terça-feira, abril 05, 2022

Criticar a empresa em rede social pode levar a demissão por justa causa?

 Marcelo Mascaro, sócio do escritório Mascaro Nascimento Advocacia Trabalhista

Exame

Liberdade de expressão, como outros direitos, tem limites. Advogado explica o que pode acontecer com empregado que critica a empresa nas redes 

Redes sociais: a Justiça do Trabalho tem admitido a justa causa

 do empregado em dois casos envolvendo as redes (AFP/AFP)


Marcelo Mascaro, sócio do escritório Mascaro Nascimento Advocacia Trabalhista

A liberdade de expressão é um direito assegurado constitucionalmente a todos e uma das bases de qualquer regime democrático. Por meio dela o indivíduo pode expressar suas impressões do mundo, por exemplo de natureza política, religiosa, filosófico, artística, etc.

Apesar disso, assim como outros direitos fundamentais, ela possui limites e deve ser utilizada de modo que não viole os direitos de outras pessoas, tal como a honra e a reputação de terceiros.

Além disso, a CLT prevê como hipótese de dispensa por justa causa o ato do empregado lesivo da honra ou da boa fama do empregador. Isso porque, por um lado, essa espécie de ato fere a reputação da empresa e, por outro, rompe a relação de confiança entre empregador e trabalhador.

Embora à época da criação da CLT as redes sociais fossem uma realidade distante, a proibição de o empregado depreciar a imagem da empresa já era uma preocupação. Atualmente, com a potencialidade de qualquer pessoa atingir um enorme público com suas opiniões em redes sociais essa preocupação se mostra com maior razão.

Nesse sentido, tem-se observado diversas decisões dos Tribunais da Justiça do Trabalho reconhecendo a validade da dispensa por justa causa de empregado que emite opinião difamatória da empresa em rede social.

Como exemplo, já foi reconhecida como difamatória crítica que considerava vergonhoso o valor do vale alimentação, que dizia ser horrível a comida oferecida pela empresa, que depreciava a organização de sua cadeia produtiva ou que vinculava as condições de trabalho a doenças psicológicas dos empregados.

Acrescenta-se que a Justiça do Trabalho tem admitido a justa causa do empregado não apenas quando o empregado publica em rede social conteúdo de teor difamatório contra a empresa, mas, inclusive, quando terceiro o publica e o empregado “curte” o conteúdo.

Apesar disso, caso o trabalhador sinta que as condições de trabalho não são adequadas poderá utilizar dos meios legais para fazer cumprir seus direitos.

Por exemplo, o empregado que se considerar prejudicado tem a possibilidade de ajuizar uma ação trabalhista na Justiça do Trabalho, solicitar a intervenção de seu sindicato profissional ou, ainda, fazer uma denúncia no Ministério Público do Trabalho para que a empresa seja investigada.


Passo a passo para tirar o título de eleitor pela internet

 Bianca Bellucci

33Giga

 © Lua Pramos on VisualHunt 

Quem ainda não tirou o título de eleitor tem até 4 de maio para solicitar o documento e poder participar das eleições deste ano, que ocorrem em 2 de outubro. Dessa vez, cinco cargos estão na disputa: presidente da república, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. O procedimento pode ser feito de forma online, por pessoas a partir de 16 anos. Se você não quer perder o prazo – ou enfrentar lentidões do sistema na última hora –, acompanhe o passo a passo.

Passo a passo para tirar o título de eleitor pela internet 

- Lua Pramos on VisualHunt  






  PASSO A PASSO PARA TIRAR O TÍTULO DE ELEITOR PELA INTERNET

1. Acesse o site de requerimento do título de eleitor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em seguida, selecione o estado em que você mora.

2. Aparecerão na tela algumas informações sobre o procedimento. Leia com atenção e, depois, aperte “Próximo”.

3. Em “Título de eleitor”, selecione “Não tenho”. Preencha os demais dados solicitados pelo site. Clique em “Próximo” ao concluir.

4. A nova tela será dividida em dois blocos de informações. Em “Requerimento – Dados Pessoais”, preencha os campos com os documentos solicitados.

5. Já em “Documentos”, será necessário enviar algumas fotos. Faça as capturas necessárias e pressione “Próximo” ao finalizar essa etapa.

6. Agora, o site pedirá os dados de residência. Preencha os campos e aperte “Próximo” ao finalizar.

7. O site dará opções de locais de votação próximo ao seu endereço. Selecione aquele que for mais conveniente e clique em “Próximo”.

8. Confira se os dados de requerimento estão corretos e selecione “Confirmar” para finalizar o procedimento.

9. Pronto! Um número de protocolo será gerado. Guarde-o para consultar o andamento da solicitação neste link. Caso não haja qualquer pendência, o título de eleitor será liberado e poderá ser usado de forma digital pelo aplicativo e-Título (disponível para Android e iOS).


Por que seu cachorro vira a cabeça quando você fala com ele

 Marina Demartini, 

EXAME.com 

Thinkstock

Cachorros: os pugs tentem a inclinar menos a cabeça do que cães de outras raças

São Paulo – Sabe quando o seu cachorro inclina a cabeça para o lado depois de receber uma bronca? Não, ele não está tentando ser fofo para amolecer o seu coração. Na realidade, o animal pode estar com dificuldades em ver o rosto do dono.

Tanto os olhos, quanto a boca, são componentes importantes para formar as expressões faciais do ser humano. Como os cachorros possuem uma inteligência emocional elevada, eles conseguem “ler” o rosto para obter informações sobre o estado emocional de qualquer pessoa.

No entanto, é preciso ver as feições para fazer essa decodificação. E isso pode ser um problema para os cães.

De acordo com uma pesquisa publicada no site Psychology Today, o focinho do cachorro faz com que ele não consiga ver a parte inferior do rosto humano. Assim, para facilitar a visualização das características faciais de seu dono, ele inclina a cabeça.

Para entender como funciona o mecanismo, basta você colocar seu punho na frente de seu nariz. Desse modo, você tem a noção de como é ter um focinho atrapalhando a sua visão.

A pesquisa foi feita com 582 pessoas. Elas precisaram dizer com que frequência seus cães inclinam a cabeça. Além disso, Stanley Coren, o cientista que conduziu o estudo, perguntou aos participantes qual era a raça dos animais.

Dos entrevistados, 62% disseram que seus animais inclinam a cabeça regularmente. Apenas 52% dos donos de cães com focinhos mais achatados (como pugs e bulldogs) disseram que eles inclinaram a cabeça.

Já 71% dos donos de cachorros com focinhos maiores informaram que os animais inclinam a cabeça com certa frequência.

Foi a partir dessa diferença estatística que Coren concluiu que o cachorro inclina a cabeça devido ao impacto do tamanho do focinho na visão do animal.

A proporção de cães de focinhos achatados que se inclinam ainda é grande. Por isso, o autor acredita que há outro fator que também faz com que eles façam esse movimento.

“Talvez a audição desempenhe um papel nesse caso. Ou ainda, os cães estão realmente tentando parecer fofos”, disse Coren em um artigo sobre a pesquisa. “Esse estudo é um primeiro passo para encontrar a resposta.”


