quinta-feira, abril 07, 2022

Os superalimentos desprezados que poderiam ajudar a reduzir a fome no Brasil

 João Fellet - @joaofellet

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,SHARON BARCELOS CARVALHO

O botânico Valdely Kinupp segura um cacho de buriti,

 fruto típico da Amazônia e do Cerrado.

A cada ano, entre 60 e 70 milhões de toneladas do fruto mais rico em carotenoides do mundo amadurecem no Brasil, mas só uma ínfima parcela é aproveitada por humanos.

A informação está em "Frutas comestíveis na Amazônia", livro do botânico Paulo Bezerra Cavalcante, lançado em 2010.

A estimativa trata do buriti, fruto de uma palmeira abundante na Amazônia e no Cerrado, mas desprezado pela indústria alimentícia.

As propriedades antioxidantes do buriti ajudam a prevenir câncer e outras doenças. Versátil, ele pode ser consumido in natura ou transformado em farinha, doces e pães.

Ainda assim, o fruto é uma das várias espécies alimentícias nativas do Brasil que têm perdido espaço em lares, restaurantes e mercados ao mesmo tempo em que a fome cresce e a comida encarece no país.

Muitas dessas espécies produzem frutos comestíveis. Outras são hortaliças que nascem espontaneamente em campos agrícolas e canteiros, mas são vistas como ervas "daninhas".

Em comum, muitas delas são considerados superalimentos por terem grande quantidade de nutrientes - como minerais, vitaminas e antioxidantes.

Muitas dessas espécies produzem frutos comestíveis. Outras são hortaliças que nascem espontaneamente em campos agrícolas e canteiros, mas são vistas como ervas "daninhas".

Em comum, muitas delas são considerados superalimentos por terem grande quantidade de nutrientes - como minerais, vitaminas e antioxidantes.

 CRÉDITO,PREFEITURA DE BH

Ora-pro-nóbis integra culinária típica de Minas Gerais,

 mas é pouco conhecida em vários outros Estados.

'Matos' comestíveis

Resistentes, várias hortaliças espontâneas comestíveis toleram grandes variações climáticas e dispensam cuidados especiais. Um exemplo é o caruru, que tem folhas com propriedades semelhantes às do espinafre e sementes com 17,2% de proteínas.

Outra planta é a beldroega, rica em ômega-3 e nas vitamina B e C, além de ter propriedades antioxidantes.

Todos os anos, porém, muitos agricultores recorrem a herbicidas para destruir grandes quantidades de caruru e beldroega antes de substituí-las por espécies exóticas. E, em muitos casos, as novas espécies plantadas têm menos nutrientes que as anteriores, são mais sujeitas a pragas e são dependentes de fertilizantes, cujos preços também estão em alta.

Pesquisador do ramo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) dedicado a hortaliças, o agrônomo Nuno Rodrigo Madeira diz à BBC News Brasil que hortaliças como o caruru e a beldroega têm mais nutrientes que várias verduras convencionais justamente por serem mais resistentes.

"Como elas não são adubadas, elas disparam processos metabólicos para conseguir viver na adversidade e aguentar calor e seca, e isso faz com que fiquem mais nutritivas para a gente", afirma.

CRÉDITO,KEW SCIENCE

Beldroega é provavelmente originária da África, 

mas se tornou espontânea em solos de todo o Brasil.

Para Madeira, o desprezo por essas espécies se deve ao "afastamento entre a sociedade e a origem do alimento".

"Nós nos distanciamos da produção, só entendemos mercados, e o ente mercado quer que a gente gaste mais, senão o PIB reduz", afirma.

Vender nos supermercados hortaliças que crescem sozinhas como "matos", diz ele, não seria tão lucrativo quanto vender as verduras convencionais - daí a resistência do setor em incorporar esses itens.

Só a lógica comercial, segundo Madeira, explica que em uma cidade quente como Manaus agricultores recorram a pedras de gelo para conseguir cultivar hortaliças como a alface, enquanto tantas espécies nativas adaptadas ao calor são deixadas de lado.

E isso não ocorre só no Brasil.

CRÉDITO,KEW SCIENCE

Caruru cresce espontaneamente em jardins 

e canteiros agrícolas de todo o Brasil.

Professor do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) em Manaus, o botânico Valdely Kinupp diz à BBC que 90% do alimento mundial hoje vem de 20 tipos de plantas - embora se estime que até 30 mil espécies vegetais tenham partes comestíveis.

Os números soam ainda mais paradoxais no Brasil, país que abriga entre 15% e 20% das espécies vegetais do planeta, mas alimenta a maior parte de sua população com o mesmo cardápio limitado - e majoritariamente estrangeiro.

