sábado, março 05, 2022

Brasil avança em negociações com OCDE. O que falta para entrar no “clube dos ricos”

 Célio Yano

Gazeta do Povo 

Foto: Divulgação/OCDE

Sede da OCDE, em Paris: organização reúne 38 países

 comprometidos com a democracia e a economia de mercado.

O convite feito ao Brasil para abrir as discussões de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi recebido como uma conquista pelo governo federal, cinco anos após a formalização do pedido para ingressar no quadro de membros da entidade. Embora trate-se, de fato, de um reconhecimento internacional, ainda há um longo caminho a ser percorrido para o país tornar-se efetivamente membro da organização.

Apesar de conhecido como “clube dos países ricos”, a organização é mais precisamente um fórum que discute e promove as melhores práticas em políticas públicas, além de realizar uma série de estudos internacionais nas mais diversas áreas. Tem sede em Paris, na França, e reúne 38 países comprometidos com a democracia e a economia de mercado, a maior parte desenvolvidos, com alta renda e elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas também emergentes, como Costa Rica, Colômbia, Chile, México e Turquia.

Foi fundada em 1961 a partir da antiga Organização para a Cooperação Econômica Europeia (OCEE), que, por sua vez, havia sido criada em 1948 para estimular a ajuda mútua entre nações europeias afetadas pela Segunda Guerra Mundial. Com a transformação, a adesão foi estendida a países de outros continentes.

Atualmente são membros da organização Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Coreia do Sul, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, México, Nova Zelândia, Noruega, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Suécia, Suíça e Turquia.

Na terça-feira (25), Além do Brasil, receberam a carta-convite para iniciar as negociações para adesão Argentina, Bulgária, Croácia, Peru e Romênia.

O que o Brasil ganha com ingresso na OCDE

Com parcerias desde 1994, o Brasil é convidado a participar de todas as reuniões da OCDE de 1999 para cá. Desde 2007, é considerado parceiro-chave da organização – a classificação inclui ainda África do Sul, China, Índia e Indonésia. Nessa posição, pode participar de diferentes comitês da organização, aderir aos instrumentos legais, se integrar aos informes estatísticos e revisões por pares de setores específicos da entidade.

O interesse em ingressar no grupo de membros da OCDE foi formalizado em 2017, durante o governo de Michel Temer (MDB). Na gestão de Jair Bolsonaro (PL), a entrada na entidade era tida desde o início como uma das principais apostas de legado para a política externa.

A participação como país membro da OCDE é tida como um “selo de qualidade”, que fortalece o apoio internacional e é visto no governo como um catalizador de reformas estruturais. Também dá um sinal ao mercado e à comunidade internacional do compromisso do país com uma economia aberta e transparente.

Outros benefícios incluem a possibilidade de participar de igual para igual das discussões sobre políticas públicas de ponta e no desenvolvimento de soluções para desafios globais, além de aprender com a experiência dos demais membros.

Quais as próximas etapas

A partir do convite feito pelo conselho ministerial, a organização encaminhará ao Brasil um roteiro de adesão, em que estabelece termos específicos para o país atender. A partir daí, o país envia um memorando inicial, com seu posicionamento sobre os 251 instrumentos legais exigidos pela entidade.

Na sequência, o memorando passa por revisões técnicas na OCDE e há encontros com representantes do Brasil. A decisão deve ser tomada por unanimidade para que o ingresso no quadro de membros seja efetivada.

Após a assinatura de um acordo de adesão à convenção da OCDE, o Congresso Nacional precisa aprovar e ratificar o documento. A última etapa é o depósito do acordo de adesão para filiação efetiva à organização.

Em média, o processo de adesão leva de 3 a 4 anos, mas, em alguns casos, pode se estender por mais tempo, já que depende da capacidade de resposta do país às recomendações para mudanças na legislação e práticas domésticas, além da celeridade para fornecer informações aos comitês técnicos da OCDE.

O que o Brasil precisa fazer

Na carta enviada ao presidente Bolsonaro, o secretário-geral da entidade, o australiano Mathias Cormann, solicita que o Brasil confirme sua adesão a dois documentos-chave adotados pelos países membros da OCDE em reunião realizada em outubro de 2021: a Declaração de Nova Visão do 60º Aniversário e a Declaração do Conselho Ministerial de 2021.

Os documentos trazem valores, visão e prioridades adotadas em consenso por todos os membros da organização e constarão do Roteiro de Adesão que estabelecerá os termos, condições e processo de ingresso do Brasil.

Na carta endereçada a Bolsonaro, Comann destaca os seguintes pontos constantes nas declarações:

A centralidade de nossos valores fundamentais, como a preservação da liberdade individual, os valores da democracia, o estado de direito e a defesa dos direitos humanos;

A importância da afinidade nas relações entre os países candidatos à acessão, a organização e seus membros;

O esforço conjunto de apoiar o crescimento econômico sustentável, eliminar a pobreza e não deixar ninguém para trás, em linha com a Agenda 2030 e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, proteger o meio ambiente e aprimorar as vidas e perspectivas de todos, dentro e fora da OCDE, como destacado na Convenção da OCDE;

O valor de economias de mercado abertas, comerciais, competitivas, sustentáveis e transparentes;

A necessidade de medidas políticas para toda a economia alinhadas com os objetivos do Acordo de Paris e, em particular, o objetivo de alcançar emissões globais de gases de efeito estufa zero até 2050 por meio de profundas reduções de emissões possibilitadas por investimentos públicos e privados;

A importância de cada país adotar e implantar integralmente políticas públicas em linha com os objetivos climáticos, incluindo reverter e deter a perda de biodiversidade e o desmatamento, como acordado durante a COP26, em Glasgow, e tomar ações efetivas para colocar isso em prática;

A importância de trabalhar juntos para avançar em uma economia digital inclusiva;

A importância de fortalecer o sistema multilateral de comércio baseado em regras com a OMC como centro, a oposição à coerção econômica, o nivelamento do campo de atuação internacional por meio do aumento da concorrência, uma melhor integração das PMEs nas cadeias de valor globais e o desmantelamento de barreiras desnecessárias ao comércio internacional, o que beneficia consumidores e promove o crescimento econômico e a inovação;

A importância de investir em infraestrutura de qualidade de modo transparente, responsável e inclusivo.

“Seu compromisso com os pontos mencionados acima assim como sua disposição para atender a todos os outros requisitos do processo de adesão e para envolver-se de maneira alinhada serão centrais para as próximas etapas”, escreve o secretário-geral da OCDE ao presidente brasileiro.

Ainda na terça-feira (25), Bolsonaro enviou uma carta à Cormann. No documento de três páginas, o presidente diz que “sem qualquer hesitação”, pode assegurar que o Brasil “está pronto para iniciar o processo de adesão à OCDE, conforme solicitado em abril de 2017”.

Ele fala sobre o histórico que o Brasil tem de respeito a valores fundamentais citados pela organização na carta-convite. E ressalta especificamente o compromisso com os objetivos do Acordo de Paris e com a adoção e implantação de políticas que visem a reversão da perda de florestas e a degradação do solo até 2030, conforme previsto em declaração assinada na COP26, no ano passado.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o secretário-executivo do Ministério da Economia, Marcelo Guaranys disse que os temas mais complexos a serem encaminhados pelo Brasil no processo de adesão à OCDE serão os desafios ambientais e tributários.

“O que a gente tem sofrido mais críticas são questões de desmatamento. Temos muitas florestas, e esses indicadores de desmatamento ilegal precisam ser reduzidos”, disse. “Nos comitês específicos dos instrumentos ambientais, a gente vai ter um trabalho grande de convencimento, mas acho que a gente tem dados para poder mostrar para a comunidade internacional, e aí é um trabalho de comunicação e aprimoramento”, avaliou.

Até agora, o país atende 103 dos 251 instrumentos de boas práticas da organização. No âmbito tributário, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou horas após o convite da OCDE que vai zerar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) das transações cambiais como parte do esforço para atender às exigências da organização.

Um dos requisitos da entidade é não discriminar agentes econômicos de acordo com o tipo de transação que é efetuado nas operações de câmbio. Conforme um cronograma da pasta, os quatro diferentes tipos de tarifas serão gradualmente reduzidos até 2029. A promessa é possível, segundo o ministro, após a aprovação da lei do novo marco cambial, sancionada em 30 de dezembro.


'Antitrabalho': o movimento que ganhou força na pandemia e se espalha por comunidades online

 Brian O’Connor

BBC Worklife 

CRÉDITO,GETTY IMAGES

A pandemia aumentou a insatisfação dos trabalhadores em muitas partes

 do mundo, levando ao crescimento do movimento antitrabalho

Muitos trabalhadores estão frustrados com a natureza da relação de emprego. Mas alguns, já saturados, estão se fazendo uma pergunta maior: qual é o objetivo do trabalho?