DIO oferece oportunidades de formação e trabalho em Portugal

 Luísa Granato

O Globo

A plataforma de formação em tecnologia já ofereceu mais de 1 milhão de bolsas de estudo e agora também terá programas internacionais 

 (Alexander Spatari/Getty Images)

Portugal 

O novo nome da plataforma de formação de desenvolvedores Digital Innovation One, agora DIO., não é a única novidade da empresa. Agora, a escolha que já formou 600 mil devs para o mercado brasileiro abre oportunidades internacionais.

Por meio de cursos online gratuitos para os alunos e em parceria com empresas interessadas em contratar, a empresa passa a oferecer vagas para trabalho remoto em empresas estrangeiras e também posições para expatriação.

"Desde quando pensamos a DIO, nossa ideia foi sempre possibilitar que todos tivessem acesso à educação em tecnologia de qualidade e gratuita para ingressar no mercado de trabalho", destaca o CEO da startup, Iglá Generoso.

Desde sua fundação em 2018, a empresa já ofereceu mais de 1 milhão de bolsas de estudo e teve mais de mil contratados através de sua plataforma.

Agora, dois novos projetos ampliam o alcance dos alunos da DIO.

A primeira parceria é com a Volkswagen Digital Solutions para criar um programa de aceleração de carreira com foco em desenvolvedores que queiram se mudar para Lisboa e ganhar salários em euro. A trilha tem seis horas de conteúdo e quatro atividades.

Confira aqui as inscrições para o programa.

A segunda parceria é com a empresa portuguesa TONNIE. O programa com 180 horas de conteúdo terá aulas de inglês, tecnologia e a cultura europeia. O foco é no público que deseja morar e trabalhar na Europa.

Quem se destacar podem ganhar pós-graduação com bolsa de estudo remunerada no Instituto Politécnico de Leiria, em Portugal.

No final do curso, os profissionais serão contratados por 12 meses, no mínimo, nas empresas clientes da TONNIE, como a Hitachi, a Clear Strategy, a Bring e a Reduti.

Confira aqui as inscrições para o programa.

Segundo o CEO da DIO, a principal diferença no perfil de profissionais para os novos programas é a necessidade de ter inglês avançado e disponibilidade para sair do país. Para a empresa, ele vê que o movimento vai aumentar a capacidade de conexões e parcerias.

"O que diretamente aumenta nosso alcance e a democratização do ensino de tech no Brasil e no mundo", diz.

Dicas de carreira, vagas e muito mais

Toda terça-feira, leia as notícias mais quentes sobre o mercado de trabalho e fique por dentro das oportunidades em destaque de vagas, estágio, trainee e cursos. Já às quintas-feiras, você ainda pode acompanhar análises aprofundadas e receber conteúdos gratuitos como vídeos, cursos e e-books para ficar por dentro das tendências em carreira no Brasil e no mundo.


Brasil é Ocidente? Entenda debate complexo que ressurge com conflito entre Ucrânia e Rússia

 Redação 

Hypeness

O conflito entre Ucrânia e Rússia fez crescer um debate sobre a suposta divisão do mundo entre Ocidente e Oriente. A narrativa simplista do que ocorre no leste europeu prevê que a Ucrânia deseja se integrar ao Ocidente – simbolizado pelos EUA e pela União Europeia – e se distanciar da Rússia, uma das forças do dito Oriente. No meio disso tudo, há sempre a questão: o Brasil é ocidental?

 © Yuri Ferreira

Kremlin tenta expandir sua zona de influência e barrar expansão do Ocidente ao leste; principal motivo do conflito entre Ucrânia e Rússia é a aproximação de Kiev da Europa e dos EUA

No mapa, o Brasil é um país do Ocidente, considerando que o Ocidente é tudo aquilo que está a Oeste do Meridiano de Greenwich. Mas olhando para a geopolítica e para a cultura, nosso país está um pouco distante dos princípios que guiam ideologicamente os países ocidentais.

O que é Ocidente?

A própria dicotomia entre Ocidente e Oriente é considerada irreal. A verdade é que, no mundo moderno, o Ocidente são os países do Atlântico Norte, ligados aos Estados Unidos e o Oriente é tudo aquilo que está depois de Constantinopla e não fala uma língua anglo-saxônica ou latina.

 © Yuri Ferreira manhattan

Principal símbolo ocidental é Manhattan, o centro

financeiro do império da democracia liberal, os EUA

O professor Edward Said definiu em seu livro “Orientalismo: o Oriente Como Invenção do Ocidente” que esses conceitos nada mais são do que formas encontradas por países imperialistas ocidentais como França, Inglaterra e EUA, para justificar suas invasões na Ásia e Oriente Médio.

 “O orientalismo pode e deve ser analisado como uma instituição para lidar com o Oriente, criando uma imagem sobre aqueles povos diversos. E são diversas as formas dessa separação falsa, com tentativas de reescrever, domar e dominar a Ásia. De maneira resumida, a invenção de um oriente é uma invenção do Ocidente para dominar, reestruturar e colonizar”, explica Said.

Historicamente, a divisão entre Ocidente e Oriente surgiu na chamada “Cisma do Oriente”, quando a Igreja se dividiu em Católica Romana e Ortodoxa Bizantina. Esse conflito fomentou a nova formação do mundo e anos depois viriam as cruzadas contra os muçulmanos. Esta separação entre Ocidente e Oriente foi a base de diversos conflitos, como a Guerra Fria e ela segue até com seus alvos, em especial, os islâmicos.

 © Yuri Ferreira

Divisão entre Ocidente e Oriente foi fomentada a partir das

 cruzadas e nunca perdeu força no mundo do Atlântico Norte

“O Ocidente sempre se definiu em oposição a algo, ora em relação aos povos islâmicos do Oriente Médio, ora em relação aos povos asiáticos de maneira geral”, afirma o professor de Fundamentos Sociais José Henrique Bortoluci, da FGV. “É um conceito que necessariamente abarca uma exclusão do outro”, adiciona.

Brasil é Ocidente?

E o que o Brasil tem a ver com tudo isso? Muito pouco. Somos um país colonizado por europeus e nossa identidade nacional não é construída sob a égide dos “valores judaico-cristãs”, mas é forjada sobre conceitos como escravidão, violência, colonização e com etnias diversas, crenças diversas e sem pretensões imperiais e de dominação do planeta.

 © Fotos: Creative Commons 

Brasil favela

Já os Estados Unidos, que desejam unificar sua dominação sobre os outros países, ou a Inglaterra, que mantém o Império Colonial até os dias atuais, precisam defender ataques aos inimigos e se proteger da “ameaça do leste”, que ora vem como o Islã, ora vem como o socialismo, ora vem como os japoneses (como na Segunda Guerra Mundial).

O Brasil não faz parte do Ocidente porque não domina ninguém, ele é dominado. E sua “identidade” dentro do plano da geopolítica é mesmo a latinidade; é com os irmãos de continente que compartilhamos as origens ameríndias, a colonização ibérica, a escravidão, os golpes de estado financiado pelos EUA e outras tantas dores.

