terça-feira, agosto 07, 2018

O ser humano rumo à imortalidade?

 Thaís Botelho
Revista VEJA

Robôs capazes de tratar doenças em nível molecular e remédios que bloqueiam o envelhecimento acenam para algo que a ciência não admitia: a vida eterna

 (Hybrid Medical Animation/Science Photo Library/Divulgação)
Precisão - Na ilustração, a representação do uso da nanotecnologia
 para fazer intervenções médicas no interior do corpo

Vita brevis, ars longa. Se há algum debate a respeito da segunda parte dessa máxima do grego Hipócrates (460 a.C.-375 a.C.), o “pai da medicina”, consagrada por Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), celebridade da Roma Antiga — ars, em latim, teria no original o significado de techne; assim, a frase se referiria ao tempo necessário para adquirir uma habilidade, e não à arte propriamente dita —, sobre a primeira nunca existiu polêmica. Sempre se acreditou: a vida é breve. Para se ter uma ideia, ainda no século XIX “vida longa” era passar dos 35 anos, o que então não era comum.

Pois bem: um século e meio depois, a expectativa de vida dobrou: hoje é de 72 anos. Com isso, começa a ser posta em xeque a velha expressão da Antiguidade. Até o fim deste século, atingir os 100 anos, e com saúde, não será difícil. Estamos vivendo mais — e o aumento do tempo de vida vem se acelerando de modo espantoso. Mas até onde conseguiremos ir? “Driblaremos a morte”, disse a VEJA o cirurgião francês Laurent Alexandre, estudioso de revoluções tecnológicas que assina um livro chamado justamente A Morte da Morte (Editora Manole), lançado no Brasil neste ano.

Há apenas uma década não existia consenso científico de que seria possível encontrar caminhos para frear o passar da idade. No máximo se admitiam as chances de melhorar a qualidade de vida dos idosos. Agora, o cenário mudou completamente. Uma das grandes ferramentas para a imortalidade — não existe outra palavra para definir o que se está discutindo —, apontada por Laurent Alexandre em sua obra, é o uso da nanotecnologia na medicina. Nanorrobôs ou nanopartículas de tamanho microscópico permitirão intervenções no corpo humano em nível molecular. Sua abso¬luta precisão possibilitará, por exemplo, o uso de quantidades direcionadas de remédios, uma vez que o mecanismo poupará as células sadias que estejam ao redor das adoentadas. A técnica também facilitará a investigação detalhada do organismo. Uma referência do que está por vir nesse campo foi o lançamento, no fim de 2017, da primeira pílula digital. Em novembro passado, a FDA, agência americana reguladora de remédios, deu o seu aval para um comprimido que tem embutido um sensor do tamanho de um grão de areia capaz de emitir informações de dentro do corpo do paciente, como a dose da medicação absorvida.

(Sean Gallup/Getty Images)
Século de festa - Expectativa: será fácil chegar em forma aos 100 

Outra forma de usar a tecnologia como ferramenta antienvelhecimento diz respeito ao acesso às informações do doente. E isso já está ocorrendo. O Watson, plataforma inteligente da IBM, por exemplo, consegue analisar em pouco tempo centenas de milhares de estudos científicos para compreender situações extremamente específicas, como a mutação de uma célula cancerosa. Sem os avanços da era digital, isso exigiria 38 anos de trabalho humano. Outro bom exemplo foi o investimento do Google na criação da Calico, empresa que conta com cientistas e desenvolvedores de softwares para criar uma fórmula para a imortalidade com base em dados biológicos. Calcula-se que em 2030 não haverá diagnóstico médico sem esses sistemas inteligentes — profissionais da saúde e os próprios pacientes terão acesso a um número de informações 1 milhão de vezes maior que o disponível hoje.

Há ainda outra frente tão ou mais importante que os tratamentos em si para tornar a imortalidade algo palpável: os remédios que poderão aumentar o tempo de vida bloqueando compostos e mecanismos associados ao envelhecimento. Um exemplo é o que se tem descoberto com a rapamicina, um imunossupressor, tipo de remédio originalmente usado contra o processo de rejeição a órgãos transplantados. Trabalhos americanos conduzidos pelo Texas Health Science Center e pelo Instituto Barshop de Estudos de Longevidade e Envelhecimento, feitos com camundongos de 20 meses de idade (o equivalente aos nossos 60 anos), mostraram que o fármaco prolongou a vida em cerca de 25%. O medicamento inibiu a atividade de uma enzima chamada mTOR, que regula o metabolismo das células e está também envolvida no mecanismo do envelhecimento. “Nosso corpo será tratado pela medicina como a engenharia lida com uma máquina: danificou, reparou”, acredita Aubrey de Grey, biólogo e gerontologista britânico, autor do livro O Fim do Envelhecimento, publicado em junho na versão digital no Brasil. Nele, Grey cita os chamados medicamentos “senolíticos”, drogas que eliminam células que param de se dividir com o passar do tempo. O acúmulo delas no organismo é um dos princípios do processo de envelhecimento. Nos Estados Unidos, o laboratório Buck Institute for Research on Aging, em parceria com a Clínica Mayo, organização sem fins lucrativos, comprovou que em animais aqueles remédios reduziram a velocidade do envelhecimento celular em um terço. O que se fará com a vita longa que se anuncia no horizonte é uma questão espinhosa — capaz de se estender pela eternidade.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593

Após 17 mil dislikes, comercial do Boticário ‘vence’ ataques racistas

Da Redação
Veja online

Propaganda só com atores negros recebeu onda de 'descurtidas' e comentário irônicos de cunho racista – mas as reações positivas ganharam de goleada

(YouTube/Reprodução)
Comercial de Dia dos Pais da marca O Boticário 

Uma propaganda de Dia dos Pais da marca de cosméticos O Boticário publicada na semana passada recebeu uma onda de “dislikes” e comentários irônicos no YouTube. O motivo? O comercial – divertido – mostra uma família negra feliz celebrando a data.

As mensagens de cunho racista questionavam a ausência de brancos em uma crítica debochada à falta de “diversidade” da propaganda. “O Boticário só fabrica perfumes para afros?”, dizia um dos comentários.

 (O Boticário/Youtube/Reprodução)
Vídeo de Dia dos Pais da marca ‘O Boticário’
 recebeu comentários racistas e irônicos no YouTube 

Diante da repercussão, a marca postou uma mensagem defendendo a campanha. “Já faz bastante tempo que trazemos representatividade e diversidade para as nossas campanhas. E temos muito orgulho disso. Mas as reações que o nosso filme gerou só mostram pra nós que temos muito trabalho a fazer. A gente acredita no respeito a todas as pessoas e deseja que, em breve, isso não seja mais motivo de desconforto pra ninguém.”

A propaganda, porém, não atraiu só os trolls. A maioria dos comentários elogiou a iniciativa e, apesar do alto número de reações negativas, as reações positivas vencem de goleada: mais de 100.000 “curtidas” contra 17.000 “descurtidas”. O vídeo já foi visto mais de 6,5 milhões de vezes.


O Boticário põe família negra em comercial – e os racistas não gostam

Guilherme Dearo
Exame.com

Campanha de Dia dos Pais do Boticário no YouTube foi alvo de ataques de ódio

 (O Boticário/Divulgação)
Dia dos Pais: comercial de O Boticário traz campanha engraçada com família negra

São Paulo — Apesar de a maioria dos brasileiros ter a cor “parda” ou “preta” (termos segundo classificação do IBGE), essa proporção não aparece em comerciais, filmes, telenovelas e capas de revista. Um estrangeiro desavisado que ligar a TV na novela das nove e vir a Bahia vai pensar que, no Brasil, a esmagadora maioria é branca.

Por causa desse problema, a representatividade negra, quando ocorre, é celebrada e comemorada por boa parcela da população, negros e brancos. Mas o fato também atrai a atenção dos racistas (travestidos de não racistas), que se incomodam e reagem diante dos “avanços”.

Em sua nova campanha de Dia dos Pais, a marca O Boticário colocou uma família negra estrelando o vídeo bem humorado, onde um pai não é tão engraçado quanto ele acha que é. O fato de a família ser negra, na verdade, não é o assunto do comercial. Se é uma família brasileira, nada mais natural que seja negra.