Chris, profissional da área de tecnologia da informação residente nos Estados Unidos, afirma que sofreu terríveis condições de trabalho nos seus últimos empregos.

Ele conta que dois empregadores diferentes - um que não pagava licenças médicas e o outro que cobria apenas uma semana de ausência - forçaram-no a voltar ao trabalho mesmo estando doente. Em outros empregos com forte sobrecarga de trabalho, ele afirma que acabou precisando cuidar das próprias feridas.

Mas um emprego em assistência ao cliente foi além da conta. Seu trabalho, que pagava menos de US$ 13 (R$ 70) por hora, exigia que ele verificasse se os dependentes das pessoas tinham direito a seguro-saúde. E ele conta que seria demitido se fornecesse aos clientes certas informações úteis que ele não estava autorizado a revelar, como o prazo em que eles deveriam enviar a documentação.

"Havia pessoas literalmente implorando por suas vidas ao telefone e eu não podia fazer nada", ele conta. "Isso me perturbou tanto que percebi que absolutamente nada nesse sistema funciona... é pura falta de empatia e gentileza humana. Não sei como isso aconteceu."

Após dois anos de pandemia, os trabalhadores de todo o mundo estão cansados. Problemas de saúde mental e burnout são comuns, particularmente entre os trabalhadores essenciais e com salários mais baixos. Esse período prolongado de incertezas fez com que muitos deles repensassem a forma como seus empregadores tornavam as coisas piores - e o número de trabalhadores deixando seus empregos em busca de melhores opções vem batendo recordes em muitos países.

Mas algumas pessoas estão indo além, perguntando-se se existe algum propósito para o seu trabalho, ou para o próprio sistema econômico. Essas pessoas são parte do movimento "antitrabalho", que busca romper com a ordem econômica que sustenta o ambiente de trabalho moderno.

O antitrabalho baseia-se nas críticas econômicas anarquistas e socialistas e argumenta que a maior parte dos empregos de hoje em dia não são necessários; ao contrário, eles impõem a escravidão do salário e impedem os trabalhadores de receberem o total valor da sua produção.

Mas isso não significa que o trabalho deva deixar de existir. Os apoiadores do movimento antitrabalho acreditam que as pessoas deveriam organizar-se e trabalhar apenas o necessário, em vez de trabalhar por longas horas para gerar excesso de bens ou capital.

Alguns anos atrás, o antitrabalho era uma ideia marginal, radical, mas a encarnação pandêmica desse movimento cresceu rapidamente e tornou-se mais conhecida fora dos círculos políticos.

Ela está baseada na comunidade r/antiwork, em inglês, do agregador de conteúdo e rede social Reddit. A comunidade ainda está fundamentada na ação direta, mas, à medida que sua popularidade foi crescendo, seu foco foi suavizado e ampliado para formar um diálogo mais amplo sobre as condições de trabalho.

Atualmente, a comunidade contém uma mescla de narrativas pessoais sobre pedidos de demissão, criação de mudanças em locais de trabalho hostis, defesa de greves trabalhistas em andamento, organização trabalhista e formas que as pessoas podem buscar para advogar em causa própria.

A comunidade cresceu rapidamente. Em um momento em que a insatisfação dos trabalhadores e os direitos trabalhistas são intensamente analisados, qual o significado do crescente interesse por esse movimento? E ele poderá ter um papel a desempenhar na efetivação de mudanças?

'Rejeição visceral do trabalho'?

Chris ajuda a moderar a comunidade r/antiwork, que reúne atualmente 1,7 milhão de assinantes (eram apenas 100 mil até março de 2020). "Temos um aumento constante do número de membros, entre 20 mil e 60 mil seguidores por semana. Temos enorme crescimento e muitos membros engajados. Recebemos centenas de postagens e milhares de comentários todos os dias", acrescenta Doreen Ford, que também atua com moderadora da comunidade.

O nome e a filosofia da comunidade vêm de diversas fontes. Ford afirma que uma delas é Bob Black, filósofo anarquista cujo ensaio de 1985 The Abolition of Work ("A abolição do trabalho", em tradução livre) foi baseado em pensamentos anteriores sobre o trabalho - uma história que Black afirma vir desde os filósofos Platão e Xenofonte, na Grécia antiga.

"Muitos trabalhadores estão saturados com o trabalho... Pode haver algum movimento rumo a uma rejeição consciente do trabalho, não apenas visceral", escreve Black, sugerindo que as pessoas façam apenas o trabalho necessário e dediquem o restante do seu tempo para a família e as paixões pessoais.

As pessoas que acreditam no antitrabalho não são necessariamente contra todas as formas de trabalho. Seu sentimento global é de hostilidade contra "trabalhos que sejam estruturados com base no capitalismo e no Estado", segundo a seção de perguntas frequentes (FAQ, na sigla em inglês) da comunidade: "o objetivo de r/antiwork é começar a conversar sobre a problematização do trabalho como o conhecemos hoje".

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Alguns usuários da comunidade r/antiwork compartilham ideias sobre como apoiar movimentos grevistas, como a disputa trabalhista da Kellogg’s no final do ano passado, nos Estados Unidos

Embora esses ideais sigam sendo fundamentais para o movimento, o foco da comunidade se ampliou para englobar direitos trabalhistas mais genéricos. Os usuários compartilham histórias de abuso por parte dos empregadores, pedem conselhos sobre como negociar melhores salários, contribuem com memes ou postam notícias sobre greves trabalhistas em andamento.

Os participantes também fornecem dicas aos usuários sobre como apoiar movimentos grevistas. Em dezembro de 2021, os membros da comunidade apoiaram os esforços para inundar o portal de vagas da Kellogg's quando a companhia rompeu as negociações com trabalhadores sindicalizados em greve e afirmou que contrataria novos funcionários não sindicalizados. Embora não esteja clara a importância da influência direta dos membros da comunidade r/antiwork sobre as ações da empresa, a Kellogg's e o sindicato chegaram a um acordo no final daquele mês.

A comunidade também fornece links para leituras e podcasts sobre o movimento antitrabalho fora do Reddit. A maior parte das postagens vem de trabalhadores norte-americanos de todos os gêneros e profissões, mas há também participantes internacionais.

'Interrupção do trabalho como o conhecemos'

O movimento antitrabalho não é novo, mas recentemente voltou a chamar a atenção.

"Com a covid, houve uma interrupção do trabalho como o conhecemos", afirma Tom Juravich, professor de estudos trabalhistas da Universidade de Massachusetts em Amherst, nos Estados Unidos. "Em momentos como esse, as pessoas têm tempo para refletir. O trabalho se degradou para muitas pessoas. Nossas estruturas de autoridade tornaram-se mais draconianas e controladoras do que nunca. As pessoas realmente sentiram isso de uma nova maneira."

Para os trabalhadores braçais, a covid-19 expôs brutalmente as profundas desigualdades existentes: baixos salários, falta de licença médica paga em alguns países e necessidade de frequentar ambientes de atendimento a clientes com medidas inadequadas de segurança, que deixam as pessoas vulneráveis para contrair covid no local de trabalho.

Enquanto isso, trabalhadores de todos os níveis salariais vêm lutando para conciliar as pressões do trabalho com as responsabilidades familiares causadas pelo fechamento das escolas, gerando maior burnout e problemas de saúde mental - e, para alguns, até questões existenciais.

Mas Kate Bronfenbrenner, diretora de pesquisas sobre educação trabalhista e professora sênior da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, observa que, embora a covid-19 tenha sido um catalisador importante, o movimento antitrabalho atual possui raízes mais profundas que vêm de antes dos últimos dois anos.

"Os trabalhadores vinham mantendo um limite espantoso de tolerância a abusos praticados pelos empregadores contra eles", afirma Bronfenbrenner. "Mas, quando esse abuso avançou ao ponto de arriscar suas vidas, esse limite foi ultrapassado; no contexto da covid-19, os empregadores solicitavam a eles que trabalhassem mais do que nunca enquanto tinham lucros enormes."

É claro que nem todos os trabalhadores desiludidos adotarão o antitrabalho. Muitos estão claramente procurando novos empregos, em busca de garantir melhores condições. Outros estão se demitindo e decidiram trabalhar por conta própria. Mas alguns estão tentando defender mudanças.

"Nem todas as pessoas estão se demitindo", afirma Bronfenbrenner. "Alguns estão dizendo que vão consertar as coisas se organizando, promovendo greves ou resistindo."