É claro que nossa língua está mais próxima daquela dos europeus do que dos indonésios. Mas dividimos com todos os indonésios, indianos, árabes, chineses, coreanos, persas, enfim, uma miríade de milhares de povos, um fato: o de que fomos colonizados pelo Ocidente.


Como ter 'muito dinheiro' virou dor de cabeça para sistema de aposentadoria da Islândia

 Redação

BBC News Mundo

 CRÉDITO,REUTERS

Volume de recursos equivale a quase o dobro

 do PIB da pequena ilha no Atlântico Norte

Construir um dos mais bem-sucedidos sistemas previdenciários do mundo trouxe um desafio inusitado para a Islândia.

O volume de recursos arrecadado com as contribuições atingiu um volume tão grande que o país se viu diante da necessidade de discutir o melhor caminho para investir o dinheiro que financia as aposentadorias dos islandeses.

Com ativos que chegam a quase o dobro do tamanho da economia da ilha, localizada no Atlântico Norte, o governo liderado pela ambientalista e ecologista Katrín Jakobsdóttir está aventando a ideia de permitir que as empresas que administram fundos de previdência façam mais investimentos no exterior. Atualmente, a legislação limita o percentual a 50%.

"O sistema ficou grande demais", disse o ministro das Finanças, Bjarni Benediktsson, em coletiva à imprensa local em dezembro.

"Nem é preciso dizer que não podemos limitar todas as oportunidades de investimento ao mercado interno", completou.

'Consequência do próprio sucesso'

Com um montante de recursos de cerca de US$ 50 bilhões, equivalente a algo próximo de 200% do Produto Interno Bruto (PIB), "o sistema agora enfrenta as consequências do seu próprio sucesso", diz Hans van Meerten, professor de direito previdenciário europeu da Universidade de Utrecht, na Holanda, em entrevista à BBC Mundo, serviço em língua espanhola da BBC.

A Islândia tem um sistema previdenciário de contribuição obrigatória, explica o pesquisador, como muitas economias da Europa. A participação, contudo, é compulsória mesmo para trabalhadores autônomos, acrescenta van Meerten, enquanto na maioria dos países europeus não é obrigatória.

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Idade mínima para aposentadoria no país é de 

67 anos no setor privado e de 65 no público

Diferente de países como a Holanda, o país também dá mais liberdade no momento da escolha de um fundo de previdência por parte dos contribuintes.

Esse tipo de característica acaba distinguindo o sistema de quase todos os demais.

O sistema previdenciário do país se tornou "o melhor sistema de pensões do mundo" em outubro, segundo o Global Pension Index elaborado pelo Mercer-CFA Institute, uma medida reconhecida que compara todos os anos os sistemas de aposentadoria em 43 países, representando cerca de 65% da população mundial.

O ranking atribui diferentes valores de pontuação distribuídos entre três categorias principais: suficiência do sistema (cujo peso é de 40% na avaliação), sustentabilidade (35%) e ambiente regulatório (25%).

Em 2021, a Islândia alcançou 84,2 pontos, o melhor desempenho da lista, tendo como pontos fortes o que foi considerada uma previdência pública "relativamente generosa", um sistema de previdência privada bem regulado e administrado, além de nível elevado de contribuições.

Holanda e Dinamarca ocuparam segundo e terceiro lugares, respectivamente.

A Islândia está "muito bem preparada para a bomba-relógio que vemos em todos os lugares: o envelhecimento", avalia van Meerten.

"Tem uma combinação única de previdência pública e privada que evita em grande medida a pobreza na velhice para trabalhadores e não trabalhadores."

Sistema previdenciário da Islândia

Três pilares: um sistema público, um sistema de contribuição laboral e outro voluntário.
15,5%Alíquota mais recorrente no sistema de contribuição laboral
11,5%de contribuição das empresas
4%de contribuição dos trabalhadores

Fonte: OCDE

Como funciona o sistema

De forma resumida, o sistema opera sob três pilares: um sistema público de previdência financiado pelo Estado, outro para o qual contribuem os trabalhadores e empregadores e um sistema voluntário de previdência privada.

O sistema público, financiado com impostos, tem duas modalidades: uma básica, que inclui toda a população, exceto aqueles com maior renda, e uma complementar, que também tem limites em relação à renda pessoal.

O segundo pilar, o laboral, bancado com as contribuições previdenciárias de trabalhadores e empresas, prevê contribuição mínima de 12% sobre o salário, sendo 4% pagos pelos empregados e 8% pelos empregadores.

Devido à atuação dos sindicatos trabalhistas, contudo, a contribuição mais recorrente é um pouco maior, de 15,5%, com alíquota de 11,5% para as empresas e os mesmos 4% para trabalhadores.

A lei estabelece que, para quem contribuiu ao longo de 40 anos, o valor da aposentadoria deve ser de, no mínimo, 56% do rendimento médio obtido nos anos de trabalho, com o benefício pago de forma vitalícia, conforme os dados da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE).

O valor final depende do desempenho financeiro dos fundos - pelas regras, entretanto, o rendimento das aplicações deve, no mínimo, estar atrelada ao índice de inflação.

Os trabalhadores do setor privado podem se aposentar aos 67 anos e os do setor público, aos 65. A maioria dos islandeses, contudo, continua no mercado de trabalho mesmo depois da idade limite para tentar alcançar valores melhores de benefícios.

Aposentadorias na Islândia

No sistema obrigatório de contribuição laboral
56%do salário médio é o valor mínimo que o contribuinte que trabalhou por 40 recebe como benefício.

Fonte: OCDE

Proteger-se de grandes riscos

Com apenas 370 mil habitantes e uma economia fortemente dependente do turismo, a Islândia não ficou imune às flutuações dos ciclos econômicos globais.

A crise financeira de 2008, por exemplo, paralisou seu imenso setor bancário, quase varreu o mercado nacional de ações e fez com que o sistema previdenciário perdesse mais de 20% de seus recursos.

Por conta disso, o país decidiu ser mais cauteloso e se proteger contra uma onda de riscos financeiros internacionais.

Passada mais de uma década, entretanto, muitos fundos de investimento estão se aproximando do limite de aplicação em ativos no exterior, e têm se multiplicado os pedidos para que os limites legais de investimento sejam flexibilizados.

A Icelandic Pension Fund Association, associação que representa as entidades financeiras, defende a eliminação total do limite de investimento ou, alternativamente, o estabelecimento de um teto de 60% a 65%.

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Sistema previdenciário islandês é considerado o melhor do mundo

Há um intenso debate em torno do tema, já que, quanto maior a exposição ao mercado internacional, maior o risco de o país sentir os efeitos e de uma eventual nova crise.

Nesse sentido, as autoridades têm repetido que qualquer aumento da internacionalização dos fundos de previdência deve ser feito de forma gradativa e em linha com a evolução da economia doméstica.

Os críticos da proposta argumentam que uma grande mudança pode desestabilizar a moeda local em um momento em que a Islândia enfrenta uma contração no setor de turismo devido à pandemia de covid-19.