No YouTube, a versão de 30 segundos da campanha acabou virando alvo de um ataque aparentemente coordenado de racistas, que conseguiram dar 16 mil “não gostei” ao vídeo. Nos comentários, muitos tentavam se passar por bem-intencionados e perguntavam “cadê a representatividade?”, com ironia.

Para eles, o comercial era racista… porque só tinha negros. No mundo ideal deles, era para ter brancos também. Eles se esqueceram dos outros milhares de comerciais feitos só com brancos. Claro, boa intenção disfarçada de racismo. Eles acham que branco também sofre racismo.

Apesar dos ataques e do ódio, os defensores da campanha (brancos ou negros) deixaram 48 mil curtidas e mais de 6,5 milhões de visualizações do vídeo em quatro dias.

Uma mulher resumiu bem, nos comentários, a situação: “Negros: ficaram felizes em ver uma família negra em um comercial, representatividade; Brancos não racistas: nem perceberam nada, viram apenas um comercial com uma família; Brancos racistas: deram dislike e estão nos comentários destilando ódio e racismo, cobrando ‘representatividade’, sendo que 90% dos comerciais, séries, novelas, etc. são representados por brancos e eles não cobram a inclusão de negros, índios, descendentes de asiáticos.”

Assista:


Era dos robôs está chegando e vai eliminar milhões de empregos

Paulo Feldmann  
O Estado de S.Paulo

Foto: Cecília Bastos / USP Imagens 

Em breve um robô vai lhe entregar a pizza de domingo. Talvez seu condomínio não exija que você desça até a portaria para apanhá-la, pois não vão suspeitar que possa ser um assalto. Na Alemanha, esse serviço já está funcionando — e a pizzaria é uma rede que atua no Brasil.

Mas isso é pouco: logo essa pizza será resultado de um processo totalmente automatizado. Se você acha que esse cenário pertence à ficção, ou que vai demorar muitos anos até ele se tornar realidade, pesquise sobre a americana Zume Pizza. Situada no Vale do Silício, a casa entrega comida feita por robôs. E o pior é que os consumidores da Califórnia têm adorado a novidade.

Pior por quê? Porque é enorme a quantidade de empregos que será eliminada. Alguns poderão afirmar que esses postos de trabalho demandam baixa qualificação e que o importante é aumentar a produtividade — no caso, a das pizzarias.

O argumento perde metade de sua força quando se sabe que, na mesma Califórnia da pizza robotizada, quem se envolve em problemas de trânsito não depende mais de advogados para apresentar recursos. Um dos maiores fabricantes de computadores criou um robô, baseado em inteligência artificial, capaz de elaborar petições para quem quiser recorrer de uma multa, por exemplo. O interessado não precisa dar um único telefonema, nem para o despachante, nem para o defensor.

Exemplos como esses se reproduzem em todos os setores da economia mundial. Eles ilustram um processo novo e muito importante: as empresas se automatizam cada vez mais, com softwares poderosos e inteligência artificial, de tal modo que se expandem empregando número muito menor de trabalhadores.

É o que os americanos chamam de jobless growth, crescimento sem empregos. Há muitos anos se previa que isso poderia acontecer — e agora a previsão virou realidade. Diante desse cenário, como a humanidade vai reagir?

Rebeliões contra a mecanização ou a automação dos processos produtivos não são inéditas. Quando o arado passou a ser utilizado na agricultura e muitos trabalhadores perderam seus empregos, foi grande a oposição ao novo instrumento. Na Inglaterra do século 19, os ludistas destruíam os teares em sua revolta contra a substituição da mão de obra humana pelas máquinas. Nos Estados Unidos do século 20, Henry Ford foi considerado um grande inimigo dos manobristas de charretes.

A tecnologia, contudo, sempre venceu. Por um lado, pois aumentava a produtividade da economia como um todo; por outro, e não se pode ignorar este fator, porque só afetava empregos de baixa qualificação.

Aí está a diferença desta vez: agora os empregos de alta qualificação também são afetados — e muito. O mesmo robô que faz as vezes de advogado consegue ler mil tomografias por hora; os médicos que avaliaram seus diagnósticos e resultados concluíram que estavam certos em 99% das ocasiões. Ou seja, uma das profissões mais valorizadas e intelectualizadas hoje em dia está sob ameaça. Em suma, a classe média está saindo do paraíso.

Wolfgang Streeck entra fundo nesse tema em seu livro How Will Capitalism End? (Como o capitalismo vai terminar?), editado pela Verso e lançado em 2016. Para o autor, a inteligência artificial e a robotização vão fazer com a classe média o que a mecanização fez com a classe trabalhadora nos séculos 19 e 20. Ele afirma que os únicos beneficiados serão os donos dos robôs.

Assim como foi chamado de mecanização o processo de substituição da mão de obra menos qualificada por máquinas, que se desenrolou no final do século 19 e durante praticamente todo o século 20, Streeck cunhou o termo “eletronização” para denominar essa nova fase, na qual computadores e robôs passam a ser dotados de competência para criar e desenvolver tarefas cognitivas simplificadas, além de tomar algumas decisões. No século 21, a eletronização deve afetar a maior parte das atividades profissionais. A maior parte, mas não todas. Ao que tudo indica, algumas profissões nos extremos estão a salvo.

Estudos mostram que pessoas em funções no topo da pirâmide, que em geral demandam criatividade e capacidade de solucionar problemas, não têm o que temer. As máquinas ainda não conseguem desempenhar tais tarefas com a mesma eficácia. Estão nessa categoria certos ramos da engenharia e das ciências, por exemplo.
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Agora os empregos de alta qualificação também são afetados — e muito. O mesmo robô que faz as vezes de advogado consegue ler mil tomografias por hora; os médicos que avaliaram seus diagnósticos e resultados concluíram que estavam certos em 99% das ocasiões.
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Algo semelhante se passa na outra ponta. Trabalhadores manuais sem qualificação nenhuma, como faxineiros ou pedreiros, tampouco serão afetados — não porque a tecnologia não os tenha alcançado, mas por não valer a pena economicamente.

Entre os extremos, as funções mais sujeitas a serem eliminadas são as que exigem repetição. Importa pouco que seja uma atividade fabril ou de serviços, que envolva operários ou profissionais liberais. A questão é: quanto mais rotineira for uma profissão, maior a chance de ela desaparecer — mesmo que demande algum brilho cognitivo.

Um dos livros mais importantes sobre o tema é Rise of the robots: technology and threat of a jobless future (“Ascensão dos robôs: tecnologia e a ameaça de um futuro sem emprego”), de 2015. Seu autor, Martin Ford, também sustenta que há uma grande diferença entre o que aconteceu no passado e o que vai acontecer agora.

Antigamente, diz Ford, quando um setor se modernizava e com isso eliminava empregos, restava ao trabalhador se mudar para outra atividade econômica. Hoje, contudo, esse caminho não é uma opção sempre válida, pois inúmeros setores estão se modernizando ao mesmo tempo. Ou seja, trata-se agora de fugir das atividades rotineiras e repetitivas e procurar abrigo naquelas que exijam habilidades (ainda) não dominadas pelos robôs.

Questões tributárias e regulatórias podem retardar a utilização desses equipamentos no Brasil, mas nem por isso os brasileiros deveriam estar menos preocupados. Na medida em que o avanço tecnológico e os ganhos de escala tornarem a produção de robôs mais barata, multinacionais tenderão a repensar suas estratégias. Se hoje companhias dos países mais desenvolvidos instalam-se em nações menos avançadas a fim de aproveitar a mão de obra barata, talvez em breve elas considerem mais vantajoso manter uma fábrica quase 100% automatizada em território americano ou europeu.

Muita gente acha que as empresas norte-americanas que operavam na Ásia e no México estão voltando aos Estados Unidos por causa dos pedidos de Donald Trump. Ledo engano. A nova tendência corporativa, que já vem sendo adotada por muitas multinacionais, beneficia-se dos avanços tecnológicos, aqui incluído também outro equipamento revolucionário — as chamadas impressoras 3D, ou impressoras aditivas. Com elas, tornou-se possível fabricar peças e componentes nos próprios locais onde eles são necessários.