'Parece um grande momento para nós'

Ainda é muito cedo para dizer se essa comunidade online poderá causar impactos mensuráveis sobre os direitos trabalhistas, seja com discussões mais acaloradas e apaixonadas ou com outras rupturas. Mudanças fundamentais no trabalho da noite para o dia são improváveis, mas estamos vivenciando uma reorganização sem precedentes, em termos de como os trabalhadores fazem seu trabalho e o tipo de condições que eles esperam receber dos empregadores. 

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Muitos trabalhadores claramente estão no seu limite - e já existem sinais de que os empregadores, temendo atritos generalizados com seus funcionários, estão começando a reagir com melhorias crescentes

Muitos trabalhadores claramente estão no seu limite - e já existem sinais de que os empregadores, temendo atritos generalizados com seus funcionários, estão começando a reagir com melhorias crescentes. Se o antitrabalho e seus primos ideológicos continuarem a ganhar simpatizantes, isso pode fazer com que os empregadores - e talvez até os políticos - parem um pouco mais para pensar.

Ao mesmo tempo, é importante observar como o movimento antitrabalho se desenvolveu no passado. Um paralelo são os "longos anos 70" - o período entre meados da década de 1960 e o início dos anos 1980 -, um período de inflação e recessão econômica nos Estados Unidos, que levou muitos líderes trabalhistas (que, em muitos casos, haviam entrado em greve sem aviso prévio) a abandonar seus empregos e reivindicar mais do que apenas aumentos salariais dos empregadores. Suas exigências também incluíam melhores condições de trabalho e mudanças na liderança dos sindicatos.

Mas esse movimento não reuniu a força necessária. Falta de energia e aumento do desemprego enfraqueceram os esforços para alterar radicalmente as condições de trabalho, especialmente quando os empregadores pediram maiores concessões aos sindicatos para compensar a perda de lucros em meio a uma enorme recessão.

O poder do trabalho desvaneceu-se enquanto "o medo de perder a segurança no trabalho" prejudicava o movimento na época, afirma Leon Fink, professor de história da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos.

Fink acrescenta que mudanças econômicas e o declínio da economia acabaram por destruir a influência dos trabalhadores para sustentar mudanças de longo prazo. De forma similar, condições econômicas futuras e a evolução das relações de poder no ambiente de trabalho acabarão por afetar o direcionamento do movimento antitrabalho atual.

Mas os movimentos trabalhistas do passado indicam que momentos de oportunidade podem gerar alguma mudança, mesmo que seja gradual ou por curto período. "Acho que existe uma possibilidade real de alguma movimentação" com o movimento antitrabalho atual, segundo Juravich. Ele relembra as implicações do movimento Occupy Wall Street em 2011, que "continua a reverberar em todos os outros movimentos populares".

Ford é otimista: "eles estão iniciando muitas discussões. Parece um grande momento para nós." Já Chris considera o movimento antitrabalho como uma pequena parte do que ele espera que venha a se tornar um esforço maior para destruir totalmente a estrutura do trabalho - ainda que ele não espere ver isso acontecer.

"Espero poder facilitar [esse processo] para as gerações futuras", afirma ele.

Nota: pouco depois da publicação desta reportagem em 26 de janeiro de 2022, a comunidade r/antiwork tornou-se um grupo privado, devido a comentários publicados no Reddit. O texto da reportagem foi preparado antes dessa mudança.

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.



Ultraprocessados: entenda mudança na rotulagem de alimentos

 Lavinia Kaucz

Poder 360

Em outubro de 2022, entra em vigor novo padrão de rotulagem de alimentos e bebidas industrializadas aprovado pela Anvisa em 2020. As embalagens dos chamados ultraprocessados deverão apresentar um selo frontal com símbolo de lupa para informar sobre altos teores de açúcar, gordura e sódio. Leia a íntegra (148KB) da resolução da Anvisa.

A medida visa facilitar a compreensão sobre o conteúdo de ingredientes prejudiciais à saúde e auxiliar o consumidor a fazer escolhas alimentares mais conscientes.

O selo deverá ser aplicado na parte superior frontal da embalagem para que fique em uma área facilmente capturada pelo olhar humano.

Eis um exemplo de como serão disponibilizadas as informações: 

© Fornecido por Poder360 - Reprodução/Anvisa

Selos de rotulagem frontal que deverão estar nas embalagens a partir de outubro

De acordo com a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), a rotulagem frontal é uma das principais ferramentas políticas para regular os produtos ultraprocessados e evitar o consumo excessivo de ingredientes que fazem mal à saúde.

O critério que define se um produto receberá, ou não, o selo frontal, tem como base um perfil nutricional. Esse perfil é composto por valores de referência a cada 100g ou 100 ml definidos para cada nutriente.

Eis os valores definidos pela Anvisa. Clique no título de cada colunar para reordenar:

Outra mudança é relacionada à tabela nutricional, já presente no verso das embalagens. A tabela eeceberá mais uma coluna, com informações nutricionais a cada 100g ou 100 ml do produto.

 © Fornecido por Poder360 - Reprodução/Anvisa

Nova tabela nutricional que passa a valer em outubro de 2022

Atualmente, a tabela tem duas bases de comparação:

porcentagem do nutriente em relação a uma dieta de 2.000 calorias;

porção, definida de acordo com cada produto (por exemplo, uma porção de bolachas recheadas é composta por 3 unidades).

Em entrevista ao Poder360, Laís Amaral, nutricionista e especialista em Saúde Pública do programa de Alimentação do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), disse que a nova base apresenta uma informação mais objetiva e ajuda o consumidor a comparar as informações nutricionais com outros produtos.

As tabelas nutricionais também deverão identificar os valores de açúcares totais e adicionais no produto. Hoje, tal quantidade está incluída no valor total de carboidratos. Além disso, a tabela passa a ter apenas letras pretas e fundo branco e não poderá ser apresentada em áreas de difícil visualização.

A resolução da Anvisa também restringiu as alegações nutricionais nas embalagens de produtos que apresentam selos frontais. Por exemplo: se um alimento tem o selo “alto em açúcar”, não poderá ter alegações sobre açúcares.

No entanto, as embalagens ainda poderão apresentar informações relacionadas a outras propriedades nutricionais. Ou seja, mesmo se um alimento for “alto em gordura saturada”, poderá alegar que é “rico em vitaminas”, por exemplo.

Rótulo frontal: disputas sobre o modelo

Depois de consulta pública realizada em 2019, a Anvisa definiu o símbola de uma lupa sobre um retângulo para a o selo da rotulagem frontal. De acordo com a agência, o modelo foi escolhido por destacar o alto teor dos ingredientes em questão, mas não caracteriza um alerta. Eis a íntegra do relatório (1 MB).

O modelo foi considerado insuficiente pelo Idec. O instituto propôs a adoção de um modelo de triângulos, desenvolvido em parceria com especialistas em design da informação da UFPR (Universidade Federal do Paraná). O símbolo é mais ligado à representação de advertência, sendo usado em placas de trânsito e avisos de perigo.

Segundo o instituto, o triângulo seria o símbolo mais eficiente para auxiliar os consumidores a identificar produtos com alto conteúdo de ingredientes prejudiciais à saúde. O modelo proposto pelo Idec estabelecia a repetição do símbolo para cada nutriente que estivesse presente em excesso. No modelo da Anvisa, a lupa aparece apenas uma vez, independente de quantos nutrientes tiverem alto teor.

De acordo com o Idec, a Anvisa não apresentou evidências sobre a eficácia do modelo escolhido em relação aos modelos de advertência -seja o triângulo, proposto pelo Idec, ou o octógono adotado no Chile.

O Idec também se posicionou contra o perfil nutricional definido pela Anvisa. “Os pontos de corte que o Idec propôs são os recomendados pela Opas e rotulam de fato os produtos que têm que ser rotulados. Os pontos de corte da Anvisa são menos rígidos”, diz Laís Amaral.

Estudo (íntegra – 516KB) realizado em 2019 fez um levantamento de 11.434 alimentos embalados encontrados nas 5 maiores redes varejistas do Brasil. A pesquisa analisou quantos produtos seriam rotulados de acordo com 3 modelos de perfil nutricional diferentes: o da Opas, o da Anvisa (com os critérios da consulta pública, mais rígidos do que a lei de fato aprovada) e o utilizado no Chile, país em que a rotulagem nutricional frontal foi implementada em 2016.

O resultado mostrou que, segundo o perfil nutricional da Opas, 62% produtos receberiam o selo frontal. De acordo com os critérios da Anvisa na época, 45% seriam rotulados; e segundo o perfil chileno, 41%.

A Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) também propôs, na consulta pública, um modelo de rótulo diferente do definido pela Anvisa: um semáforo que destaca tanto o excesso de determinados ingredientes quanto o baixo teor de outros. Segundo a associação argumentou na época, esta seria a melhor alternativa para “respeitar a autonomia do consumidor”.

Tanto o Idec quanto a Abia, no entanto, concordam que a lei aprovada representa um avanço. “Apesar de não ter sido o modelo que a gente propôs, a lupa vai trazer uma informação importante para o consumidor. Foi uma vitória: a gente poderia não ter nada hoje, ou aquele modelo que a indústria propôs”, diz Laís.

“A Abia participou ativamente desse processo desde o início, contribuindo com o aporte de informações de conteúdo técnico e científico” disse João Dornellas, presidente-executivo da associação, ao Poder360. “Acreditamos que a nova rotulagem tem muito a contribuir para a melhor compreensão das informações nutricionais e que deverá ser acompanhada de campanhas educativas e informativas”, acresenta.

Rotulagem frontal na América Latina

A advertência frontal de alimentos é uma política que vem sendo adotada em diversos países, principalmente na América Latina, para conter os altos índices de obesidade e doenças crônicas na população.

No Brasil, o objetivo da lei foi “possibilitar a compreensão, respeitando a liberdade de escolha de todas as pessoas”. Não teve como objetivo explícito a redução dos níveis de obesidade e doenças crônicas.

Ao contrário de outros países na América Latina, a lei aprovada pela Anvisa não veio acompanhada de outras políticas de saúde pública, como a taxação de ultraprocessados e a proibição da publicidade infantil em alimentos que têm o selo.

Segundo a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), a hipertensão, a diabetes e a obesidade são os principais fatores de risco de mortalidade nas Américas -em 2017, foram responsáveis por 44% de todas as mortes na região (aproximadamente 3,1 milhões).

Esses 3 fatores estão intimamente ligados à alimentação com excesso de açúcares, gorduras e sódio. Tais ingredientes são altamente presentes em alimentos ultraprocessados.

O Chile foi pioneiro na implementação da rotulagem frontal. Foi seguido, na América Latina, por Uruguai, Peru, Brasil, México e Argentina.

Chile, 2016

O Chile é um dos países com os maiores níveis de excesso de peso no mundo. Tanto na população adulta (74,2% em 2016) quanto na infatil (50,2% aos 6-7 anos de idade em 2019).

Em junho de 2016, o país foi pioneiro no mundo a adotar um modelo de rotulagem frontal em ultraprocessados. O símbolo escolhido para os alertas foi o octógono preto com letras brancas -caminho seguido por todos os países latino-americanos que implementaram o novo rótulo, menos Colômbia e Brasil.

A medida fez parte de uma política mais ampla para diminuir os índices de obesidade entre as crianças: o Chile também proibiu a publicidade de alimentos direcionada a crianças e a venda de alimentos não saudáveis nas escolas.

Devido à sua ambição, a lei chilena tem sido considerada um modelo para outros países que precisam melhorar sua cultura alimentar e diminuir os índices de doenças crônicas.

Como resultado, um estudo publicado na revista The Lancet em 2021 mostrou significativa redução no consumo dos produtos que têm os alertas: 23,8% dos produtos altos em calorias, 36,7% de altos em sódio e 26,7% de altos em açúcar. A diminuição não se refletiu, no entanto, em prejuízos para a indústria de alimentos, mostrou estudo publicado em 2022 na revista Nutrients.

“Essas mudanças positivas não foram alcançadas à custa de menos emprego, salários reais mais baixos ou menos margem bruta de lucro para o setor de alimentos e bebidas. […] Após as duas primeiras etapas de implantação da regulamentação da lei, não houve mudanças economicamente significativas nessas variáveis”, concluiu o artigo.

Uma das explicações para a manutenção da lucratividade da indústria de ultraprocessados foi a adaptação das empresas: muitas mudaram as fórmulas dos seus produtos para evitar  advertências nas embalagens.

O New York Times reportou, em 2018, que mais de 1.500 produtos foram reformulados em resposta à lei. O número equivale a 20% de todos os vendidos no Chile.

Uruguai, 2018

O Uruguai foi o 1º país do Mercosul a propor uma política de rotulagem frontal (também com modelo octogonal), em 2018. No entanto, vem enfrentando desafios na implementação.

A medida começaria a ser fiscalizada em 2020, mas o governo suspendeu a vigência do decreto para revisar os perfis nutricionais que definem o que é considerado “excesso” de açúcares, sódio e gorduras.

Pouco antes de um novo decreto entrar em vigor, em fevereiro de 2021, o governo do Uruguai modificou novamente os perfis nutricionais.

Os valores-limite foram flexibilizados para permitir maior quantidade de açúcares, sódio e gorduras a cada 100g ou 100ml, e não têm como referência o Perfil Nutricional da Opas.

Ao contrário do Chile, a lei uruguaia não contempla a proibição da publicidade infantil em alimentos que têm o selo.

Entre 1999 e 2013, a venda de alimentos com excessos de açúcar triplicou no Uruguai, segundo a Opas. No mesmo período, as taxas de sobrepeso em adultos aumentaram de 52,5% para 64,9%. Entre crianças e adolescentes, 39% estão com excesso de peso.

Peru, 2019

O Peru elaborou sua lei da rotulagem frontal em 2013 e implementou em 2019. Também adotou o modelo de octógonos.

Para além da adoção da mudança na rotulagem dos alimentos, a lei peruana definiu ações educativas, de promoção de atividades físicas e implementação de serviços de alimentação saudável nas escolas. Também regulou a publicidade voltada a crianças em alimentos que têm alto teor de açúcares, sódio, gorduras saturadas e trans.

Segundo pesquisa realizada pela consultoria Kantar em 2019, 67% dos peruanos reduziram ou substituíram o consumo de produtos que apresentavam alertas nutricionais na embalagem. Biscoitos doces e bebidas açucaradas foram os produtos com maior diminuição de consumo. Tiveram redução de 12% e 14%, respectivamente, em relação às vendas do ano anterior.

México, 2019

O México é o 2º país da América Latina com maiores taxas de sobrepeso e obesidade (70% entre adultos e 30% entre crianças). Fica atrás apenas dos EUA.

Aprovou sua lei de rotulagem frontal em 2019 e implementou em outubro de 2020. O modelo adotado foi o octogonal. A lei também exigiu que produtos com corantes ou cafeína apresentem essa informação na embalagem e restringiu o uso de quaisquer alegações nutricionais como “fonte de vitaminas” em produtos que levarem os selos de advertência.

Uma pesquisa realizada pela organização El Poder del Consumidor 1 ano depois da implementação da lei observou mudanças na formulação dos produtos para evitar a exigência do selo. Isso aumentou gradativamente o número de produtos livres de selos no país.

No caso dos cereais de caixa, por exemplo, apenas 5,9% dos produtos não precisaram apresentar os selos de alerta na embalagem em 2020. Hoje, são 11%.

O México já vem atuando no combate à obesidade desde 2014, quando passou a taxar bebidas açucaradas. No 1º ano em que a medida foi adotada, o consumo desses produtos caiu 6%, mostrou estudo publicado (514 KB) na revista Public Health Nutrition em 2018.

A tributação específica para bebidas açucaradas é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para evitar problemas de saúde como obesidade e diabetes. No Brasil, a discussão ainda se encontra um passo atrás: o governo federal concede isenções fiscais a indústria de refrigerantes e sucos desde a década de 90.

Argentina, 2021

A Argentina aprovou sua lei de rotulagem frontal em outubro de 2021. Tem prazo de 6 meses para ser implementada. O país também optou pelo rótulo octogonal.

Assim como o Chile, a lei argentina proibiu toda forma de publicidade voltada a crianças, como uso de personagens infantis e brindes, em alimentos que apresentarem os selos.

A exemplo da lei mexicana, a Argentina também passou a exigir alertas sobre a presença de corantes e cafeína nos produtos e restringiu a publicidade nas embalagens.

Brasil & obesidade

A obesidade é considerada pela OMS uma forma de desnutrição. É um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.

A obesidade atinge 19,8% dos brasileiros, e o excesso de peso, 55,7%, segundo dados da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) de 2018.

A cada 10 crianças de 5 a 9 anos, 3 estão com excesso de peso, de acordo com o Atlas da Obesidade Infantil no Brasil (11 MB), lançado pelo Ministério da Saúde em 2019. Das 186.369 crianças dessa faixa etária avaliadas no estudo, 68% têm o hábito de consumir ultraprocessados.

De acordo com documento publicado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) em 2019, 7,6% das crianças brasileiras com menos de 5 anos estão obesas. Essa taxa é maior que a média mundial, de 5,6%.