No auge da crise sanitária em 2020, o Banco Central islandês chegou a assinar um acordo com fundos de pensão para que suspendessem os investimentos no exterior por seis meses justamente com o objetivo de proteger o câmbio.


A surpreendente migração russa para os EUA via México que explodiu antes da guerra

 Marcos González Díaz

Correspondente da BBC News Mundo no México

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Número de migrantes russos detidos na fronteira entre o México 

e os Estados Unidos aumentou em oito vezes no segundo semestre de 2021

Depois de demonstrar indiferença nas primeiras horas da invasão russa à Ucrânia e de condená-la energicamente pouco tempo depois, o México assegurou sua disposição de conceder refúgio a qualquer pessoa afetada pelo conflito que solicite — tanto ucranianos quanto russos.

"Queremos oferecer refúgio para todos, abraçar a todos, gostaríamos que não existissem fronteiras, somos do partido da fraternidade universal", afirmou o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, sem fornecer detalhes mais concretos sobre o plano para refugiados.

Até o momento, apenas um grupo de 28 ucranianos, que receberão visto humanitário, chegou ao país — todos são familiares de mexicanos que viviam na Ucrânia e foram repatriados no mesmo avião em 4 de março.

O fato é que, meses antes de começar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, milhares de cidadãos dos dois países (especialmente russos) já haviam viajado para o México em busca de melhores condições de vida. Mas seu destino final não era o país asteca — e, sim, os Estados Unidos.

Usar o México como antessala para chegar ao vizinho do norte por via terrestre não é algo novo. A rota é utilizada há anos por migrantes centro-americanos, haitianos, cubanos e venezuelanos, entre outros.

Mas o notável aumento de russos retidos nos últimos meses na fronteira entre o México e os Estados Unidos chamou a atenção das autoridades dos dois países, pouco acostumadas a esse trânsito de migrantes provenientes de um país localizado a mais de 10 mil quilômetros de distância.

Aumento das detenções na fronteira

Ainda não sabemos como a invasão russa à Ucrânia no fim de fevereiro afetará esta tendência migratória, mas o número de pessoas procedentes daquela região detidas na fronteira sul dos Estados Unidos sofreu um súbito aumento ao longo do segundo semestre de 2021.

No caso dos migrantes russos, o número de pessoas detidas foi oito vezes maior em comparação com o primeiro semestre, saltando de 1.092 para 8.284. O salto é ainda maior quando comparado com o mesmo período (julho a dezembro) de 2020, quando tinha ocorrido apenas 169 detenções - já durante a pandemia.

CRÉDITO,GETTY IMAGES

O fechamento da embaixada americana em Moscou devido à pandemia dificultou a obtenção de vistos e fez aumentar o número de cidadãos russos entrando nos EUA pelo México

A maioria tentou ingressar nos Estados Unidos pela fronteira que separa Tijuana, no México, de San Diego, na Califórnia.

No mesmo período, também foi registrado um grande aumento no número de cidadãos russos que entraram no México como turistas.

O México não exige visto comum de cidadãos russos, nem de ucranianos, que podem obter uma autorização eletrônica para entrar no país, de forma simples, em questão de horas.

Fontes da migração do México afirmaram à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, que aumentaram os esforços para verificar nos aeroportos se os cidadãos russos realmente ingressam no país com intenção de fazer turismo.

Mas, considerando as dificuldades envolvidas, as autoridades não descartam que, no futuro, as exigências para entrada de pessoas dessa nacionalidade no México possam ser ampliadas, como ocorreu recentemente com cidadãos brasileiros e venezuelanos.

O México passou a exigir visto de visitantes do Brasil e da Venezuela, após detectar aumento de supostos turistas que, após entrarem no país, faziam "trânsito irregular para um terceiro país", segundo o governo mexicano. A medida consolida seu papel de frear a migração irregular para os Estados Unidos.

O jornalista moscovita Denis Styazhkin, que fez esta viagem em novembro de 2021, conta que precisou esperar por "cinco ou seis horas" em uma sala de migração ao chegar ao aeroporto da Cidade do México.

"Todos os [passageiros] russos foram levados para lá e nos entrevistaram para saber o propósito da visita. Eu disse que iria gravar um documentário sobre os últimos dias de [Leon] Trotsky, o revolucionário russo que viveu na Cidade do México", explicou ele à BBC News Mundo, falando da Califórnia, onde por fim conseguiu chegar.

 CRÉDITO,YOUTUBE DENIS STYAZHKIN

Denis Styazhkin, em primeiro plano no aeroporto da Cidade do México, 

narrou sua viagem para os Estados Unidos em seu canal no YouTube

Rota de avião e hotéis

Mas, embora os migrantes russos também passem pelo México, sua viagem para os Estados Unidos tem pouco a ver com as realizadas por milhares de centro-americanos.

"Os russos vêm para o México com recursos econômicos. Os centro-americanos que entram por via terrestre são frequentemente extorquidos ou até sequestrados. Para evitar isso, eles [os russos] deslocam-se de avião", segundo José Moreno, diretor da Coalizão Pró-Defesa do Migrante do Estado da Baixa Califórnia, no México.

"Eles chegam como turistas. É uma migração mais sofisticada, por assim dizer", diz Enrique Lucero, diretor de atenção ao migrante da prefeitura de Tijuana, no México.

Ele explica que, depois que chegam de avião à Cidade do México ou Cancún, estes migrantes vão até a fronteira norte pegando outro avião ou alugando um carro.

Graças à sua capacidade econômica, a imensa maioria dos migrantes russos hospeda-se em hotéis durante a travessia.

"É um fluxo circular. Eles chegam aqui e tentam cruzar, ou chegam após uma tentativa fracassada e retornam ao seu país. Você não os encontra como outros migrantes, que ficam em albergues por algum tempo", acrescenta Lucero.

"É uma migração mais invisível. E até porque, pela sua aparência, às vezes você pode pensar que eles são americanos, são mais difíceis de se identificar", ressalta José María García, diretor do albergue para migrantes Movimiento Juventud 2000, em Tijuana.

O ativista — que alerta sobre o risco de que os migrantes russos acabem se convertendo em "presas fáceis" para grupos criminosos pelo dinheiro que carregam durante a viagem — afirma que nenhum cidadão russo se hospeda no seu albergue, que segue ocupado principalmente por haitianos, centro-americanos e mexicanos.

 CRÉDITO,MARCOS GONZÁLEZ

O albergue para migrantes de Tijuana dirigido por

 José María García não tem cidadãos russos abrigados

De fato, em uma pesquisa realizada em fevereiro de 2022 em vários centros no norte de Tijuana, a BBC News Mundo localizou apenas um cidadão russo num albergue chamado Jesucristo Príncipe de Paz. Mas ele chegou há mais de um ano e não tem intenção de cruzar a fronteira para os Estados Unidos.

"Não tenho ideia por que tantos cidadãos russos estão fazendo isso de forma ilegal, já que qualquer país com um governo opressor pode receber asilo dos Estados Unidos legalmente", delarou ele à BBC News Mundo, depois de se recusar a contar sua história pessoal.