Ou seja, um dos princípios básicos da globalização — o uso de cadeias de valores espalhadas pelo mundo — pode estar em xeque. Montadores de automóveis, por exemplo, recorrem à dispersão geográfica da produção, fabricando cada parte ou peça dos veículos na região ou país que ofereça as maiores vantagens competitivas. Isso deixará de existir. Graças às impressoras 3D, esses componentes poderão ser feitos onde se situa a matriz da empresa.

Não surpreende, assim, que toda essa parafernália tecnológica venha sendo chamada por muitos de indústria 4.0, ou que a renovação que ela possibilita seja classificada como a quarta Revolução Industrial. Robôs, inteligência artificial e impressoras 3D são apenas uma parte desse fenômeno, que inclui ainda a internet das coisas (IoT), a computação na nuvem, a nanotecnologia etc.

Todos esses avanços destinam-se a aumentar a produtividade das fábricas; nenhum leva em conta a possibilidade de preservar empregos.

Economistas têm procurado calcular o tamanho do impacto da revolução em curso. Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente da Universidade Harvard, chama a atenção para uma grande diferença entre a automatização de agora e aquela promovida nos anos 1960 e 1970 (ele fez uma síntese interessante num painel de 2015, The future of work, “O futuro do trabalho”).

Naquelas décadas, a intensa modernização da maioria dos setores afetou 5% dos empregos. Desta vez, segundo cálculos de Summers, as novas tecnologias sacrificarão algo entre 15% e 20% dos postos de trabalho.

São estimavas modestas se comparadas com as dos economistas Michael Osborne e Carl Frey, ambos da Universidade Oxford, no Reino Unido. Em um célebre estudo de 2013, eles afirmaram que, até 2030, cerca de 45% dos empregos americanos poderão ser eliminados (The future of employment: how susceptible are jobs to computerisation?, “O futuro do emprego: quão suscetíveis à informatização são os empregos?”).

Uma das variáveis dessa equação é o espantoso barateamento dos preços de robôs, softwares de inteligência artificial e outros equipamentos de alta tecnologia. Há dez anos, muitos desses dispositivos eram impensáveis para companhias médias ou mesmo grandes; hoje, até pequenas empresas conseguem comprá-los.

Outra variável é a frustração das expectativas quanto à substituição dos empregos. Imaginava-se que a sociedade pós-industrial geraria ocupações em novos setores, sobretudo ligados à área de serviços, para absorver os trabalhadores deslocados da indústria. Essa perspectiva foi descartada; os equipamentos de ponta são mais utilizados justamente no setor de serviços, onde mais se estão eliminando funções.

Ao mesmo tempo, as ocupações criadas como decorrência dessas tecnologias são em quantidade diminuta. Estudo de 2017 feito no Canadá mostra que, na hipótese mais otimista, os novos empregos não chegam a 4% do total de postos de trabalho existentes naquele país (Future shock? – the impact of automation on Canada’s labour market, choque futuro – o impacto da automação no mercado de trabalho do Canadá, de Matthias Oschinski e Rosalie Wyonch).
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A nova tendência corporativa, que já vem sendo adotada por muitas multinacionais, beneficia-se dos avanços tecnológicos, aqui incluído também outro equipamento revolucionário — as chamadas impressoras 3D, ou impressoras aditivas. Com elas, tornou-se possível fabricar peças e componentes nos próprios locais onde eles são necessários.
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Sem contar que é praticamente impossível prever hoje quais empregos vão surgir nos próximos 40 anos. Para exemplificar, Joel Mokyr, um renomado professor de história da economia na Universidade Northwestern (EUA), afirmou em entrevista à revista The Economist que há 40 anos ninguém teria adivinhado que profissões como projetista de videogame ou especialista em cybersegurança seriam importantes.

Mas uma coisa é certa: é muito pequena a probabilidade de que surjam novas atividades e profissões nas quais a presença de seres humanos seja imprescindível. Robôs e equipamentos de automação mostram-se cada vez mais sofisticados, aptos a desempenhar mais e mais funções. Ou seja, não se deve apostar que a criação de postos de trabalho não previstos poderá resolver o problema do desemprego.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem 194 milhões de pessoas desempregadas no mundo, quase um Brasil inteiro. O que poderá acontecer com as taxas de desemprego nos próximos anos? Como a tendência implicada pela automação é certa e irreversível, a geração de empregos vai cair. Não se sabe para qual patamar, mas será uma situação dramática — e a sociedade precisa agir.

A situação embute um paradoxo. Por um lado, a solução deveria envolver as grandes empresas, principalmente as que mais estão se beneficiando das novas tecnologias. Assim como questões de ética concorrencial e proteção do meio ambiente, a preservação de postos de trabalho precisa entrar na pauta da responsabilidade social corporativa. Além disso, se, por hipótese, todas as companhias dispensarem seus empregados ou a maior parte deles, não haverá mercado consumidor.

Por outro, essas companhias não podem abrir mão da automação; ganhar produtividade é crucial para quem quer se manter vivo num mercado competitivo. Como consequência, investem em robôs, inteligência artificial, drones etc., contribuindo para o desemprego.

Uma das maiores dificuldades está na própria teoria econômica, que ainda não avançou o suficiente para perceber que nem sempre o mercado resolve tudo: se deixarmos para o mercado, vamos assistir ao crescimento cada vez maior das empresas gigantes, o que significará menos emprego e menos consumidores.

Por que as empresas gigantes? Porque só vence uma competição acirradíssima quem tem capacidade de fazer investimentos em robôs cada vez mais poderosos. Com isso, as já muito grandes se tornam ainda mais produtivas e acabam adquirindo ou eliminando concorrentes menores, num processo de oligopolização em curso nos mais diversos setores, mas sobretudo onde há maior demanda por tecnologia de ponta.

O problema vem sendo pensado e discutido à exaustão em alguns países, com destaque para Alemanha, França e Itália. A recomendação mais importante é a de que haja redução na jornada de trabalho. Na França e na Itália, a jornada semanal já é de 34 horas, contra 40 no Brasil.

Embora a medida tenha sido bem-sucedida no início, ainda nas décadas de 1980 e 1990, após alguns anos se percebe que ela só será efetiva se for adotada por todos países. É que, com as facilidades da globalização —e com as novas possibilidades oferecidas pelas tecnologias de ponta—, as empresas que querem aumentar sua produtividade simplesmente evitam lugares onde a jornada de trabalhado tenha sido reduzida.
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Uma coisa é certa: é muito pequena a probabilidade de que surjam novas atividades e profissões nas quais a presença de seres humanos seja imprescindível.
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De qualquer forma, a própria OIT prioriza essa iniciativa, e a frase “trabalhar menos para que todos trabalhem” virou um lema muito utilizado na Europa.

Outra medida bastante polêmica vem sendo alardeada por sindicatos britânicos: eles defendem uma atuação conjunta de governos, empresários e organizações de trabalhadores para estabelecer um imposto sobre ganhos de produtividade decorrentes do uso de robôs ou outras tecnologias de automação.

A alíquota do tributo seria diferenciada por segmentos da economia. Assim, sobre o setor bancário, incidiria uma taxa maior do que sobre o da construção civil, pois neste último os impactos da automação são menores. Esses impostos, além disso, teriam destinação específica, qual seja, a criação de empregos públicos nas áreas de educação e saúde.

Como sempre, os países mais avançados nessa discussão são os escandinavos. Por lá, predomina a ideia de introduzir um programa de renda mínima nacional. Todo cidadão receberia um valor mensal que lhe garantiria a subsistência, independentemente de ele estar ou não trabalhando. O pressuposto por trás desse tipo de ação é que o desemprego vai crescer de forma assustadora nos próximos anos e toda a sociedade precisa estar protegida.