Absorventes femininos: A resposta da sociedade

 Taísa Szabatura

Revista ISTOÉ

O combate à pobreza menstrual mobiliza milhares de pessoas no Brasil, suprindo a deficiência do Estado. A iniciativa privada e jovens socialmente engajadas assumem a causa que afeta mais de um milhão de mulheres

(Crédito: ONG aqueles dias/

EMBALADO, IDENTIFICADO E DISTRIBUÍDO

 A estudante de cinema Mariana Valente (à dir) montou uma ONG e comanda

 o projeto “Aqueles Dias”, com a ajuda da irmã Isabela: relevante contribuição social 

A  palavra “menstruação” ainda causa desconforto em muitos falsos moralistas, mas o jogo está virando e traz para a mesa de discussão algo que acontece naturalmente todos os meses com pessoas em idade reprodutiva. Ensinadas por suas mães e avós que o sangue menstrual era algo sujo, que deveria ser escondido a todo custo, o ato de menstruar levou – e infelizmente ainda leva – diversas meninas e jovens a situação de constrangimento. Isso piora – e muito – quando falamos em famílias que simplesmente não têm condições de comprar absorventes, desconhecem como funciona o ciclo menstrual e estão fora do alcance da rede de saneamento básico. Tal condição faz com que muitas adolescentes e jovens faltem à escola, ao trabalho ou ainda se sujeitem a situações precárias para conter o fluxo, utilizando miolo de pão, espuma de colchão e pedaços de jornais.

Enquanto não há uma decisão definitiva para o problema por parte do governo federal, tem sido importante o engajamento de jovens por todo o País, não só no esforço das doações, mas também pela criação de organizações não governamentais estruturadas como empresas, repletas de funcionários “millennials”. O “Projeto Aqueles Dias” é um exemplo dessa movimentação da sociedade. Criado no início de 2020 pela estudante de Cinema Mariana Valente, de 20 anos, o projeto fazia parte de uma conferência da Organização das Nações Unidas, na Universidade de Harvard. Em março daquele ano, porém, o mundo entrou em lockdown e tudo parou.

Quase tudo. Mariana decidiu montar sua própria ONG para ajudar, inicialmente, uma comunidade na cidade de São Paulo. “Minha motivação sempre foi trabalhar com a educação sobre o tema, além da distribuição dos absorventes, claro”, diz ela. Hoje, “Aqueles dias” possui uma equipe de cerca de 30 pessoas, incluindo a irmã mais nova de Mariana, Isabela Valente, que aos 18 anos é responsável pelas redes sociais do projeto. “Trabalhar com a irmã mais velha é incrível e ao mesmo tempo complicado”, diz Isabela. As duas estão sempre em reuniões marcadas pelo computador onde decidem o planejamento mensal: conteúdo que será gerado para a publicação e visitas à comunidade. As irmãs não tratam a atividade como hobby ou moda passageira. “Meu plano para o futuro? Investir em sustentabilidade, como em calcinhas absorventes e coletores menstruais”, diz Mariana.

O caso delas não é único, iniciativas como “Fluxo sem Tabu”, “Absorvendo o fluxo”, “Absorventes do bem”, “Ciclo solidário”, “Absorvendo amor” e “Girl Up” estão espalhadas por todo o Brasil. Há ainda instituições que, ao doarem alimentos, também incluem os absorventes nas cestas básicas. Para participar, basta procurar por esses projetos na internet: todos possuem em comum uma forte presença em redes como o TikTok, Instagram, Twitter, fora os sites oficiais.

 (Crédito:Marcus Leoni)

INICIATIVA A Cacau Show, de Alexandre Costa, 

pretende criar 3 mil pontos para distribuir absorventes

Ação empresarial

Diversas empresas privadas têm os suas próprias ações sociais ligadas ao tema. Marcas de absorventes, produtos de limpeza, redes de supermercados e até uma empresa de chocolates têm atuação própria. A Cacau Show, por exemplo, maior produtora de chocolates finos do País, definiu metas ambiciosas. O presidente da empresa, Alexandre Costa, planeja destinar 3 mil pontos de venda de sua rede para a logística de distribuição de absorventes. Ele trabalha também para mobilizar empreendedores com o objetivo de construir uma fábrica de absorventes. Um grupo de empresários ouvidos por ISTOÉ discute também a possibilidade de um fundo de investimento de R$ 50 milhões anuais a serem usados em causas sociais como essa.

 (Crédito:Divulgação)

CONTRIBUIÇÃO Moradora do Morro do Piolho, na 

Zona Sul de São Paulo: ajuda da ONG “Aqueles dias” 

E a história não para por aí: estados e prefeituras decidiram criar leis ou destinar recursos para a compra e distribuição do protetor menstrual. Em Pernambuco, o governo passou a doar absorventes no final do ano passado. As prefeituras de Olinda e Recife, no entanto, já possuíam programas municipais de doações. Santa Catarina aprovou no final de 2021 uma lei estadual para a distribuição de materiais de higiene e os produtos começam a ser doados agora. Em São Paulo houve a criação de um programa com investimento de R$ 30 milhões para amparar 1,3 milhão de estudantes entre 10 e 18 anos, com prioridade para quem está em situação de vulnerabilidade social e econômica. A pobreza menstrual, vale ressaltar, atinge 900 mil mulheres que menstruam no País, segundo pesquisa realizada pela Unicef. O relatório diz que “a situação de meninas sem acesso a nenhum banheiro exclusivo não é menos alarmante”. São 713 mil jovens (4,61% do total) sem banheiros em seus domicílios e 88,7% delas, mais de 632 mil, vivem sem sequer um banheiro no terreno ou propriedade”. Ou seja, toda a ajuda é necessária.


8 atividades e brincadeiras antigas para relembrar com os filhos

 Ketlyn Araujo

Site Bebê.com 

A tecnologia trouxe uma série de benefícios para o desenvolvimento infantil, e embora o tempo de telas ainda seja uma questão a ser resolvida ou adaptada por muitos pais e responsáveis, sabemos que tablets, videogames e outros jogos virtuais podem contribuir para a criatividade, raciocínio lógico e habilidades de comunicação das crianças.

Na contramão disso tudo, existem aquelas atividades e brincadeiras que costumavam fazer parte do nosso dia a dia na infância, seja em sala de aula, na casa dos avós ou dos amiguinhos. Quando “tudo ainda era mato”, como já dizia o meme, e a internet dava apenas os primeiros passos, jogos como os de pular elástico e amarelinha, e artesanatos feitos com argila, papel crepom e machê eram mais do que comuns.

Por isso, que tal deixar as telinhas de lado e usar o tempo livre das férias escolares para resgatar as memórias e brincadeiras do passado, transformando-as em tardes em família regadas a boas doses de nostalgia?

A seguir, reunimos 8 ideias, entre artes e brincadeiras, perfeitas para desenvolver o lado criativo e a coordenação dos filhos, além de fáceis de serem reproduzidas e relembradas. Bom divertimento!

1- Tie dye

Um verdadeiro hit dos primeiros meses de quarentena ocasionada pela pandemia de Covid, fazer tie dye é relativamente simples, permite que as crianças brinquem com diferentes cores e formas e, de quebra, reaproveitem peças brancas previamente manchadas ou desbotadas.

Como o nome já adianta (sendo tie = amarrar, e dye = tingir), basta criar dobras e amarrações (usando elásticos ou barbantes) nas peças de sua preferência, umedecê-las com água e, posteriormente, aplicar em toda a superfície uma mistura de tinta para tecido e água.

Deixe a tinta penetrar nas peças, coloque-as para secar e, por fim, remova as amarrações. Depois é só vestir sua criação. A graça é que cada peça fica com um desenho único e especial!

2- Esculturas de papel machê

Usar papel machê, ou seja, aquela famosa misturinha entre papel picado, água e, se quiser, cola líquida, permite que os pequenos criem e moldem as mais diferentes esculturas, utensílios e brinquedos.

Para fazer o planeta Terra, como mostra o perfil @raisingshanaya, por exemplo, foi usado um balão como base e, por cima dele, as crianças grudaram os pedaços de papel machê. Depois de secar, a bexiga foi pintada de azul, e recortes de papel representando os continentes foram colados em toda a superfície.

Fácil, fofo e super adaptável, basta deixar a imaginação fluir. Olha só estes enfeitinhos de Natal usando a técnica:

3- Artes com giz de cera

Por ter uma textura mais macia, o giz de cera costuma atrair crianças graças à facilidade na hora de desenhar e pintar. Para deixar a atividade mais interessante, vale pensar em um tema para que as crianças possam criar desenhos usando giz, além de fazer a sua própria versão (mesmo que você não seja tão bom assim em desenho e pintura).