Por que pelo México?

Styazhkin, o jornalista de Moscou, chegou a Tijuana de avião. Antes, assim como outros de seus compatriotas, ele evitou pegar um voo direto da Rússia para o México para não levantar suspeitas das autoridades migratórias e fez uma escala na Turquia.

Ele afirma que a falta de liberdade para exercer sua profissão de jornalista na Rússia e a detenção de seus colegas o levaram a sair do país rumo aos Estados Unidos.

Ele também analisou a opção de migrar para outros países, muito mais próximos, na Europa. E não descartou a possibilidade de estabelecer-se no México, em vez de usar o país apenas de passagem.

CRÉDITO,GETTY IMAGES

San Ysidro, na Califórnia, é o ponto mais utilizado pelos

 cidadãos russos para passar do México para os Estados Unidos

No entanto, incentivado pela experiência de seus compatriotas que haviam feito a viagem, ele considerou que as oportunidades que os Estados Unidos poderiam oferecer faziam valer a pena viajar até lá.

"Os Estados Unidos são uma garantia para a sua segurança. Depois soube que eles nunca me deportariam para a Rússia quando chegasse lá e assim tomei minha decisão", ele conta.

Segundo Ekaterina Mouratova, advogada de migração residente em Miami que auxilia solicitantes de asilo de língua russa, o número de clientes que ela tem originários da Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e Belarus aumentou no segundo semestre de 2021.

Ela afirma que 90% dos seus clientes tentam migrar para os Estados Unidos alegando "motivos políticos e medo de perseguição no seu país".

CRÉDITO,MARCOS GONZÁLEZ

Os migrantes russos se alojam em hotéis, em vez de albergues, durante sua travessia

Outro motivo é o fechamento, durante boa parte da pandemia, da Embaixada dos Estados Unidos em Moscou, que dificultou muito a obtenção legal de vistos para a população russa.

"Com a embaixada fechada e anos de espera nos países em que as embaixadas funcionavam, não havia outras opções para chegar aos Estados Unidos. Por isso, viajei pelo México, que era o único caminho possível para chegar até aqui", afirma Styazhkin.

E um terceiro motivo para este aumento da migração russa, segundo Mouratova, é a crença de que as políticas migratórias do presidente americano, Joe Biden, são muito mais abertas que as do seu antecessor, Donald Trump.

"As pessoas que conseguem cruzar a fronteira contam suas histórias para outros nos seus países de origem e dizem que foram liberadas em 24 ou 48 horas. Elas passam a imagem de um país acolhedor", explica a advogada.

Mais segurança na fronteira

Enquanto muitos migrantes centro-americanos atravessam rios, saltam barreiras ou buscam pontos cegos para cruzar a fronteira, as autoridades perceberam que a maioria dos migrantes russos tenta passar em grupos a bordo de automóveis.

Por isso, os Estados Unidos instalaram filtros de segurança adicionais para verificar os veículos, metros antes de os migrantes chegarem ao local onde são recebidos pelos agentes de imigração.

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Os EUA realizam revistas de segurança adicionais 

antes que os veículos cheguem à fronteira

Styazhkin conta que, depois de chegar a Tijuana, localizou na internet outro grupo de cidadãos russos que iriam tentar atravessar para os Estados Unidos a bordo de um automóvel que eles haviam comprado na cidade.

Ele se reuniu com o grupo de madrugada e, ao chegarem à fronteira, entregaram sua documentação ao agente americano e o informaram de seu desejo de pedir asilo político.

"Neste momento, outros guardas começaram a gritar para que déssemos meia-volta com o carro e voltássemos para o México. Mas um dos agentes veio e nos disse: 'Calma, vocês estão em um país livre'", ele conta.

Styazhkin foi entrevistado e passou dois dias e meio no centro de detenção de Otay Mesa, em San Diego. Depois, foi levado a um hotel para passar a quarentena devido à possibilidade de covid-19 e foi finalmente liberado.

CRÉDITO,REUTERS

Em dezembro de 2021, um agente de fronteira americano disparou contra dois carros com cerca de 20 migrantes russos que tentaram entrar à força no porto de entrada de San Ysidro e foram detidos

Programas como o "Quédate en México" ("Fique no México", em tradução literal), que obriga os solicitantes de asilo a esperar em território mexicano durante a tramitação dos seus casos, não se aplicam aos migrantes russos, mas sobretudo a cidadãos de países de língua espanhola, brasileiros e haitianos.

O México também recebe migrantes procedentes da Guatemala, Honduras e El Salvador expulsos expressamente dos Estados Unidos com base no Título 42, que proíbe a entrada por motivos de saúde pública desde o início da pandemia.

Já os migrantes de outras nacionalidades podem ser deportados para seus países, mas os Estados Unidos geralmente não os expulsam por transporte aéreo no caso de longas distâncias, nem quando existe distanciamento das relações diplomáticas com seus países de origem, como no caso da Rússia.

O trabalho dos 'coiotes'

Como ocorre com quase todos os movimentos migratórios concentrados em uma determinada região, autoridades e ativistas estão certos de que existem grupos de tráfico de pessoas (seja na Rússia ou no México) que ajudam cidadãos russos a realizar a viagem em troca de dinheiro.

O serviço de notícias em russo da BBC encontrou pelo menos 10 grupos no Telegram e no Facebook nos quais pessoas falantes do idioma russo procuram e oferecem informações sobre como ingressar nos Estados Unidos pela fronteira com o México — quais documentos serão necessários, as perguntas que serão feitas na imigração...

Também há nestes grupos ofertas de serviços dos chamados "ajudantes", incluindo desde a ajuda na hora de comprar um automóvel em Tijuana até o acompanhamento até um ponto específico da fronteira. As taxas são discutidas em particular, mas alguns usuários indicam que podem variar de US$ 3 mil a US$ 5 mil (cerca de R$ 15 mil a R$ 25 mil).

Styazhkin afirma que não recorreu aos serviços de nenhum "coiote" e que encontrou sozinho todas as informações necessárias para a viagem fazendo buscas na internet.

CRÉDITO,DENIS STYAZHKIN

Styazhkin vive em Sacramento, capital da Califórnia, 

lar de grande parte da diáspora russa nos Estados Unidos

Instalado na capital da Califórnia, Sacramento, onde vive uma grande comunidade russa, sua esperança agora é conseguir um visto de trabalho em seis meses — e que a sua petição seja examinada pela justiça dentro de um ano.

"Meus planos são de viver e trabalhar nos Estados Unidos até que mude o regime na Rússia. Porque, se eu voltar, vão me colocar imediatamente na prisão", conclui o jornalista.

Como a invasão russa à Ucrânia afetará esta migração?

A atual invasão russa à Ucrânia causou o cancelamento da rota Moscou-Cancún da companhia aérea russa Aeroflot, além de outras opções de viagem para o México com escalas na União Europeia, que fechou seu espaço aéreo para os aviões russos.

Mas, apesar destes obstáculos, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) no México prevê que o conflito pode acabar se traduzindo em um "aumento nos números" da migração destas e de outras nacionalidades do leste europeu para o México e os Estados Unidos.