Nesse debate, há ainda a considerar as questões filosóficas suscitadas pelas novas tecnologias. Computadores e robôs sabem ler textos e fazer cálculos há bastante tempo, mas só recentemente passaram a enxergar, ouvir e falar. Devido ao avanço da inteligência artificial, também passaram a ter… inteligência. A humanidade deveria se preocupar com esse fato, na linha do que sugerem filmes como O Exterminador do Futuro e Matrix?

Existem diversos grupos de cientistas, futurólogos e filósofos que especulam cenários apocalípticos. Vernor Vinge é um deles. Respeitado professor de matemática e computação da Universidade de San Diego na Califórnia, escreveu livros de ficção sobre a era em que os computadores e robôs serão equivalentes aos seres humanos —como The Children of The Sky (“As crianças do céu”) e Rainbows End (“O fim do arco-íris”). Para ele, isso deve começar a acontecer em menos de 15 anos e será a maior mudança no planeta após o surgimento da vida humana.

O recém-falecido cientista Stephen Hawking era um dos estudiosos da inteligência artificial que mais se preocupavam com as consequências negativas dessa tecnologia. Ele chegou a antever o fim da raça humana como decorrência do poder incontrolável que as máquinas passarão a deter.

A mesma posição vem sendo manifestada pelo visionário Elon Musk, fundador da Tesla (uma das maiores fabricantes de carros elétricos do mundo) e da SpaceX, empresa que pretende pôr um homem em Marte nos próximos dez anos. Musk defende a criação de uma espécie de órgão regulador com a função de prevenir situações futuras em que equipamentos dotados de inteligência artificial poderiam ameaçar a sobrevivência de humanos.

Quanto a isso, assim como em relação à ameaça do crescimento sem empregos, a situação também termina em paradoxo. Uma empresa ou um país que resolver frear o desenvolvimento tecnológico para evitar uma catástrofe —tanto quanto para evitar a extinção de postos de trabalho— acabará perdendo competitividade nacional e internacional.

Como consequência, essa empresa ou esse país se verá às voltas com o desemprego (fruto da diminuição da fatia de mercado decorrente da menor competitividade) e não terá interrompido a escalada tecnológica de outras empresas ou outros países.

Apesar de todos estes aspectos assustadores, o que há de pior para um país é não discutir o assunto. E é justamente isso o que acontece no Brasil, mesmo neste ano eleitoral.

 Paulo Feldmann é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e autor do livro “Robô: ruim com ele, pior sem ele”

Este texto foi originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo de 27/7/2018.

Como usar seu perfil no LinkedIn para conseguir emprego

Por Redação, do Na Prática
Exame.com

Diretor regional do LinkedIn para a América Latina explica como os profissionais podem tirar o máximo proveito da rede social na busca de emprego

(Tim Boyle/Bloomberg)
LinkedIn: você sabe usar todos os recursos da rede social 

O LinkedIn é uma rede social fundada em maio de 2003. Apesar da característica específica de ser mais voltado para os negócios, uma vez sendo uma rede social,é preciso ter em mente que, no LinkedIn, assim como no Facebook, interagir com outros usuários é imprescindível.

Não se trata somente de ter muitas conexões, como são chamadas as “amizades” dessa rede, mas de produzir engajamento a partir da dessas e outras conexões. Exemplos disso são postagens que podem ser feitas no perfil para estimular a interação com os usuários (por compartilhamento, curtidas, comentários) e também fazer o mesmo com as publicações de outras pessoas, desde que, claro, tenha um interesse real no assunto tratado.

Em um processo seletivo, não só essas interações são importantes, mas também manter o perfil no LinkedIn completo e atualizado são características diferenciais, já que aumentam as chances de a página pessoal na rede social ser bem recomendada pelo próprio LinkedIn e, assim, atrair o interesse de recrutadores.

Toda experiência conta

Para sanar as dúvidas e reunir dicas sobre a rede de relacionamento profissional, o Na Prática conversou com Milton Beck, diretor regional do LinkedIn para a América Latina. Segundo o executivo, a primeira coisa que quem está ingressando no mercado de trabalho precisa ter em mente (principalmente no caso de candidatos a vagas de trainee e estágio) é que “tudo conta como experiência válida: trabalho de conclusão de curso, projetos acadêmicos, trabalhos voluntários, tudo isso é bem visto pelos recrutadores”.

Além disso, segundo Beck, é necessário que o perfil tenha todos os campos preenchidos corretamente. “Uma dica bem básica e que é muito eficaz é verificar se o seu perfil está com todas as informações completas e se seu resumo e descrição de cargos estão com palavras-chave de sua profissão – afinal, os recrutadores buscam profissionais com ferramentas que rastreiam essas palavras”, diz.


Quanto mais, melhor?

No que diz respeito à quantidade de conexões, é comum que usuários de redes sociais pensem que seja fundamental ter “muitos amigos” e, eventualmente, passam a adicionar (ou aceitar como amizade) qualquer pessoa, seja ou não conhecida; tenha ou não identificação com ela.

Para o diretor regional da companhia, o ideal é manter conexões com pessoas que tenham a ver com seus interesses, e isso vale até mesmo para quem está dando os primeiros passos no mercado. “No LinkedIn, não vale a máxima de quanto mais, melhor. Como nesta fase o candidato não tem muitas conexões profissionais, ele pode começar se conectando com colegas de classe, professores que podem ajudá-lo neste começo de carreira”.

Na rede de negócios, também é possível seguir usuários sem que eles pertençam a sua rede de amizades. E fazer isso também é uma boa dica. “Como fonte de conteúdo é recomendável que o usuário, sendo jovem ou não, siga empresas que com as quais se identifica e outros usuários que publiquem conteúdo relevante, como digital influencers, empresários, empreendedores, etc., e que estejam inseridos no seu meio ou no meio em que ele almeja trabalhar.

Por exemplo, se esse jovem está se formando em Economia, seria interessante que ele estivesse por dentro do cenário atual do país por meio desses usuários reconhecidos, artigos, ou pelo boletim diário do LinkedIn”, explica Milton Beck.

O que compartilhar?

Como já dissemos, manter um perfil atualizado é fundamental, mas pode haver muitas dúvidas, principalmente por parte de quem está iniciando a carreira, sobre com que freqüência fazer essa atualização e, também, que tipo de conteúdo publicar. De acordo com o executivo do LinkedIn, “o ideal é que o usuário entre todos os dias na plataforma, compartilhe artigos e notícias, pelo menos, três vezes por semana, e publique, pelo menos, duas vezes ao mês”.

O uso de vídeos nos posts também é uma boa dica, pois podem gerar mais engajamento, mas, nesse caso, vale um alerta: o conteúdo deve estar dentro do contexto de perfil desse usuário. “Se ele for um jornalista recém-formado e esteja à procura de uma vaga de produtor de conteúdo, ele pode usar esse formato para alavancar suas publicações.”

E, se o bom senso deve acompanhar qualquer postura, seja pessoal ou profissional, não seria diferente no LinkedIn. Perguntamos ao executivo da plataforma quais seriam as dicas de boas maneiras para usar a rede. “Além das boas práticas relacionadas ao conteúdo (não postar nada ofensivo, com teor de preconceito) e ter um perfil com informações verídicas, quando um usuário identifica na rede alguém que admira e que com quem gostaria de trabalhar, pode começar a seguir esta pessoa para acompanhar os conteúdos postados e compartilhados e, posteriormente, enviar uma mensagem se mostrando disponível para uma conversa e falar um pouco mais sobre sua carreira”.  

Com bom senso, interesse e dedicação de pelo menos alguns minutos diários, o LinkedIn pode ser uma ferramenta capaz de auxiliar não apenas na pesquisa de vagas relevantes, mas também de aproximação entre o candidato e os profissionais que admira.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Na Prática, portal da Fundação Estudar

Na era digital, ativos intangíveis trazem riqueza – e desigualdade

José Roberto Mendonça de Barros
Exame.com

Em novo livro, dois economistas argumentam que o investimento em bens imateriais está ligado ao sucesso das empresas, mas também à desigualdade social

/ Brooks Kraft LLC/Corbis /Getty Images (/)
Escritório do Google no Vale do Silício: a empresa vale 820 bilhões 
de dólares na bolsa, mas seus bens físicos somam apenas 41 bilhões

Os dados mais recentes mostram que as companhias de tecnologia Google, Apple e Microsoft são três das empresas mais valiosas do mundo. Seu valor de mercado somado é superior a 2,5 trilhões de dólares — mais do que o produto interno bruto do Brasil em 2017. O total de ativos do Google é de 197 bilhões de dólares; da Apple, de 375 bilhões; e da Microsoft, de 256 bilhões. Entretanto, o fato curioso é que ativos físicos, como imóveis, fábricas e equipamentos, representam uma fração pequena desses números — apenas 21% no Google, 9% na Apple e 10% na Microsoft. Isso é capitalismo sem capital.