Outra ideia é usar o giz como carimbo, olha só como:

4- Criações de papel crepom

Outra alternativa para quem quer explorar o mundo do artesanato com os pequenos é usar papel crepom para criar ornamentos, acessórios, formas e personagens variados.

Você pode começar fazendo flores com as crianças, como sugere o vídeo acima, e ir expandindo o leque de opções de acordo com o grau de dificuldade – lembrando que o importante é se divertir!

5- Argila em suas diferentes possibilidades

Um dos materiais mais versáteis para serem usados em atividades com os filhos, a argila permite que a criança crie esculturas, faça desenhos e pinturas, sempre explorando a textura do material, que pode ser combinada a outros utensílios como rolinhos, palitos e espátulas.

Que tal usar a argila para criar os personagens de uma nova história desenvolvida em família? Ou, então, explorar o material e fazer, do zero, pratinhos e copinhos? Mesmo que as formas não saiam perfeitas, é uma ótima chance para o pequeno explorar o aspecto sensorial do material.

6- Amarelinha

Um clássico que conta com formatos diversos, a amarelinha pode funcionar como a atividade ideal para os dias de sol e calor, já que se encaixa perfeitamente na categoria de brincadeiras ao ar livre. Além disso, é ótima para desenvolver a coordenação motora dos pequenos.

Você pode usar um tecido grande e antigo para pintar a amarelinha, ou desenhá-la no chão, usando um giz de lousa. Seguindo o modelo tradicional, basta desenhar a sequência de 1 a 10 e, no fim, escrever a palavra ‘céu’. Cada participante, na sua rodada, deve arremessar um objeto (uma pedrinha, uma tampinha ou algo do tipo) em uma das ‘casas’ da amarelinha e, pulando com uma perna só, sem se desequilibrar, coletar o objeto e chegar até o ‘céu’. 

7- Cinco Marias

Para brincar de Cinco Marias, você vai precisar apenas de 5 pequenos saquinhos de tecido, preenchidos com grãos de arroz, areia ou pedrinhas e posteriormente bem fechados.

Todos os saquinhos devem ser colocados no chão ou em uma superfície plana e, na primeira rodada, um deles deve ser jogado para o alto, de modo que a criança não permita que ele caia no chão ou na superfície. Na segunda rodada, dois saquinhos devem ser jogados para o ar, e capturados de uma só vez. Na terceira rodada, é preciso jogar e pegar três saquinhos, na quarta quatro e, na última, todos ao mesmo tempo.

Se quiser tornar a atividade mais interessante, aproveite para cantar músicas infantis que as crianças gostam enquanto vocês jogam os saquinhos para o alto – vai ser ainda mais desafiador!

8- Elástico

Uma das brincadeiras mais populares nos intervalos de aulas das crianças de antigamente, pular elástico exige, apenas, um elástico de costura (de aproximadamente 3 metros e com um nó para unir as duas pontas) e três participantes, sendo que dois deles se posicionam nas extremidades do elástico, a cerca de dois metros de distância, enquanto o jogador principal fica no centro.

Dessa forma, o jogador deve pular dentro do retângulo formado, e realizar diferentes movimentos a cada rodada, seguindo as orientações do jogo (que variam de acordo com a região do Brasil). Conforme a criança vai passando de fase, o elástico vai subindo – do tornozelo para os joelhos, dos joelhos para a cintura, da cintura para as axilas, e assim sucessivamente. Se o jogador principal errar um dos movimentos, perde a vez e troca de lugar com um dos outros participantes.


Crianças redescobrem bonecas de pano, que geram negócios e ajudam a curar depressão

 Eduardo F. Filho

Revista ISTOÉ

Os benefícios dos brinquedos de pano vão além da afetividade e do saudosismo dos mais velhos, eles desenvolvem a ludicidade da criança, ajudam na representação e inclusão, além de salvar adultos da depressão e movimentar um grande mercado

 (Crédito: Marco Ankosqui)

LUXO Feito com exclusividade e sob medida: dependendo 

dos acessórios, o boneco pode valer até R$ 300 

Medindo apenas 40 centímetros, confeccionada a partir de retalhos velhos de uma saia, com olhos de fios de seda e recheada de fibra de macela, foi exatamente assim que em 1920 nasceu a boneca de pano mais amada e conhecida do Brasil: a “Excelentíssima Senhora Dona Emília”, como seu pai, Monteiro Lobato, a chamava. A fiel companheira de Narizinho no Sítio do Pica-Pau Amarelo acabou se tornando a melhor amiga de milhares de crianças brasileiras. Sinônimo de simplicidade, as bonecas de pano eram, antigamente, uma alternativa para as famílias que não tinham condições de comprar brinquedos industriais – como as famosas Barbie. Costuradas com máquina, não demorava mais do que algumas horas para ser feita, às vezes pela própria mãe. Agora, elas voltaram a ser cobiçadas pelas crianças e viraram um produto artesanal de grande demanda, por permitirem facilmente a customização, atendendo minorias e grupos étnicos variados.

 Foto: Marco Ankosqui

Durante a pandemia, o mercado, que se desenvolve principalmente pela internet, não sofreu o mesmo abalo do comércio em geral, ao contrário, cresceu, e muito. O cenário para esses bonecos também mudou. Ter um parceiro de tecido ultimamente, além de uma retomada da tradição e do sentido de afeto pelo brinquedo, também pode ser sinônimo de exclusividade e luxo. Feito sob medida para o cliente, dependendo da loja e dos acessórios, o boneco pode valer até R$ 300 reais, mas de um modo geral eles ficam bem abaixo disso e são acessíveis. A crise econômica colocou em ação artesãos que estavam adormecidos. Muitos profissionais viram nas bonecas uma forma de aumentar a renda dentro de casa. Outro efeito percebido foi que tanto produzi-las, como possuí-las, pode trazer benefícios emocionais. Elas são um produto emblemático em tratamentos ocupacionais e seu manuseio traz conforto real para muitas crianças.

A mineira Deila Casadio, de 39 anos, é um exemplo desses artesãos emergentes que descobrem as propriedades terapêuticas das bonecas de pano. Ela havia acabado de dar à luz sua terceira filha quando entrou em uma depressão severa. “Não tinha dinheiro para comprar leite”, diz emocionada. Precisou mudar de cidade e depender financeiramente da ajuda de parentes. Uma freira começou a ajudá-la a confeccionar panos de prato como forma de aumentar a renda da família. Com muito estudo e noites em claro assistindo vídeos na internet, Deila passou a fazer lindas bonecas que hoje são vendidas em todo o Brasil, principalmente em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. “Comecei porque precisava ser curada e esses desafios me impulsionavam”, diz. Deila evoluiu tanto no negócio que hoje oferece cursos pagos que contam com mais de três mil inscritos, entre eles, alunos da Europa, África e Oceania interessados em artesanato.

 Foto: Iara Cunha Fotografia

 INCLUSÃO Guilherme e Guizinho: tanto o garoto quanto 

o boneco de pano tem Síndrome de Down: identificação 


Foto: Iara Cunha Fotografia

Bonequeira há mais de uma década, Day Carlson, 40 anos, e o marido, Alain Carlson, 43, criaram um espaço especializado na criação de bonecas de pano para ajudar mulheres com depressão, senhoras da terceira idade que se sentiam sozinhas na pandemia, e para artesãos de um modo geral. O ateliê Coração de Pano, no interior de São Paulo, funciona como ambiente para as aulas que Day administra, mas também como local de colaboração entre profissionais do artesanato. “Cuidamos de muitas mulheres que queriam aprender a fazer bonecas de pano para tratar de uma depressão nessa pandemia”, diz. Além de proporcionar outra via para crianças acostumadas aos games, celulares e internet, os bonecos de pano são uma forma sustentável de trocar os brinquedos de plásticos por um tecido mais quente, aconchegante, que não machuca as crianças e ainda as ajudam a aprender fazer reciclagem. Os brinquedos de tecido também se encaixam na diversidade e inclusão.

 “Quando eu era criança, não me sentia representada pelas bonecas das lojas de brinquedos. Todas loiras, brancas e de olhos claros” Antônia Joyce Venancio, idealizadora da loja Preta Pretinha

 Foto: Iara Cunha Fotografia

Enquanto os tradicionais lutam para conseguir fazer uma linha com bonecos negros e asiáticos em meses, bastam dois dias para artesãos criarem uma linha de três bonecas negras ou com deficiência – síndrome de down, cego, vitiligo, em muletas ou cadeiras de rodas. A empresa Preta Pretinha, atua com esse público há mais de 10 anos. “Quando era criança, não me sentia representada por nenhuma boneca na loja. Todas loiras, brancas de olhos claros. Sempre foi um sonho não só oferecer a representação para essas crianças, mas para todo ser humano”, afirma Antônia Joyce Venâncio, idealizadora da empresa.