"Estamos acompanhando muito de perto esta situação", afirma o chefe de missão adjunto da OIM no México, Jeremy MacGillivray.

Ele acredita que possíveis erros de interpretação do recente anúncio de que os Estados Unidos concederão status de proteção temporária a cidadãos ucranianos poderá ter influência nisso.

"Isso fornece proteção contra a deportação somente por um tempo determinado e apenas aos ucranianos que já estão no país, não a novos migrantes. Mas observamos em outras ocasiões que um anúncio deste tipo gera esperança nas pessoas, que às vezes o consideram uma 'porta aberta' para chegar aos Estados Unidos", declarou ele à BBC News Mundo.

Caso o aumento na chegada desses migrantes seja considerável, ele também não descarta que o México acabe por impor um visto ou que os Estados Unidos endureçam suas exigências na hora de solicitar asilo na sua fronteira.

"Uma tendência observada com outras populações é que, à medida que as condições de entrada nos Estados Unidos ficam mais rigorosas, as pessoas veem com melhores olhos a possibilidade de estabelecer-se no México, que costumava ser um país de origem e trânsito de migração, mas que está se tornando cada vez mais um lugar de destino", destaca MacGillivray.

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Cruzar a fronteira ou ficar no México? Se as exigências para entrar nos EUA

 ficarem mais rigorosas, ficar no vizinho do sul pode ser uma opção para os migrantes

Para Elisa Ortega Velázquez, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), os países europeus mais próximos se tornarão o principal destino destes migrantes, que considerarão o México e os Estados Unidos em uma segunda etapa.

"Mas o México nunca está preparado para enfrentar os desafios migratórios que se apresentam ao país. Na verdade, o que vemos ano após ano é uma política de redução orçamentária da Comissão Mexicana de Auxílio aos Refugiados", destaca a especialista em migração e direitos humanos.

Ortega Velázquez critica também o tratamento diferenciado por parte das autoridades na hora de oferecer asilo às pessoas de acordo com a sua nacionalidade, o que pode beneficiar russos e ucranianos.

"A classe social e a raça influenciam muito. No aeroporto da Cidade do México, a probabilidade de ser preso aumenta exponencialmente quando as pessoas são de classe baixa ou não são brancas. E, nos Estados Unidos, centro-americanos e mexicanos nem chegam a receber a oportunidade de pedir asilo", conclui ela.


Guerra na Ucrânia: os erros militares da Rússia no conflito

 Jonathan Beale

Repórter de Defesa da BBC News 

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A Rússia tem uma das maiores e mais poderosas forças armadas do mundo, mas a invasão da Ucrânia vem deixando uma imagem diferente disso. Muitos analistas militares nos Estados Unidos e países da Europa ficaram surpresos com seu desempenho no campo de batalha até agora.

Os avanços militares parecem ter parado e alguns questionam se a Rússia terá capacidade para se recuperar das perdas que sofreu. Esta semana, um militar da Otan disse à BBC: "os russos claramente não alcançaram seus objetivos e provavelmente não o farão".

Então, o que deu errado? Conversei com militares e oficiais de inteligência nos EUA e países da Europa sobre os erros que a Rússia cometeu.

Suposições equivocadas

O primeiro erro russo foi subestimar a força da resistência e as capacidades das próprias forças armadas da Ucrânia, que são bem menores do que as da Rússia. A Rússia tem um orçamento anual de defesa de mais de US$ 60 bilhões (R$ 300 bilhões), em comparação com os gastos da Ucrânia de pouco mais de US$ 4 bilhões (R$ 20 bilhões).

Ao mesmo tempo, a Rússia e muitos outros parecem ter superestimado suas próprias forças militares. O presidente Vladimir Putin embarcou em um ambicioso programa de modernização das suas forças armadas e ele próprio pode ter acreditado demais em seu projeto. 

Um alto funcionário militar britânico disse que grande parte do investimento da Rússia foi gasto em seu vasto arsenal nuclear, que inclui o desenvolvimento de novas armas, como mísseis hipersônicos. A Rússia supostamente construiu o tanque mais avançado do mundo — o T-14 Armata. Mas, embora o tanque tenha estado presente na Parada do Dia da Vitória de Moscou na Praça Vermelha, ele não apareceu no campo de batalha. A maior parte do que a Rússia levou à guerra são tanques T-72 mais antigos, veículos blindados de transporte de pessoal, artilharia e lançadores de foguetes.

No início da invasão, a Rússia tinha uma clara vantagem aérea, com as aeronaves de combate perto da fronteira superando a força aérea da Ucrânia em uma proporção de três para um. A maioria dos analistas militares acreditava que a força invasora rapidamente estabeleceria sua superioridade no ar, mas não foi o que aconteceu. As defesas aéreas da Ucrânia ainda estão se mostrando eficazes, limitando a capacidade de manobra da Rússia.

Moscou também pode ter presumido que suas forças especiais teriam um papel importante, ajudando a desferir um golpe rápido e decisivo.

Um alto funcionário da inteligência disse à BBC que a Rússia pensou que poderia enviar unidades mais leves, como os paraquedistas Spetsnaz e VDV, "para eliminar um pequeno número de defensores e isso seria suficiente". Mas nos primeiros dias seu ataque de helicóptero ao Aeroporto Hostomel, nos arredores de Kiev, foi repelido, impedindo que a Rússia estabelecesse uma ponte aérea para trazer tropas, equipamentos e suprimentos.

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Na parada militar, mas não no campo de batalha: o tanque T-14 Armata da Rússia

Em vez disso, a Rússia teve que transportar seus suprimentos principalmente por estrada. Isso criou engarrafamentos e pontos de estrangulamento que são alvos fáceis para as forças ucranianas emboscarem. Alguns blindados pesados saíram da estrada e acabaram atolados na lama, reforçando a imagem de um exército que ficou "atolado".

Enquanto isso, a longa coluna blindada da Rússia do norte que foi flagrada por satélites ainda não conseguiu cercar Kiev. Os avanços mais significativos vieram do sul, onde a Rússia conseguiu usar linhas ferroviárias para reabastecer suas forças. O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, disse à BBC que as forças do presidente Putin "perderam o impulso".

"Eles estão parados e estão lenta e seguramente sofrendo baixas significativas."

Perdas e baixo moral

A Rússia acumulou uma força de cerca de 190 mil soldados para esta invasão e a maioria deles já participou de alguma forma da batalha. Mas os russos já perderam cerca de 10% dessa força. Não há números confiáveis para a escala das perdas russas ou ucranianas. A Ucrânia afirma ter matado 14 mil soldados russos, embora os EUA estimem que o número real provavelmente seja metade dessa estimativa.

Autoridades dos EUA e de países europeus dizem que também há evidências de queda no moral dos combatentes russos. Um dos entrevistados disse que o moral era "muito, muito, baixo". Outro disse que as tropas estavam "com frio, cansadas e famintas", pois já esperavam na neve há semanas em Belarus e na Rússia antes de receberem a ordem de invasão.