Após a crise financeira de 2008, a agenda econômica mudou. Economistas, líderes políticos e empresariais hoje discutem como aprimorar o sistema financeiro, como lidar com a crescente piora na distribuição da renda e da riqueza e como entender a relativa estagnação da produtividade. Ao mesmo tempo, o investimento nos chamados intangíveis — isto é, os ativos imateriais das empresas — não para de crescer e, em muitos países, já ultrapassa o investimento tangível, ou físico. O sucesso das empresas tem cada vez menos relação com seu capital produtivo tangível (o investimento feito em máquinas, equipamentos, fábricas e escritórios) e mais com seus bens imateriais, de valor intangível (marca, propriedade intelectual, softwares, habilidades dos funcionários, entre outros aspectos).

Essa é a ideia por trás do livro Capitalism without Capital: The Rise of the Intangible Economy (“O capitalismo sem capital: a ascensão da economia intangível”, numa tradução livre), escrito pelos economistas britânicos Jonathan Haskel, professor na universidade Imperial College London, e Stian Westlake, diretor executivo da fundação Nesta, organização sem fins lucrativos que dá apoio à inovação.

O argumento central do livro é que existe algo fundamentalmente diferente nos ativos intangíveis, e compreender sua importância é indispensável para responder a alguns dos desafios econômicos de hoje, ligados à inovação, à desigualdade, ao papel da gestão nas empresas e às reformas financeira e política. O livro tem como ponto de partida um exemplo singelo de como os ativos intangíveis são essenciais para os negócios hoje. Phillip Mills, dono de uma academia na Austrália, juntou conhecimentos técnicos e práticas esportivas e desenvolveu um modelo de treino físico chamado body pump que fez muito sucesso localmente. Depois de codificado, Mills produziu um manual, softwares e material de comunicação visual que se transformaram num produto licenciado para uso em diversos países. Foi simples assim: saiu de uma academia de ginástica para o mundo.

Existem quatro questões relevantes acerca dos intangíveis. Em primeiro lugar, as medidas tradicionais para calcular as taxas de investimento numa economia praticamente ignoram os ativos intangíveis ou, pelo menos, subestimam sua relevância. Só recentemente, por exemplo, o investimento em software entrou nos cálculos das contas nacionais, mas ativos como design, marca, processo de reengenharia, treinamento e outros ainda não são contabilizados.

Ainda assim, os autores mostram que as medidas já disponíveis revelam que, em muitos países desenvolvidos, o investimento intangível tem participação maior do que o investimento físico nas empresas. E isso faz a economia se comportar de forma distinta da tradicional em muitos aspectos. Diferentemente do investimento num prédio ou numa máquina, o custo de desenvolvimento de um bem intangível (um manual de operações, uma marca) raramente é recuperável porque é difícil de vendê-lo e ele tem uma utilidade específica para a empresa. São, por isso, denominados de “custos enterrados” (sunk costs). Entretanto, um gasto com uma ideia que não frutifique pode ser recuperado mais adiante numa nova aplicação encontrada para ela.

Em segundo lugar, o capital intangível transborda, extravasa e, portanto, gera efeitos (normalmente positivos) em outras áreas ou empresas, como o desenvolvimento de um novo modelo de negócios ou de um sistema de gestão. São os benefícios indiretos que os autores chamam, em inglês, de spillovers. Entretanto, como a base são ideias, é difícil, mesmo com a proteção de patentes, que a empresa responsável pela criação original possa reter todos esses benefícios. Ideias extravasam. Mas as empresas que conseguirem reter os spillovers — criando incubadoras ou estimulando desenvolvedores independentes, por exemplo — tendem a crescer mais, a entrar em outros segmentos e a ser muito lucrativas, como fizeram a varejista online Amazon, o Google e outras.

Em terceiro lugar, os investimentos intangíveis são escaláveis. O custo marginal de sua utilização é praticamente zero. Uma vez desenvolvido um sistema, ele pode ser acessado por dez pessoas ou 10 milhões sem que haja grande despesa adicional, ao contrário dos bens produzidos com capital tangível, em que as economias de escala são limitadas. E, por fim, em quarto lugar, os intangíveis têm grandes sinergias ou complementaridades, gerando resultados em combinações inesperadas. Toda inovação é combinacional: une ideias novas a outras já existentes. Os intangíveis também o são, tanto quanto têm sinergias com investimentos tangíveis, como automação industrial e impressoras 3D.

MONOPÓLIO E DESIGUALDADE

Essas quatro características têm consequências extraordinárias, como os autores discutem ao longo do livro. As empresas líderes em tecnologia atingiram uma escala sem precedentes, têm elevada produtividade, obtêm lucros crescentes e investem quantias enormes. Por exemplo, dados recentes mostram que o investimento dos Estados Unidos no primeiro trimestre deste ano foi fortemente concentrado em petróleo e grandes empresas de tecnologia. Entretanto, elas tendem a ser agressivas na compra de potenciais competidores ou até em sua inviabilização econômica. Isso gera uma situação na qual poucas empresas têm crescimento de produtividade, e um número não trivial de companhias fica para trás na evolução tecnológica, tem baixa eficiência, dívidas elevadas e resultados modestos. Isso ajuda a explicar a estagnação da produtividade nos países ricos.

Por outro lado, a natureza dos intangíveis gera um modelo no qual “o ganhador leva tudo”, que vem produzindo quase monopólios em diversas áreas (buscadores e redes sociais, por exemplo). Essa situação tem levado à pergunta: não será necessário que a regulação governamental dê algum limite ao excessivo poder de certas empresas? A questão, claramente, foi amplificada pelo problema das notícias falsas (ou fake news) e do uso não autorizado de informações pessoais como forma de gerar faturamento com as redes sociais. Na Europa já existem questionamentos nessa direção, e é certo que a agenda da regulação continuará a colocar a pergunta se a concentração em poucas grandes companhias de tecnologia afetará liberdades básicas.

 | Brooks Kraft LLC/Corbis /Getty Images
Estudantes na Universidade Harvard, nos Estados Unidos:
 as pessoas mais educadas e treinadas tendem a se beneficiar mais da nova economia 

Nos últimos anos, a piora na distribuição de renda dentro de muitos países desenvolvidos (embora tenha havido melhora na distribuição entre países, essencialmente resultante do desenvolvimento recente de China e Índia) tem sido uma das questões mais candentes. Há uma clara percepção de que o desenvolvimento tecnológico provavelmente vai levar a alguma perda líquida de postos de trabalho, mas é absolutamente seguro que certos grupos perderão consideravelmente mais — como pessoas mais velhas, mais pobres, com menor chance de aprender novas habilidades ou jovens formados em sistemas educacionais mais fracos.

Ao mesmo tempo, é também certo que os grupos mais educados, treinados e flexíveis são os que mais se beneficiam ao trabalhar nas empresas líderes, que, por sua vez, tendem a pagar remunerações acima da média. No mundo dos intangíveis, essas são as pessoas mais aptas a maximizar sinergias e capturar os spillovers, inclusive criando novas companhias. As empresas de tecnologia, certamente, não inventaram a recente piora na distribuição de renda, mas estão no centro dessa evolução.

 | Eric Thayer/Reuters
Fábrica abandonada em Detroit: as regiões ligadas 
às indústrias antigas estão ficando para trás 

Outro efeito do desenvolvimento dos intangíveis é que sinergias e spilloverstendem a levar a atividade econômica a se concentrar em certos locais, porque a circulação de ideias, pessoas e recursos é facilitada pela proximidade das empresas. Naturalmente, o Vale do Silício é o exemplo supremo, mas não é o único.