 Foto: Wanezza Soares

Guizinho, o boneco de pano de Guilherme Kavaleski, 10 anos, chegou na vida do garoto depois que ele precisou fazer uma cirurgia nas duas pernas. O brinquedo foi confeccionado com as duas pernas engessadas, assim como as de Guilherme. Mas esse não foi o único detalhe que fez o menino não desgrudar do companheiro. Tanto Guilherme, quanto Guizinho, têm Síndrome de Down. “Virou o melhor amigo dele. Ele o leva para todos os lugares, cria histórias com ele, e começou a tratá-lo como um ser humano, como um filho”, afirma Paula Kavaleski, mãe de Guilherme. O brinquedo, no caso do garoto, o ajudou na socialização, comunicação e na imaginação criativa. A beleza não está apenas no luxo e na confecção, mas na imaginação de todos aqueles que brincam com esses pequenos, mas poderosos artesanatos de pano.


Semana de Arte Moderna: o guarda-roupa modernista de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade

 Julia Braun

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Tarsila e Oswald a bordo do navio Lotus, em 1926. A pintora

 usa vestido assinado pelo costureiro francês Paul Poiret

A importância de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade para a história cultural brasileira é indiscutível. O casal que permaneceu junto por grande parte da década de 1920 influenciou de forma contundente o mundo da literatura e das artes plásticas por meio de suas obras e da defesa do modernismo.

Mas, para além de sua produção artística, o poeta e a pintora paulista reverberam há cem anos no imaginário nacional também pelo próprio ato de vestir.

Tarsila e Oswald conheciam muito bem o valor da moda e das aparências em seu processo de afirmação como artistas no Brasil e na Europa. E ao mesmo tempo em que usaram as roupas para deixar sua marca, também colaboraram para a definição estética do movimento modernista.

A conclusão faz parte de uma extensa e inédita pesquisa desenvolvida pela professora de história do vestuário e da moda Carolina Casarin.

Em seu livro O Guarda-Roupa Modernista, lançado pela Companhia das Letras no bojo das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, a autora revela como os ideais modernistas e as contradições do movimento podem ser compreendidos a partir da escolha das roupas de dois notáveis intérpretes do Brasil.

"As roupas contribuíram para o projeto artístico de elaboração de uma estética moderna e nacional, e a ideia de 'brasilidade modernista' se inscreveu na aparência e nos trajes do casal", afirma Casarin.

Dinâmico e exuberante

A pesquisa foi levantada a partir de diferentes registros da época - vestimentas, fotografias, pinturas, obras literárias, correspondências, depoimentos e recibos — e conseguiu, de certa forma, reconstruir o guarda-roupa de Tarsila e Oswald na década de 20.

O período foi o auge da fama do casal, que ficou junto entre 1923 e 1929, e ganhou o apelido de Tarsiwald do amigo e também poeta modernista Mário de Andrade.

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Tarsila, ao lado de Oswald, veste o traje Righi, de Poiret

Segundo Carolina Casarin, os dois artistas merecem destaque pela forma vanguardista com que se vestiam, mas de formas distintas.

"O guarda-roupa modernista de Oswald é dinâmico e se adapta muito bem às diferentes situações sociais, enquanto o da Tarsila é luxuoso e exuberante", disse a pesquisadora em entrevista à BBC News Brasil.

Mas apesar das diferenças, o casal construiu junto sua marca visual. Foi Oswald, aliás, quem incentivou Tarsila a conhecer ateliês e costureiros arrojados na Europa para compor seu visual e criar um estilo próprio.

"A imagem do casal é uma criação compartilhada e é perceptível o quanto eles traçaram um percurso no mundo da moda desde que começaram a se relacionar", diz.

"Os dois sempre tiveram um gosto pela estética, mas a partir do momento em que se conhecem e se aproximam definitivamente da arte moderna, sua a aparência se torna mais arrojada e ousada".

Homem de negócios e excêntrico vanguardista

E apesar da beleza e das roupas de Tarsila terem sempre sido elogiadas e alardeadas ao longo da história, a figurinista acredita que pertence a Oswald o título de mais arrojado do casal.

"Oswald tinha uma aparência geral mais moderna que Tarsila. Ele adotou já na década de 1920 um estilo com referências muito joviais que só estourou de fato no Brasil nos anos 1960", diz.

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Oswald de Andrade em fazenda em 1924

No guarda-roupa do poeta havia muitos trajes coloridos e estampados, que ele utilizava com sobreposições pouco comuns na época. Oswald também era adepto dos colarinhos moles, diferentes dos engomados usados pela maior parte dos homens na época davam mais conforto e deixavam o peito masculino à mostra.

Há registros ainda do escritor utilizando um chapéu palheta — que aparece em várias fotografias dos modernistas e remonta ao uniforme dos remadores — e paletó sem colete, algo pouco comum na década de 1920.

Em seu livro, Carolina Casarin também ressalta a ótima capacidade que Oswald possuía de transitar muito bem entre visuais descontraídos e mais formais.

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Em retrato de 1925, Oswald de Andrade usa terno e chapéu palheta

"Na alfaiataria dinâmica de Oswald de Andrade, cabem roupas que transitam do homem de negócios burguês ao excêntrico vanguardista", diz. "A verdade é que ele sempre foi muito contraditório e estava em constante mudança."

Artista exuberante

Já no closet de Tarsila o que não faltavam eram peças luxuosas da alta-costura europeia. Durante os anos 1920, a pintora foi diversas vezes a Paris e, em todas as suas viagens, aproveitava para visitar ateliês conceituados.

A partir de 1923 e até o final da década, os costureiros franceses Jean Patou e, mais intensamente Paul Poiret, foram os grandes responsáveis pela aparência de Tarsila.

E a partir do momento que passa a vestir a alta-costura francesa, a artista sofre uma mudança em sua aparência, que se torna menos discreta. "As saias dos vestidos se encurtam, os braços aparecem, as roupas ganham camadas e ornamentos'', diz Casarin em sua pesquisa.

"A figura de mulher elegante e rica se converte na imagem da artista exuberante — e a escolha da grife [Poiret] participou dessa transformação"

CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Tarsila do Amaral posa para foto na Inglaterra,

 início da década de 1920, usando vestido-casaco

Em uma das fotos mais famosas da artista, em que ela aparece em sua primeira exposição individual, na Galeria Percier em Paris, Tarsila está usando o vestido Écossais, da maison Paul Poiret.

Na imagem tirada em frente ao quadro Morro da Favela, é possível ver alguns detalhes da roupa de Tarsila: "As linhas do xadrez e a gola dupla, com sobreposição delicada de cassa de poá e bainha bordada em festão redondo", segundo descreve Casarin.

Para a pesquisadora, o traje e a própria foto trazem elementos típicos do modernismo. Enquanto a maneira como o xadrez foi aproveitado na criação do vestido acaba por desenhar um grande losango centralizado na parte superior do corpo, a roupa também tem um caráter tradicional que lembra os vestidos xadrez utilizados no interior do Brasil.

 CRÉDITO,DIVULGAÇÃO

Tarsila do Amaral posa com vestido xadrez em frente ao seu quadro 

'Morro de Favela' em vernissage na Galeria Percier, em Paris, em 1926

"O losango é uma forma geométrica muito presente no modernismo e na arte moderna em geral. E quando está inserido no contexto da foto, o Écossais transmite também uma mensagem modernista", explica Casarin.

"E ao mesmo tempo que é arrojado, o vestido tem um caráter tradicional, de roupa caipira, que ressoa com o modernismo brasileiro."

Outro traje utilizado pela artista e que pode ser relacionado diretamente com o conteúdo de suas obras é seu vestido de casamento.

A celebração da união com Oswald de Andrade aconteceu em outubro de 1926 e reuniu nomes como Júlio Prestes, o governador recém-eleito de São Paulo, e Washington Luís, o então presidente do Brasil e padrinho pelo lado do noivo.

O traje de noiva de Tarsila, também assinado por Paul Poiret, foi criado a partir da cauda do vestido de casamento da mãe de Oswald. Era de cor creme e tinha uma capa branca forrada de veludo creme, com gola em pé.

E apesar de o casamento ter sido bastante explorado por aqueles que escreveram sobre o modernismo brasileiro, não há imagens do dia da cerimônia. O próprio vestido de noiva é hoje apenas um conjunto de fragmentos, guardado na Pinacoteca de São Paulo.