A Rússia já foi forçada a procurar mais tropas para compensar suas perdas, incluindo a movimentação de unidades de reserva de lugares distantes como o leste do país e a Armênia. Autoridades ocidentais acreditam que também é "altamente provável" que tropas estrangeiras da Síria em breve se juntem à luta, junto com mercenários do grupo secreto Wagner. Um alto funcionário militar da Otan disse que isso era um sinal de que a Rússia "está raspando o tacho".

Suprimentos e logística

A Rússia tem enfrentado dificuldades com itens básicos. Há um velho ditado militar que diz que amadores falam de táticas enquanto profissionais estudam logística. Há evidências de que a Rússia não deu a devida atenção a isso. As colunas blindadas ficaram sem combustível, comida e munição. Veículos quebraram e foram abandonados, e depois rebocados por tratores ucranianos.

Autoridades dos EUA e de países da Europa também acreditam que a Rússia pode estar com pouca munição. A Rússia já disparou entre 850 e 900 munições de precisão de longo alcance, incluindo mísseis de cruzeiro, que são mais difíceis de substituir do que armas não guiadas. Autoridades dos EUA alertam que a Rússia se aproximou da China para buscar ajuda para resolver parte de sua escassez.

Em contraste, tem havido um fluxo constante de armas fornecidas pelos EUA e países da Europa para a Ucrânia, o que tem sido um impulso para seu moral. Os EUA anunciaram que fornecerão US$ 800 milhões (R$ 4 bilhões) adicionais em apoio à defesa. Além de mais mísseis antitanque e antiaéreos, espera-se que o pacote inclua o Switchblade, que é um pequeno drone "kamikaze" desenvolvido nos EUA que pode ser carregado em uma mochila.

Autoridades dos EUA e de países da Europa ainda alertam que o presidente Putin pode "aumentar a intensidade dos ataques com maior brutalidade". Eles dizem que ele ainda tem poder de fogo suficiente para bombardear cidades ucranianas por um "período de tempo considerável".

Apesar dos reveses, um oficial de inteligência disse ser improvável que o presidente Putin seja dissuadido e que ele pode, em vez disso, aumentar a intensidade dos ataques. "Ele provavelmente continua confiante de que a Rússia pode derrotar militarmente a Ucrânia", disse a autoridade anônima. E embora as forças ucranianas tenham mostrado uma resistência feroz, esse mesmo oficial alertou que, sem reabastecimentos significativos, eles também poderiam "eventualmente ficarem esgotados em termos de munição e números".

As chances de vitória da Ucrânia podem parecer hoje melhores do que quando a guerra começou, mas o cenário ainda favorece amplamente a Rússia.


Tanques versus drones: quem leva a melhor nessa guerra assimétrica

 Vilma Gryzinski 

Veja online

Como força atacante, é natural que os russos percam blindados cuja história começou na I Guerra Mundial - diferente é o uso maciço de drones

  Twitter/Reprodução 

Lembrancinha: trator guincha sistema antimísseis russo e vira sucesso na Ucrânia

Piadinha ucraniana à moda antiga: “Nunca pergunte a idade de uma mulher, o salário de um homem e onde um agricultor ucraniano conseguiu seu sistema antimísseis”.

É um veículo esse tipo que aparece na foto acima, entre várias cenas que fizeram sucesso nas redes sociais com agricultores ucranianos usando seus tratores para guinchar blindados, inclusive os legendários tanques russos, que encrencaram ou foram abandonados no interior do país.

Outra piada, essa da vida real, segundo o Telegraph. Volodymyr Zelenskiy usou de seus dotes de humorista num telefonema com Boris Johnson. Louvando o sistema antitanque britânico conhecido como NLAW – que os ucranianos pronunciam, como fariam os brasileiros, “nilav” -, ele cantou, parodiando a música dos Beatles: “All I need is NLAW”.

Tanques russos encrencados ou detonados (258, segundo o último balanço do blog Oryx), os sistemas sofisticados que os tiram de combate, como o NLAW e o americano Javelin, e os mísseis turcos Bayraktar – cujos ataques são montados com trilha sonora para efeito propagandístico- estão conseguindo atrasar o que parece inevitável: a conquista de diferentes cidades colocadas na lista de pontos estratégicos russos.

Muito antes que a guerra acabe, os especialistas estão procurando tirar lições, inclusive sobre o desempenho dos equipamentos bélicos – e dos homens que os controlam.

Os percalços enfrentados pelos tanques russos na etapa inicial, alinhados em infinitas colunas que pareciam obedecer um manual obsoleto, levaram vários especialistas a cogitar se os blindados estariam superados na guerra moderna, uma hipótese que existia antes mesmo da operação na Ucrânia.

Desde o ano 218 antes de Cristo, quando Aníbal cruzou o Ródano com 37 elefantes de guerra – além de  38 mil soldados de infantaria e oito mil de cavalaria -, o mundo bélico é fascinado por  vetores capazes de avançar sobre o campo inimigo com uma couraça resistente e aterrorizante.

O tanque estreou na I Guerra Mundial, como uma tentativa de quebrar o impasse da guerra de trincheiras, mas ganhou celebridade com a tática da blitzkrieg usada pela Alemanha nazista para penetrar rapidamente as fileiras inimigas, com blindados, infantaria e cobertura aérea. Para derrotar um inimigo bem equipado, motivado e inventivo, a União Soviética apelou às contra-ofensivas em massa, com enorme sacrifício de vidas  e o uso de até 60 mil tanques.

Poder de fogo, resistência, mobilidade e capacidade de penetração fizeram do tanque a própria imagem da guerra convencional desde então. A última grande batalha de tanques foi na Operação Tempestade no Deserto, a invasão coordenada pelos Estados Unidos para liberar o Kuwait da forças de ocupação iraquianas, em 1991.

Como o nome indica, o terreno desértico parece ter sido feito para confrontos do tipo, embora muitos iraquianos estivessem mais ocupados em se render em lugar de lutar em nome de Saddam Hussein. A falta de combatividade se refletiu nos resultados. Na batalha de 25 de fevereiro, os americanos destruíram 186 tanques iraquianos e perderam quatro.

Desde então, as guerras se tornaram assimétricas e os pontos contra os tanques aumentaram. São cada vez mais caros  e complicados, por causa dos equipamentos high tech; os sistemas portáteis antitanques explodem um grandalhão a um custo muito menor; não servem para muita coisa nas guerras urbanas (exceto, claro, para a destruição em massa de casas e edifícios) e um simples drone tem uma capacidade desproporcional de destruição.

Os drones em operação na Ucrânia estão sendo ajudados pela rede de satélites Starlink, de Elon Musk, que melhora a velocidade das conexões. Musk prometeu colocar mais satélites em órbita para ajudar os ucranianos – e foi convidado por Zelensky a visitar a Ucrânia quando a guerra acabar.

Quando isso vai acontecer, não dá para dizer. Como? Toda a lógica indica que a superioridade bélica russa acabará se impondo, mesmo a um preço muito mais alto do que Vladimir Putin esperava pagar – são impressionantes as imagens da fila de ônibus do exército russo, com as janelas cobertas de branco, atravessando a Belarus com corpos de soldados tombados em combate.