Em muitas cidades, a percepção dos benefícios do desenvolvimento de um sistema de empresas de tecnologia está levando o poder público a trabalhar ativamente na atração desses empreendimentos. O exemplo mais recente de sucesso está em Nova York. No Brasil, também há uma busca ativa pela atração desses projetos de tecnologia, como é o caso das iniciativas dos municípios paulistas de São Carlos e Piracicaba ou de Florianópolis. Um subproduto dessa movimentação é uma eventual acentuação da desigualdade geográfica em detrimento de regiões mais ligadas às indústrias antigas. A comparação de Nova York e o estado da Califórnia, de um lado, e o decadente meio-oeste industrial, de outro, é muito clara nos Estados Unidos e tem efeitos políticos expressos, por exemplo, na eleição do presidente americano, Donald Trump, em 2016.




Toque para ampliar

Por fim, os efeitos para os negócios também tendem a ser perversos. Quanto menor for a retenção e a captura dos spillovers para determinada empresa, mais difícil será projetar seu fluxo de caixa e estimar seu valor. Nesse caso, o financiamento privado fica mais difícil e só o suporte do setor público poderá viabilizar o desenvolvimento de novas tecnologias e o surgimento de novas empresas. Como se vê, Capitalism without Capital é um livro muito importante para compreender muitas facetas da economia moderna e, especialmente, os dilemas da regulação e da política pública.

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José Roberto Mendonça de Barros, um dos mais renomados economistas brasileiros, é sócio-diretor da consultoria MB Associados. Foi secretário de Política Econômica do governo Fernando Henrique Cardoso

Tiradentes: herói ou traidor?

Luís Antônio Giron
Revista ISTOÉ

Primeira biografia do alferes que virou “mártir da Inconfidência” traz revelações sobre o conspirador que delatou nove companheiros e se tornou místico



(Crédito:Divulgação)
SÍMBOLO
Obra expõe contradições de Tiradentes.
Na tela “Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte 
dos Inconfidentes”, de Leopoldino de Faria (séc. 19), 
ele surge como vulto republicano


José Joaquim da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, foi elevado a símbolo da liberdade do Brasil. Embora não haja notícia de um retrato seu, tornou-se a imagem mais poderosa da República. Mas o monumento do “mártir da Inconfidência” começa a derreter para dar lugar ao homem real com “O Tiradentes, uma Biografia de José Joaquim da Silva Xavier”, do jornalista Lucas Figueiredo, lançada pela Companhia das Letras. Trata-se da primeira narrativa documentada sobre o inconfidente. Figueiredo vasculhou fontes raramente consultadas — cartas reais, inventários, manuscritos e processos —, além de ter examinado objetos e lugares por onde passou o biografado.

Figueiredo descobriu que Tiradentes não possuía biografia. A lacuna se explica pela dificuldade de recuperar fatos antes da Inconfidência. “A bibliografia disponível se resumia a dois tipos de livros: os que se preocupavam em cultuar o mito e os trabalhos acadêmicos”, diz à ISTOÉ. “Esses últimos, mesmo que alguns sejam excelentes, tratam da relação de Tiradentes com a conjuração Mineira. Mais de 200 anos após sua morte, ainda não havia um livro que contasse a trajetória desse incrível personagem.”

Na pesquisa, Figueiredo colheu informações inéditas sobre a Inconfidência, que ambicionava instaurar uma democracia à americana nas Minas Gerais espoliadas após cem anos de corrida do ouro, iniciada em 1697. Entre as revelações está a participação de uma mulher na trama: a fazendeira Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, excluída do rol de réus. Outra novidade está no papel do visconde de Barbacena, governador da capitania de Minas, que protegeu os rebeldes e só os prendeu quando foram denunciados pelo negociante e conspirador Joaquim Silvério dos Reis.

(Crédito:Divulgação)
NO EXÉRCITO 
Ilustração de 1776 retrata um oficial do Regimento Regular
 da Cavalaria de Minas Gerais, do qual Tiradentes fez parte 

Ele também esclarece as atividades de Tiradentes como militar, dentista, minerador e empreendedor, e como ele liderou a conspiração ao pregar em público o ideário iluminista, algo que outros conjurados, como Tomás Antônio Gonzaga, desejavam discutir na surdina — e, por isso, entraram em conflito com Tiradentes. O livro relata a união tumultuada com Antônia Maria do Espírito Santo, 25 anos mais nova que ele, com quem teve uma filha, Joaquina.

Beato à força

Com base em depoimentos dados na prisão da Ilha das Cobras, onde permaneceu nos dois últimos anos de vida, Figueiredo retrata-o fragilizado, joguete doa frades franciscanos. “Ao contrário do que muitos dizem, Tiradentes não poupou todos os conjurados em seus depoimentos”, afirma. Submetido à tortura, delatou nove companheiros em troca do perdão que não ocorreu. Por não ser nobre nem religioso, foi o único condenado à forca por dona Maria I. Ela ordenou que a execução fosse um auto de fé exemplar. No Rio de Janeiro, na manhã de 21 de abril de 1792, Tiradentes foi conduzido da masmorra à forca, escoltado por padres e militares. No trajeto de dois quilômetros, o réu, fora de si, ora corria, ora era orientado a seguir uma “coreografia” em que imitava os Passos da Cruz e erguia o crucifixo com os olhos fixos. Figueiredo diz que os frades levaram à loucura.“O serviço espiritual que eles prestavam era uma lavagem cerebral que apagou a intensa flama rebelde de Tiradentes. Ele se tornou um ser dócil, subserviente e altamente místico.”

O legado de Tiradentes, segundo seu biógrafo, foi ter-se tornado “o amálgama de um sentimento de brasilidade”. Mesmo à força da manipulação, é sempre lembrado. “Não é à toa que, toda vez que o Brasil cai em crise, a figura de Tiradentes aparece”, afirma.” Pode reparar: recorremos a Tiradentes toda vez que tentamos cumprir a difícil tarefa de explicar o Brasil e os brasileiros.”








Santo milagreiro

Marcelo Marthe
Revista VEJA

Uma estupenda mostra de mestres italianos, com o grande Ticiano à frente, ilustra as razões da popularidade e da eterna atualidade de São Francisco de Assis

(Roma/Gallerie Nazionali d'Arte Antica. Palazzo Barberini/Divulgação)
Imitação de cristo - 
O personagem com o anjo, por Orazio Gentileschi: depois da Virgem e de Jesus, só dá ele 


(Museo Civico/Sezione Storico-Artistica/Rieti/Divulgação)
Pai dos pobres - 
Francisco, em obra do quattrocento, de Antoniazzo Romano (1467): santo “antenado” 

Notório pela humildade inquebrantável, São Francisco de Assis (1182-1226) não endossava a opinião que os outros tinham sobre sua aparência. Para os seguidores, o santo que renovou o cristianismo com sua opção radical pelos pobres sintetizaria a pureza da fé nos traços formosos de sua face. Mas Francisco, consciente de seu rosto fino e inexpressivo, autodefinia-se como um “franguinho preto”. A posteridade não avalizou a modéstia franciscana: desde sua morte, na Itália do século XIII, o franguinho tornou-se um poderoso emblema católico, como se atesta em São Francisco de Assis na Arte de Mestres Italianos, que estreia na quarta-feira 8 na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, e aportará em outubro no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Com vinte obras que vão do quattrocento renascentista às visões estupefacientes do barroco, passando por uma tela de quase 3 metros de altura do mestre da escola veneziana Ticiano Vecellio, o acervo resume a força do santo como inspiração para grandes pintores. Como estima o italiano Stefano Papetti, um dos curadores: “Depois de Cristo e da Virgem, nenhuma figura cristã foi tão celebrada em imagens”. A mostra é a versão ligeiramente reduzida de outra exibida em 2016 em Ascoli Piceno, cidadezinha italiana onde Francisco pregou há oito séculos e em cuja igreja se encontra a obra de Ticiano. A falta de ineditismo não afeta o essencial: quando um conjunto tão estupendo de arte italiana vem ao Brasil, só resta correr para a fila do museu.


