Luís Antônio Giron
Revista ISTOÉ
Primeira biografia do alferes que virou “mártir da Inconfidência” traz revelações sobre o conspirador que delatou nove companheiros e se tornou místico
(Crédito:Divulgação)
SÍMBOLO
Obra expõe contradições de Tiradentes.
Na tela “Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte
dos Inconfidentes”, de Leopoldino de Faria (séc. 19),
ele surge como vulto republicano
José Joaquim da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, foi elevado a símbolo da liberdade do Brasil. Embora não haja notícia de um retrato seu, tornou-se a imagem mais poderosa da República. Mas o monumento do “mártir da Inconfidência” começa a derreter para dar lugar ao homem real com “O Tiradentes, uma Biografia de José Joaquim da Silva Xavier”, do jornalista Lucas Figueiredo, lançada pela Companhia das Letras. Trata-se da primeira narrativa documentada sobre o inconfidente. Figueiredo vasculhou fontes raramente consultadas — cartas reais, inventários, manuscritos e processos —, além de ter examinado objetos e lugares por onde passou o biografado.
Figueiredo descobriu que Tiradentes não possuía biografia. A lacuna se explica pela dificuldade de recuperar fatos antes da Inconfidência. “A bibliografia disponível se resumia a dois tipos de livros: os que se preocupavam em cultuar o mito e os trabalhos acadêmicos”, diz à ISTOÉ. “Esses últimos, mesmo que alguns sejam excelentes, tratam da relação de Tiradentes com a conjuração Mineira. Mais de 200 anos após sua morte, ainda não havia um livro que contasse a trajetória desse incrível personagem.”
Na pesquisa, Figueiredo colheu informações inéditas sobre a Inconfidência, que ambicionava instaurar uma democracia à americana nas Minas Gerais espoliadas após cem anos de corrida do ouro, iniciada em 1697. Entre as revelações está a participação de uma mulher na trama: a fazendeira Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, excluída do rol de réus. Outra novidade está no papel do visconde de Barbacena, governador da capitania de Minas, que protegeu os rebeldes e só os prendeu quando foram denunciados pelo negociante e conspirador Joaquim Silvério dos Reis.
(Crédito:Divulgação)
NO EXÉRCITO
Ilustração de 1776 retrata um oficial do Regimento Regular
da Cavalaria de Minas Gerais, do qual Tiradentes fez parte
Ele também esclarece as atividades de Tiradentes como militar, dentista, minerador e empreendedor, e como ele liderou a conspiração ao pregar em público o ideário iluminista, algo que outros conjurados, como Tomás Antônio Gonzaga, desejavam discutir na surdina — e, por isso, entraram em conflito com Tiradentes. O livro relata a união tumultuada com Antônia Maria do Espírito Santo, 25 anos mais nova que ele, com quem teve uma filha, Joaquina.
Beato à força
Com base em depoimentos dados na prisão da Ilha das Cobras, onde permaneceu nos dois últimos anos de vida, Figueiredo retrata-o fragilizado, joguete doa frades franciscanos. “Ao contrário do que muitos dizem, Tiradentes não poupou todos os conjurados em seus depoimentos”, afirma. Submetido à tortura, delatou nove companheiros em troca do perdão que não ocorreu. Por não ser nobre nem religioso, foi o único condenado à forca por dona Maria I. Ela ordenou que a execução fosse um auto de fé exemplar. No Rio de Janeiro, na manhã de 21 de abril de 1792, Tiradentes foi conduzido da masmorra à forca, escoltado por padres e militares. No trajeto de dois quilômetros, o réu, fora de si, ora corria, ora era orientado a seguir uma “coreografia” em que imitava os Passos da Cruz e erguia o crucifixo com os olhos fixos. Figueiredo diz que os frades levaram à loucura.“O serviço espiritual que eles prestavam era uma lavagem cerebral que apagou a intensa flama rebelde de Tiradentes. Ele se tornou um ser dócil, subserviente e altamente místico.”
O legado de Tiradentes, segundo seu biógrafo, foi ter-se tornado “o amálgama de um sentimento de brasilidade”. Mesmo à força da manipulação, é sempre lembrado. “Não é à toa que, toda vez que o Brasil cai em crise, a figura de Tiradentes aparece”, afirma.” Pode reparar: recorremos a Tiradentes toda vez que tentamos cumprir a difícil tarefa de explicar o Brasil e os brasileiros.”




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