É impossível acreditar em qualquer número divulgado por todas as partes, pois faz parte da guerra da informação manipulá-los. Em princípio, por serem submetidos ao escrutínio da imprensa, os números da inteligência americana seriam um pouco menos distorcidos. Os sete mil mortos que havia contabilizado até o fim da semana passada seriam catastróficos, mas as forças russas têm como absorvê-los se forem mantidos a disciplina e os planos, obviamente adaptados à realidade (“Nenhum plano sobrevive ao contato com o inimigo”, alertava Eisenhower).

A tomada da cidade de Mariupol tem importância estratégica e simbólica para os russos. Foi lá que, durante 2014, o ano onde se gestaram as crises atuais, um improvisado Batalhão Arzov, os ultranacionalistas com tinturas neonazistas, reconquistou a cidade, tomada por forças pró-Rússia.

O Arzov continuou a ser muito forte em Mariupol e melhorou muito sua capacidade de combate e de propaganda. São do batalhão os vídeos feitos por drones mostrando tanques russos explodindo como num game, ao sim de músicas patrióticas.

As forças russas estão muito perto de fechar o semicírculo que vai de norte a sul da Ucrânia, pelo lado oriental, conquistando liberdade de ação para avançar sobre Kiev.

Acontecerá um milagre para salvar Kiev? É nessas horas que entram no mapa antecedentes históricos. O mais conhecido deles é o chamado Milagre do Vístula, referência à batalha de 1920 em torno de Varsóvia, quando forças polonesas (com aliados ucranianos, tendo os dois países se tornado independentes) em posição de desvantagem derrotaram, contra todos os prognósticos, o exército de outro país recém-formado, a União Soviética.

O arquiteto do ataque era Lênin, o comissário da Defesa era Trotski e o objetivo era levar a revolução bolchevique, na ponta da baioneta, até a Alemanha e daí para toda a Europa, atravessando uma Polônia que mal começava a se reconstruir como país.

Os poloneses mais devotos acreditam até hoje que os russos perderam batalhas vitais por causa de uma aparição de Nossa Senhora, abrindo o manto protetor sobre suas forças. Também ajudou o fato de que os poloneses haviam decifrado o código das comunicações por rádio do inimigo, possibilitando assim que soubessem antecipadamente seus movimentos.

Haverá um milagre do Dniepre, o rio que atravessa Kiev? Avançarão os tanques russos, superados ou não, sobre a capital ucraniana, numa batalha que multiplicará por várias vezes a destruição vista até agora?

Lênin achava que, quando o Exército Vermelho se aproximasse de Varsóvia, os comunistas poloneses se rebelariam e levariam o país junto. Os próprios comunistas poloneses haviam avisado que isso não aconteceria.

Os invasores de hoje também achavam que seriam recebidos de braços abertos pela população que tem o russo como primeira língua e não a insultos e manifestações inacreditavelmente corajosas de protesto em lugares já sob ocupação.

Vladimir Putin agora está avaliando se também recebeu prognósticos errados – e corre que pelo menos dois chefes de inteligência já estão em detenção domiciliar por causa disso. 

Contra informações erradas, nem o maior contingente de tanques do mundo, como tem a Rússia, dá jeito.


O que se sabe sobre os mísseis hipersônicos russos

 Carla Bleiker

Deutsche Welle

Em ataque contra depósito de armamentos ucraniano, Rússia usou pela primeira vez uma arma extremamente rápida e difícil de detectar. Teoricamente mísseis hipersônicos seriam capazes de atingir capitais europeias.

Um ataque balístico realizado na última sexta-feira (18/03) foi diferente de todos os demais ocorridos nas três semanas anteriores da guerra da Rússia contra a Ucrânia: o alvo era um depósito de armamentos e munição no lugarejo de Deliatyn, a 100 quilômetros da fronteira ucraniana com a Romênia.

A ofensiva se destacou não só porque as instalações foram destruídas, mas por as Forças Armadas russas terem usado um míssil hipersônico, pela primeira vez no conflito. Após anúncio do Ministério da Defesa russo, o governo dos Estados Unidos confirmou o emprego do míssil do tipo por Moscou. "É quase impossível detê-lo", declarou o presidente americano, Joe Biden, na segunda-feira.

"Invencíveis", foi como o presidente Vladimir Putin louvou as novas armas em 2018, ao apresentar o arsenal nacional. Pode ter sido uma descrição exagerada, com fins de propaganda, mas contém um quê de verdade: mísseis hipersônicos diferem das armas balísticas convencionais de maneiras que os tornam mais difíceis de ser identificados e interceptados pelos sistemas de defesa. É uma questão de velocidade e altitude.

Alta velocidade, baixa altitude

Os mísseis hipersônicos alcançam de Mach 5 a Mach 10 – ou seja, voam de cinco a dez vezes mais rápido do que o som. O tipo usado pela Rússia para destruir o depósito de Deliatyn é um "Kinzhal" ("adaga" em russo), de oito metros de comprimento.

Segundo algumas fontes, esse foguete alcança 6 mil quilômetros por hora, o que seria Mach 5, outros lhe atribuem velocidade Mach 9 ou até Mach 10. Seja como for, é rápido. Tanto, que "a pressão do ar na frente da arma forma uma nuvem de plasma que absorve ondas de rádio", explicam os peritos armamentistas do website americano Military.com. Isso dificulta muito a detecção dos "Kinzhal" e outras armas hipersônicas por sistemas de radar.

O segundo motivo para a baixa detectabilidade, é que eles voam muito mais baixo do que os mísseis balísticos convencionais, no que se denomina uma "trajetória balística de baixa atmosfera". Isso implica que, quando um sistema de defesa baseado em radar os localiza, eles já estão tão perto do alvo que em muitos casos não é mais possível interceptá-los.

Para completar, são capazes de mudar de direção em pleno voo.

Capitais europeias no raio de alcance

O míssil contra o depósito em Deliatyn foi lançado do ar, provavelmente de um avião MiG-31. Porém armas hipersônicas podem ser também disparadas a partir de navios e submarinos, e estão aptas a portar ogivas nucleares.

Foto: Daniel Ceng Shou-Yi/ZUMA/picture alliance 

Os "Kinzhal" atingem alvos a até 2 mil quilômetros de distância, enquanto outros armamentos semelhantes alcançam cerca de mil quilômetros. Caso estacionados no exclave russo de Kaliningrado, no Mar Báltico, por exemplo, eles teriam em seu raio de alcance diversas capitais europeias. Berlim fica a menos de 600 quilômetros.

Certos analistas sustentam, contudo, que o ataque a Deliatyn foi um evento isolado. Apesar das vantagens dos mísseis hipersônicos perante os convencionais, a Rússia não empregará sua arma "invencível" indiscriminadamente na guerra contra a Ucrânia, afirmou à emissora BBC Dominika Kunertova, do Centro de Estudos de Segurança, em Zurique. Até porque o país "não dispõe de um grande número desses mísseis".