(Polo Museale d'Abruzzo/Áquila/Divulgação)
Penitência – 
‘Êxtase’ (século XVII), de Cesare Fracanzano: sofrer é viver 

A vida simples e a pregação acessível de Francisco sempre fizeram dele um dos santos mais populares, e hoje seu misticismo pé no chão parece ter ganhado atualidade. Não é fortuito que ele dê nome ao papa de turno: Francisco é o santo “antenado” com a galera que professa a militância pela ecologia e pelos direitos dos animais, exercita o desapego por meio de hábitos colaborativos e prega a tolerância. “Seu estilo de vida continua moderno”, diz o curador.

(Pinacoteca Civica/Comune di Ascoli Piceno/Divulgação)
Família - 
Obra de dell’Amatrice: São Sebastião, Santo Antônio, a Virgem com Jesus, São Francisco e São Roque

A aura de santo “gente como a gente” se completa com fraquezas e padecimentos humanos. Filho de um comerciante rico, Francisco foi o equivalente medieval do playboy ¬ostentação: esbanjava dinheiro em farras e trajava os últimos babados da moda. A certa altura, porém, os prazeres mundanos perderam o sentido. Em crise existencial, ele penou até a conversão. No momento da ruptura, entregou suas roupas ao pai — que o acusava de torrar a herança com os pobres — e saiu nu em meio a uma multidão. Mais tarde, quando os romanos se mostraram insensíveis à sua pregação, pôs-se a evangelizar pássaros, que se reuniriam só para ouvi-lo — o que espalhou a fama de santo.

As duas cenas foram imortalizadas em afrescos que adornam a Basílica de Assis, onde ele está sepultado. São obras que não saem de suas paredes de origem — mas o espectador brasileiro poderá, como consolo, fazer um tour virtual pela igreja. A riqueza da Basílica de Assis expõe outra razão de sua popularidade: a ordem religiosa que ele criou — a dos frades franciscanos — foi desde sempre sagaz em promover a imagem de seu primeiro líder por meio da arte.

(Pinacoteca Civica/Ascoli Piceno/Divulgação)
Grandeza - 
A tela de Ticiano: cena poderosa dos estigmas enviados por raios 

Além do feito de reaproximar a Igreja do povo ao abraçar a “Senhora Pobreza”, Francisco tinha mais um atrativo para a exploração visual: foi o primeiro santo a ostentar os chamados estigmas. Seu corpo, supostamente, carregava as cinco chagas do Cristo crucificado: os cravos nos pés e nas mãos e a ferida no lado direito do tórax. Anunciado após sua morte, o milagre foi visto a princípio com desconfiança, inclusive pelos artistas. “Pintores relutavam em pintar os estigmas e, se os pintavam, logo eram apagados por fiéis desconhecidos”, relata uma biógrafa moderna, Chiara Frugoni (para quem os estigmas seriam sinais de uma das várias doenças que possivelmente o levaram à morte: a hanseníase). Com o tempo, porém, a Igreja deu um jeitinho de condensar os relatos na cena de irresistível pungência em que o santo recebe as marcas de raios disparados por Cristo.


(Roma/Gallerie Nazionali d'Arte Antica/Bibliotheca Hertziana/Divulgação)
Fé - 
‘São Francisco em Oração’, de Annibale Carracci: glória barroca

A mostra ilustra três variantes da representação de São Francisco. Ele surge acompanhado de outros santos: na pequena mas singela obra do mestre do século XVI conhecido como Cola dell’Amatrice, está ao lado da Virgem com o Menino Jesus, São Sebastião, São Roque e Santo Antônio. Em outras, há o Francisco sofredor e penitente — tema comum desde seus primeiros retratos até a explosão dramática do barroco, como no dilacerante Êxtase, de Cesare Fracanzano. O motivo mais recorrente são os estigmas. Em um magnífico óleo do também barroco Orazio Gentileschi, Francisco tem seu corpo inerte abraçado por um anjo, igualando-se ao próprio Cristo apeado da cruz. Por fim, há a grande obra do grande Ticiano. Feito pelo pintor aos 80 anos, usando os dedos em lugar de pincéis em alguns pontos, o painel é um milagre da restauração: exames de raios x mostram que por baixo da tinta há buracos causados pelo fogo de velas, fruto de um acidente séculos atrás. Pintor mais careiro de seu tempo, Ticiano cobrou uma nota para fazer a encomenda para um figurão que aparece todo pomposo no lado direito da pintura. Santa ironia: o artista ficou mais rico à custa do pai dos pobres.

Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2018, edição nº 2594

O mundo inteiro entra num cheque especial perigoso neste 1º de agosto

Vanessa Barbosa
Exame.com

O ano nem acabou, mas o consumo de recursos naturais já excedeu a capacidade regenerativa da Terra para 2018. A partir de hoje, operamos no vermelho

 (5xinc/Thinkstock)
No vermelho: diferença entre capacidade de regeneração do planeta 
e o consumo humano gera um saldo negativo que se acumula desde a década de 80.

São Paulo – Até o final desta quarta-feira (1º), a humanidade terá superado o orçamento do meio ambiente para o ano, passando a operar no vermelho. Em sete meses, esgotamos todos os recursos que a Terra é capaz de oferecer de forma sustentável no período de um ano, desde a filtragem de gás carbônico (CO2) da atmosfera até a produção de matérias-primas para fabricação de bens de consumo.

Mudanças climáticas, poluição do ar, do solo, da terra e da água, desmatamento, perda de biodiversidade, desertificação, eutrofização, sobre-exploração dos recursos naturais…A lista crescente e variada de problemas ambientais tem origem num denominador comum: nossos padrões de produção, consumo e estilo de vida são muito intensivos em energia e materiais, tornando-se assim insustentáveis.

A conta é do Global Footprint Network (GFN), uma organização de pesquisa que mede a pegada ecológica das atividades humanas no mundo. Até o fim 2018, teremos consumido 1,7 planeta Terra, um apetite absolutamente insustentável no longo prazo. Em outras palavras, a humanidade está utilizando a natureza de forma mais rápida do que os ecossistemas do nosso planeta podem se regenerar.

A diferença entre a capacidade de regeneração do planeta e o consumo humano gera um saldo ecológico negativo que vem se acumulando desde a década de 80, também estimulado pelo crescimento populacional — já somos 7 bilhões de habitantes no mundo e até o final do século, seremos 11 bilhões.

Pior, entramos no vermelho cada vez mais cedo. Vinte anos atrás, o “Dia da Sobrecarga da Terra” acontecia em 10 de Outubro. Mas em 1975, era 28 de Novembro. Em 2017, a data foi 2 de agosto; em 2016, foi 8 de agosto. Agora, entramos no vermelho em 1º de agosto, o Dia da Sobrecarga da Terra mais cedo desde a década 1970, quando o mundo começou a esgotar os estoques do planeta antes de acabar o ano.

Os custos desse excesso de gastos ecológicos incluem desmatamento, colapso pesqueiro, escassez de água doce, poluição, erosão do solo, perda de biodiversidade e acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera. Tudo isso leva a mudanças climáticas e secas mais severas, incêndios florestais e furacões, destaca a ONG ambientalista WWF, parceira da GFN.

“O Dia da Sobrecarga da Terra pode não apresentar diferenças da noite para o dia – você ainda tem a mesma comida em sua geladeira”, disse o CEO da Global Footprint Network, Mathis Wackernagel, em comunicado. “Mas, os incêndios estão ocorrendo no oeste dos Estados Unidos. Do outro lado do mundo, os moradores da Cidade do Cabo tiveram que reduzir pela metade o consumo de água desde 2015. Essas são consequências de estourar o orçamento ecológico do nosso único planeta”.

Segundo ele, é como se a humanidade realizasse uma operação fraudulenta de investimento. “Nossas economias estão realizando um esquema Ponzi com nosso planeta. Ou seja, usamos os recursos futuros da Terra para operar no presente e nos aprofundar na dívida ecológica”, continuou Wackernagel. “É hora de acabar com esse esquema e alavancar nossa criatividade para criar um futuro próspero, livre de combustíveis fósseis e sem destruição planetária.”

