentais ou romanas.

Mas isso pode mudar? O papa Tawadros 2º de Alexandria, líder da Igreja Ortodoxa Copta, espera que as diferentes vertentes do cristianismo consigam chegar a um acordo sobre essa importante questão.

Pouco depois de reunir-se com ele, Justin Welby, arcebispo da Cantuária (o equivalente ao papa para a Igreja Anglicana), divulgou uma notícia surpreendente em janeiro deste ano: depois de muitos séculos de desacordo, surgiram novas esperanças de que a data da Páscoa possa ser uma data que todos os cristãos celebrem juntos.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
O Concílio de Nicéia acertou muitas disputas 
centro da igreja, incluindo a data da Páscoa

"Durante nossa visita ao Vaticano, em 2013, o papa Tawadros falou novamente sobre o tema com o papa Francisco em Roma", disse o bispo Angaelos, bispo geral da Igreja Ortodoxa Copta na Grã-Bretanha.

"Parece haver uma disposição entre parte das lideranças da Igreja Cristã para pelo menos avaliar esta possibilidade."

No entanto, ele admite que o caminho parece ser longo. "A dificuldade é que todos precisam sacrificar algo, pois cada um de nós tem o seu próprio jeito de calcular a Páscoa e calculamos assim por séculos", disse.

Ainda não há um cronograma e o bispo Angaelos afirma que a "tarefa é monumental". "Estamos falando a respeito com muita gente, muitas culturas diferentes, igrejas diferentes e líderes religiosos diferentes. Será uma tarefa monumental. Mas a ideia está lá."

E o que os astrônomos acham de uma Páscoa unificada? "De certo modo, a astronomia ficaria fora da equação", disse Marek Kukula.

"Ainda seria necessário regular o calendário - você ainda precisaria ter anos bissextos e ajustar segundos - mas a Páscoa deixaria de ser um feriado móvel e isto tornaria bem mais simples coisas como o planejamento de feriados escolares. Entretanto, se as pessoas vão querer fazer isso ou não, passa por uma questão religiosa."

E, levando em conta toda a história por trás da data, o debate sobre a questão ainda poderá se estender por muito tempo.

O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus

Edison VeigaDe Milão
BBC Brasil

Direito de imagem CÍCERO MORAES/BBC BRASIL Image caption 
Concepção artística do designer gráfico especialista em reconstituição facial forense 
Cícero Moraes mostRa que judeus que viviam no Oriente Médio
 no século 1 tinham a pele, o cabelo e os olhos escuros

Foram séculos e séculos de eurocentrismo - tanto na arte quanto na religião - para que se sedimentasse a imagem mais conhecida de Jesus Cristo: um homem branco, barbudo, de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis. Apesar de ser um retrato já conhecido pela maior parte dos cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo, trata-se de uma construção que pouco deve ter tido a ver com a realidade.

O Jesus histórico, apontam especialistas, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época.

A dificuldade para se saber como era a aparência de Jesus vem da própria base do cristianismo: a Bíblia, conjunto de livros sagrados cujo Novo Testamento narra a vida de Jesus - e os primeiros desdobramentos de sua doutrina - não faz qualquer menção que indique como era sua aparência.

"Nos evangelhos ele não é descrito fisicamente. Nem se era alto ou baixo, bem-apessoado ou forte. A única coisa que se diz é sua idade aproximada, cerca de 30 anos", comenta a historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do recém-lançado livro What Did Jesus Look Like? e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King's College de Londres.

"Essa ausência de dados é muito significativa. Parece indicar que os primeiros seguidores de Jesus não se preocupavam com tal informação. Que para eles era mais importante registrar as ideias e os papos desse cara do que dizer como ele era fisicamente", afirma o historiador André Leonardo Chevitarese, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução.

Em 2001, para um documentário produzido pela BBC, o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave utilizou conhecimentos científicos para chegar a uma imagem que pode ser considerada próxima da realidade. A partir de três crânios do século 1, de antigos habitantes da mesma região onde Jesus teria vivido, ele e sua equipe recriaram, utilizando modelagem 3D, como seria um rosto típico que pode muito bem ter sido o de Jesus.

 Image caption 
Ilustração feita por especialista Richard Neave para documentário da BBC em 2001
Esqueletos de judeus dessa época mostram que a altura média era de 1,60 m
 e que a grande maioria deles pesava pouco mais de 50 quilos. 
A cor da pele é uma estimativa.

Taylor chegou a conclusões semelhantes sobre a fisionomia de Jesus. "Os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio", afirma.

"Certamente ele era moreno, considerando a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto, gente que vive sob o sol intenso", comenta o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense com trabalhos realizados para universidades estrangeiras. Ele já fez reconstituição facial de 11 santos católicos - e criou uma imagem científica de Jesus Cristo a pedido da reportagem.