"O vestido de Tarsila pode ser interpretado como uma roupa antropofágica por si só, pois ao mesmo tempo em que busca a ideia de tradição e origem brasileira ao utilizar parte da roupa da mãe de Oswald, também procura aquilo há de mais moderno no mundo por meio da atualização feita por Poiret", diz Carolina Casarin.

O movimento antropofágico fez parte da primeira fase do modernismo no Brasil e surgiu a partir de observações feitas por Oswald Andrade. A ideia criada pelo escritor sugeria "devorar" a cultura enriquecida por técnicas importadas e promover uma renovação estética na arte brasileira.

Do luxo à pobreza 

CRÉDITO,REPRODUÇÃO FOTOGRÁFICA ROMULO FIALDINI

Quadro de 1923 de Tarsila do Amaral é um autorretrato 

da pintora em um traje vermelho de gola alta

O relacionamento entre Tarsila e Oswald durou até 1929, quando a pintora descobriu que o marido tinha um caso e pediu imediatamente o divórcio.

No mesmo ano, com a crise de 1929, as famílias do casal perderam boa parte dos bens que tinham. Passado o auge do modernismo no Brasil, os artistas também deixaram de frequentar a alta sociedade com tanta frequência e desapareceram aos poucos dos olhos do público.

Sem dinheiro e deixados de lado, Oswald e Tarsila abandonaram a busca constante pela moda e por refinar sua aparência, de modo que o grande auge de seu guarda-roupa ficou restrito principalmente à década de 20.

"Eles eram muito ricos nos anos 20 e tinham muito dinheiro para gastar em roupas, mas faliram e a dinâmica se tornou inviável", diz Casarin.

Ainda assim, o casal deixou uma marca profunda não só na história das artes plásticas e da literatura, mas também na moda brasileira.


Crianças desenvolvem preconceito desde cedo

 Revista PLANETA 

Crédito: Pxfuel

© Harmonia interracial: as dificuldades para chegar a ela começam cedo na vida. 

As crianças na Holanda desenvolvem preconceitos com base na etnia desde tenra idade. A pesquisadora Ymke de Bruijn chegou a essa conclusão em sua dissertação “Preconceito interétnico infantil na Holanda: aprendizagem social de pais e livros ilustrados”. Para seu projeto de doutorado, apresentado em janeiro na Universidade de Leiden (Holanda), ela se concentrou nos comportamentos e ideologias a que as crianças são expostas por seus pais e através de livros ilustrados entre 6 e 10 anos de idade. 

O estudo de De Bruijn faz parte de um projeto de pesquisa maior conduzido pela Universidade de Leiden sob a supervisão da professora Judi Mesman: “KidS: Kinderen in de Samenleving” (Crianças na Sociedade). Como as crianças percebem a diversidade na sociedade? Eles têm contra pessoas de várias origens étnicas? “Tenho formação em ciências comportamentais e acho muito interessante e importante observar a maneira como as crianças desenvolvem preconceito e como isso é abordado”, disse De Bruijn. “Minha pesquisa mostra que não é verdade que as crianças não distinguem entre pessoas de várias origens étnicas.”

De acordo com De Bruijn, é importante cortar o desenvolvimento do preconceito pela raiz o mais cedo possível. Foi isso que motivou sua pesquisa. “Quase nenhuma pesquisa foi feita sobre isso na Holanda, enquanto ela ocorreu em outros países. Eu queria entender como o preconceito se manifesta nas crianças na Holanda. O que seus pais ou livros ilustrados ensinam sobre esse assunto e como isso contribui – tanto no sentido positivo quanto no negativo – para um possível preconceito?”

Empreendimento maciço de recrutamento

O projeto de pesquisa começou em 2017. Encontrar pais e filhos dispostos a participar foi um grande empreendimento. Pais e filhos foram recrutados por meio das mídias sociais e em eventos infantis, mercados e playgrounds cobertos. Ao final, quase 300 crianças e seus pais foram visitados em casa e responderam a perguntas em entrevistas, jogos e tarefas de computador.

“Antes do coronavírus, visitávamos as pessoas em casa, mas depois tivemos que fazer tudo digitalmente”, afirmou De Bruin. “Isso foi diferente do esperado e levou algum tempo para nos acostumarmos a nós e às crianças e seus pais.”

Quem você gostaria de convidar para o seu aniversário?

As crianças viram fotos de crianças de diferentes etnias: brancas, negras e com aparência do Oriente Médio. As crianças brancas geralmente selecionavam as crianças brancas nas fotos em resposta a perguntas formuladas positivamente, como: com quem você gostaria de brincar, quem você gostaria de convidar para o seu aniversário e com quem você gostaria de se sentar? “Quando formulamos essas perguntas negativamente, as crianças brancas foram selecionadas com menos frequência do que as outras crianças. Os resultados mostram que as crianças brancas na Holanda desenvolvem certas preferências em tenra idade”, explicou De Bruin.

Ela examinou várias ideologias de diversidade e descobriu que crianças cujos pais se inclinam fortemente para uma ideologia multicultural eram menos preconceituosas, enquanto uma ideologia “daltônica” não teve um efeito positivo. Múltiplas conclusões sobre a influência dos pais podem ser tiradas aqui. “Simplesmente não discutindo, a ‘paternidade daltônica’ tem um efeito contraproducente e não é uma ideia muito boa. A criança vai começar a se sentir desconfortável se você não falar, porque elas percebem as diferenças e podem vir a vê-los como assustadores ou negativos.” De acordo com De Bruijn, os pais devem ser incentivados a discutir etnia e racismo com seus filhos.

Conscientização de editores e usuários de livros

De Bruijn concluiu que continua sendo importante para as editoras de livros infantis prestar atenção à diversidade. “Parece que a diversidade nos livros não acontecerá automaticamente da noite para o dia. Os editores não devem apenas pensar ‘com que frequência um personagem de cor aparece no meu livro’, mas também ‘como esses personagens são retratados?’” Para os usuários de livros, De Bruijn aconselha que se tornem mais conscientes das escolhas que você faz como, por exemplo, pai ou professor. “Se você não está prestando atenção ativamente, é provável que não esteja oferecendo diversidade suficiente.”

A pesquisadora espera que seu estudo forneça dicas práticas para os pais sobre como iniciar conversas sobre etnia com seus filhos. “Demos um primeiro passo importante com esta pesquisa, mas para alguns pais ainda é muito difícil colocar isso em prática. O que eles devem ou não dizer e qual é o efeito resultante? Esse seria um bom próximo passo”, afirmou De Bruijn.


Entenda como o colorismo agrava o preconceito no Brasil

 Bruna Macedo

 CNN Brasil

Usado pela primeira vez em 1982, o termo expressa descriminação com diferentes tonalidades entre os negros



O termo “colorismo” foi usado pela primeira vez em 1982. Significa, de maneira simplificada, que as discriminações podem variar também de acordo com a tonalidade da pele dos negros. Apesar de ser pouco falado, é a realidade de muitos brasileiros.

“Eu sou uma mulher negra de pele clara. Eu sou parda. Minha mãe era negra, meu pai um homem branco”, afirma Amanda Ferreira, gerente de diversidade e inclusão.

Por ter pele clara, Amanda demorou para entender sua identidade: “o que a gente queria era aquela característica que a gente via na TV. Então, o cabelo eu alisava, tinha todo esse processo como toda garota dos anos 80 e 90”, explica.

Já Marcos Madeira, gerente de projetos, afirma que tinha dificuldade em entender que sofria discriminação por sua cor.

 
“Eu ia no shopping e o segurança me seguia. A minha razão para aquilo acontecer seria de que eu estava mal vestido ou porque eu tinha ido de chinelo, nunca porque eu era uma pessoa negra”, conta.

Menos de 3% das mulheres e homens negros alcançam cargos de gerência ou diretoria no Brasil. Número três vezes menor do que o de mulheres e homens brancos.

A consultora de diversidade Liliane Rocha explica que há no Brasil um racismo visual.

“Quanto mais largo for o seu nariz, quanto mais crespo for o seu cabelo, quanto mais escuro for o tom da sua pele, mais você vai passar esse preconceito cotidiano”, diz.

Amanda explica que o tratamento no mundo corporativo muda quando se tem características de negros.
“Eu, obviamente, passei isso em toda a minha jornada de vida desde a adolescência até mesmo hoje como profissional dentro de uma empresa”, afirma.

Marcos, no entanto, só conseguiu alcançar a posição profissional que desejava quando entendeu que era preciso impor sua própria identidade.

“No final do ano passado fui efetivado como gerente de projetos de uma grande marca, isso é disruptivo porque o Marcos de 2019, que não se entendia como negro, ele não pensava muito além”, conta.