Quando o verde vale mais que o concreto

Renata Vieira
Exame.com

Um estudo mostra que as unidades públicas de conservação poderiam injetar 2 bilhões de reais por ano na economia brasileira

| Werner Büchel/Getty Images /  (/)
Parque Nacional  do Iguaçu, no Paraná: 
a unidade de conservação mais visitada do país

No extremo oeste do Paraná está um dos pontos turísticos mais famosos do país. O Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu, abriga 275 quedas d’água que chegam a 80 metros de altura, espalhadas numa extensão de 180.000 hectares. É a maior área remanescente de Mata Atlântica do sul brasileiro. Em 1999, seis décadas após sua criação, o serviço de visitação ao parque passou a ser gerido pela iniciativa privada, na primeira concessão do gênero no país. Desde 2009, o número de visitantes cresceu 50%. Hoje é a unidade de conservação mais visitada do país, com 2 milhões de turistas por ano.

O impacto econômico direto anual é de 46 milhões de reais, sem contar a movimentação gerada em comércio, hotelaria e outros serviços no entorno. Sob a gestão do Grupo Cataratas, que desde 2015 pertence ao fundo de investimento americano Advent, foram feitas melhorias como a instalação de um elevador para idosos e portadores de deficiência e um sistema de compra de ingressos online. “As pessoas só conservam o que conhecem”, diz Fernando Sousa, diretor de sustentabilidade do Grupo Cata-ratas, que também cuida de parte do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro.

A trajetória de sucesso do Parque Nacional do Iguaçu destoa do cenário médio das unidades de conservação do país. O número total de visitantes contabilizados em 70 dessas áreas é considerado baixo: 17 milhões de pessoas em um ano — os 412 parques americanos recebem 330 milhões de visitantes por ano. A falta de gestão se reflete na ausência de dados mais abrangentes. Cerca de 80% das unidades federais e estaduais nem sequer registram a quantidade de turistas que recebem.

Um estudo, obtido com exclusividade por EXAME, acaba de calcular a capacidade de retorno econômico e financeiro desperdiçada nessas áreas. O esforço uniu uma coalizão de ONGs ambientalistas e universidades, entre elas a Conservação Internacional e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Conclusão: juntas, essas áreas verdes poderiam gerar receitas superiores a 2 bilhões de reais por ano — não apenas com o turismo mas também com produtos florestais. Na hipótese mais conservadora, o montante ficaria no patamar de 700 milhões de reais por ano. Ainda assim, é uma cifra bem acima do atual orçamento do Ministério do Meio Ambiente, que gira em torno de 200 milhões de reais. “Existe a falsa ideia de que criar unidades de conservação é um investimento sem retorno, mas está comprovado que dá retorno, e em várias frentes”, afirma Rodrigo Medeiros, vice-presidente da Conservação Internacional. “Só falta uma boa gestão.”

                     
Nas unidades de conservação em que é possível explorar recursos e, ao mesmo tempo, respeitar a regeneração da floresta, a madeira em tora é o principal produto. A atividade é regulamentada via concessão pública em seis áreas de preservação, um mercado ainda pequeno diante da área disponível. Parte da explicação está atrelada ao tamanho do mercado ilegal de madeira nativa no país, que oferece concorrência desleal a quem faz negócio da maneira correta e diminuiu o interesse privado por essas áreas. Estima-se que 80% da madeira comercializada por aqui seja ilegal. O restante movimenta 1,8 bilhão de reais por ano, e poderia gerar um adicional de um terço desse valor se houvesse oferta mais estruturada de planos de manejo em áreas públicas.

A falta de incentivos ajuda a explicar por que outras atividades extrativistas, a exemplo da borracha, dos pescados, da castanha e do açaí, também estão subaproveitadas. Os casos da castanha e do açaí são mais emblemáticos. Em dez anos, essas cadeias cresceram, respectivamente,  20% e 112% em volume de produção no país. A demanda de exportação ajuda a explicar o fortalecimento dos produtos, mas ainda há um potencial represado. A Colômbia, por exemplo, é a maior exportadora de castanha amazônica do mundo, ainda que o Brasil tenha a maior fatia do bioma.

Hoje, a atuação dos chamados atravessadores, intermediários entre o produtor e o comprador, faz com que uma lata de castanha, vendida por cerca de 30 reais em São Paulo, renda somente alguns centavos ao produtor no norte do país. A distorção no preço do açaí é semelhante. Vendido por cerca de 5 centavos o quilo por comunidades extrativistas de áreas protegidas, o produto vale, em média, 2,5 reais o quilo no restante do país — fator que contribui para manter o mercado muito menor do que poderia ser.

Outros obstáculos atrapalharam o caminho da exploração sustentável dos parques. Até então, havia controvérsias sobre o entendimento da natureza jurídica das unidades de conservação — e se elas poderiam ser instrumento de editais de concessão. Isso acabou freando diversos projetos de parceria com a iniciativa privada. Mas uma lei aprovada há três meses deixou claro que essas áreas podem ser consideradas uma via de serviço público, o que facilita a criação de editais desse tipo daqui para a frente.

Outro problema é a própria escassez de recursos em instâncias responsáveis pelas concessões, como o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), que administra e monitora as unidades de preservação federais. Nos últimos 18 anos, o sistema de conservação federal duplicou de tamanho. E o número de funcionários nos parques é menor do que era na época da criação do instituto, em 2007. O Parque Nacional do Pau Brasil, a 35 quilômetros de Porto Seguro, na Bahia, ilustra esse descompasso. Criada em 1999, a área que protege as árvores que deram nome ao país só foi aberta ao público 16 anos depois.

Atualmente, o serviço de visitação está sob contratos privados em apenas quatro unidades de conservação entre as 2 146 existentes no país. No sistema de parques dos Estados Unidos, por exemplo, um dos mais antigos do mundo, a iniciativa privada administra desde o serviço de visitação e guia nas reservas até a estrutura de hotéis e acampamentos internos por meio de cerca de 600 contratos de concessão. “A melhor estratégia é conceder parte do serviço às empresas em áreas de maior potencial turístico”, afirma Paulo Carneiro, diretor do ICMBio. O órgão planeja lançar pelo menos sete editais de concessão nos próximos anos, e deve chegar a 18 no médio prazo.


| Vinícius Mendonça / Ibama
Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará:
 invasão e desmatamento de área protegida 

Segundo o Instituto Semeia, organização que se dedica a fomentar parcerias entre governos e empresas na gestão de parques naturais e urbanos, 52% dos parques brasileiros não têm recursos suficientes para realizar suas atividades, e só 32% deles contam com estrutura básica de apoio à visitação. “Não se trata apenas de desonerar o orçamento público, mas também de desenvolver todo o potencial e ampliar a eficiência na gestão dessas áreas”, afirma Fernando Pieroni, diretor executivo do Instituto Semeia, que atualmente acompanha o projeto de concessão de dois parques estaduais, da Cantareira e o de Campos do Jordão, ambos em São Paulo. Entre as dificuldades está também a questão fundiária. Hoje, cerca de 5% dos territórios administrados pelo ICMBio estão sob alguma disputa de terras. É o caso da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, que tem cerca de 40% da área sob pressão de invasores, que reivindicam a regularização de sua permanência por lá.

Além das oportunidades de negócio, o estudo obtido por EXAME contabilizou o valor dos serviços ecossistêmicos prestados pelas áreas protegidas, ou seja, aqueles providos pela natureza e que, na maioria das vezes, não entram na conta de empresas e governos. Resultado: um estoque de 10,5 gigatoneladas de carbono, quase cinco vezes a emissão de gases de efeito estufa no país em 2016. O volume equivale a um montante de 130 bilhões de reais. Os benefícios hídricos gerados pelas reservas também são altos. Chegam a 60 bilhões de reais, num cálculo que considera a proteção que elas garantem a rios e nascentes que servem de base para a geração de energia hidrelétrica e para o abastecimento de cidades. Os números comprovam que a conservação é um bom negócio para quem está perto e também para quem está longe da floresta.