"O melhor caminho para imaginar a face de Jesus seria olhar para algum beduíno daquelas terras desérticas, andarilho nômade daquelas terras castigadas pelo sol inclemente", diz o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor da Universidade Federal de Alagoas e autor do livro O Código da Vinci e o Cristianismo dos Primeiros Séculos.

Outra questão interessante é a cabeleira. Na Epístola aos Coríntios, Paulo escreve que "é uma desonra para o homem ter cabelo comprido". O que indica que o próprio Jesus não tivesse tido madeixas longas, como costuma ser retratado.

"Para o mundo romano, a aparência aceitável para um homem eram barbas feitas e cabelos curtos. Um filósofo da antiguidade provavelmente tinha cabelo curto e, talvez, deixasse a barba por fazer", afirma a historiadora Joan E. Taylor.

 Direito de imagem ICON PRODUCTIONS/DIVULGAÇÃO Image caption
O ator Jim Caviezel interpretou Jesus no filme
 'A Paixão de Cristo', de 2004, dirigido por Mel Gibson

Chevitarese diz que as primeiras iconografias conhecidas de Jesus, que datam do século 3, traziam-no como um jovem imberbe e de cabelos curtos. "Era muito mais a representação de um jovem filósofo, um professor, do que um deus barbudo", pontua ele.

"No centro da iconografia paleocristã, Cristo aparece sob diversas angulações: com o rosto barbado, como um filósofo ou mestre; ou imberbe, com o rosto apolíneo; com o pálio ou a túnica; com o semblante do deus Sol ou de humilde pastor", contextualiza a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Museu de Arte Sacra de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião.

Imagens

Joan acredita que as imagens que se consolidaram ao longo dos séculos sempre procuraram retratar o Cristo, ou seja, a figura divina, de filho de Deus - e não o Jesus humano. "E esse é um assunto que sempre me fascinou. Eu queria ver Jesus claramente", diz.

A representação de Jesus barbudo e cabeludo surgiu na Idade Média, durante o auge do Império Bizantino. Como lembra o professor Chevitarese, eles começaram a retratar a figura de Cristo como um ser invencível, semelhante fisicamente aos reis e imperadores da época.

"Ao longo da história, as representações artísticas de Jesus e de sua face raras vezes se preocuparam em apresentar o ser humano concreto que habitou a Palestina no início da era cristã", diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Nas Igrejas Católicas do Oriente, o ícone de Cristo deve seguir uma série de regras para que a imagem transmita essa outra percepção da realidade de Cristo. Por exemplo, a testa é alta, com rugas que normalmente se agrupam entre os olhos, sugerindo a sabedoria e a capacidade de ver além do mundo material, nas cenas com várias pessoas ele é sempre representado maior, indicando sua ascendência sobre o ser humano normal, e na cruz é representado vivo e na glória, indicando, desde aí, a sua ressurreição."

 Direito de imagem DIVULGAÇÃO Image caption 
Joaquin Phoenix interpretou Jesus no filme 'Maria Madalena', de 2018

Como a Igreja ocidental não criou tais normas, os artistas que representaram Cristo ao longo dos séculos criaram-no a seu modo. "Pode ser uma figura doce ou até fofa em muitas imagens barrocas ou um Cristo sofrido e martirizado como nas obras de Caravaggio ou Goya", pontua Ribeiro Neto.

"O problema da representação fiel ao personagem histórico é uma questão do nosso tempo, quando a reflexão crítica mostrou as formas de dominação cultural associadas às representações artísticas", prossegue o sociólogo. "Nesse sentido, o problema não é termos um Cristo loiro de olhos azuis. É termos fiéis negros ou mulatos, com feições caboclas, imaginando que a divindade deve se apresentar com feições europeias porque essas representam aqueles que estão 'por cima' na escala social."

Essa distância entre o Jesus "europeu" e os novos fiéis de países distantes foi reduzida na busca por uma representação bem mais aproximada, um "Jesus étnico", segundo o historiador Chevitarese. "Retratos de Jesus em Macau, antiga colônia portuguesa na China, mostram-no de olhos puxados, com a forma de se vestir própria de um chinês. Na Etiópia, há registros de um Jesus com feições negras."

No Brasil, o Jesus "europeu" convive hoje com imagens de um Cristo mais próximo dos fiéis, como nas obras de Cláudio Pastro (1948-2016), considerado o artista sacro mais importante do país desde Aleijadinho. Responsável por painéis, vitrais e pinturas do interior do Santuário Nacional de Aparecida, Pastro sempre pintou Cristo com rostos populares brasileiros.

Para quem acredita nas mensagens de Jesus, entretanto, suas feições reais pouco importam. "Nunca me ocupei diretamente da aparência física de Jesus. Na verdade, a fisionomia física de Jesus não tem tanta importância quanto o ar que transfigurava de seu olhar e gestos, irradiando a misericórdia de Deus, face humana do Espírito que o habitava em plenitude. Fisionomia bem conhecida do coração dos que nele creem", diz o teólogo Francisco Catão, autor do livro Catecismo e Catequese, entre outros.