São estrangeiros quase todos os principais produtos agrícolas do país, como a soja (China), o milho (México), a cana-de-açúcar (Nova Guiné), o café (Etiópia), a laranja (China), o arroz (Filipinas) e a batata (Andes).

Entre as raras plantas que fizeram o caminho inverso, saindo do Brasil para ganhar outras partes do mundo, estão a mandioca, o cacau e o amendoim.

"É muito pouco", diz Kinupp. "Vivemos um imperialismo agroalimentar."

 CRÉDITO,INSTITUTO FLORESTAL

Presença de buriti em paisagens costuma 

indicar a existência de algum curso d'água.

No livro "Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil", que Kinupp lançou com o colega botânico Harri Lorenzi em 2014, são listadas 351 espécies alimentícias "subutilizadas, mal conhecidas e negligenciadas" pela população brasileira.

Muitas delas são nativas; outras, espécies exóticas já naturalizadas e aclimatadas ao país. Várias são conhecidas por uma série de nomes populares distintos (para evitar confusão, listamos no fim desta reportagem os nomes científicos das principais espécies citadas nesta reportagem).

Kinupp é um dos principais líderes no Brasil de um movimento pela valorização das PANC, o acrônimo que batiza seu livro.

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Agricultura de larga escala costuma desprezar plantas

 alimentícias que surgem espontaneamente no campo.

Nos últimos anos, embalados pelo movimento, alguns mercados e feiras ampliaram a oferta de PANC, chefs as incorporaram em restaurantes, e cozinheiros criaram contas no Instagram e YouTube para compartilhar receitas.

Mas ele afirma que ainda falta muito para que essas plantas deixem de ser consideradas "não convencionais".

No caso das espécies silvestres presentes na lista, por exemplo, é preciso que agricultores e instituições de pesquisa se dediquem a estudá-las - assim como fazem há milênios com plantas como o arroz e o trigo.

E quando a planta só existe em ambientes naturais, como o buriti, deve-se trabalhar com comunidades tradicionais e pequenos agricultores para apoiar redes de coleta, beneficiamento e comercialização com preço justo.

CRÉDITO,SHARON BARCELOS CARVALHO

Valdely Kinupp mostra tubérculo gigante do cará-de-espinho,

 que pode ser consumido como a batata

O que é PANC

Kinupp esclarece que algumas plantas do livro são consumidas em partes do país, mas ignoradas em outras.

Uma das espécies que mais o entusiasmam é o cará-de-espinho, uma trepadeira nativa das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste que produz tubérculos comestíveis que podem ultrapassar 180 kg.

"Essa planta é a solução para a agricultura no trópico úmido", afirma. Segundo o pesquisador, os tubérculos podem ficar armazenados por até 120 dias fora da geladeira sem apodrecer e podem ser consumidos como a batata (frita, cozida, em purê) ou virar farinha.

Hoje, no entanto, ele afirma que a espécie só é consumida em aldeias indígenas e em comunidades rurais no Baixo Amazonas.

Outras espécies citadas no livro têm mais penetração popular ou já foram mais consumidas - caso da ora-pro-nóbis, um arbusto com frutos, flores e folhas comestíveis originário do Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil, e que pertence à culinária típica de Minas Gerais.

Seus frutos são ricos em carotenoides e vitamina C, e as folhas, quando desconsiderada a água, têm até 35% de proteína.

CRÉDITO,SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO

Coletor de babaçu no Maranhão; atividade tem encolhido nas últimas décadas

Outro exemplo é o babaçu, palmeira nativa do Mato Grosso e de vários Estados do Nordeste, cuja castanha pode ser consumida cru ou torrada, além de processada para extração de leite ou transformada em farinha para pães e mingaus.

Essa castanha contém de 60% a 70% de óleo rico em ácido láurico, similar ao presente no óleo de coco e no azeite de dendê.

Em 1984, a Embrapa identificou a existência de 12 a 18 milhões de hectares de babaçuzais no Brasil. Na página de seu livro dedicada à espécie, Lorenzi e Kinupp afirmam que o babaçu tem "grande potencial alimentício" e "deveria estar no mercado".

E houve uma época em que o fruto de fato esteve nas prateleiras.

Na década de 1990, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 300 mil famílias trabalhavam com o fruto.

Em 2017, no entanto, o número havia despencado para 15 mil famílias.

Pesquisadora em agricultura familiar e desenvolvimento sustentável da Embrapa Cocais, no Maranhão, a agrônoma Guilhermina Cayres diz que hoje quase toda a extração atual é destinada à indústria de cosméticos e materiais de limpeza.

Ela afirma à BBC que o Maranhão chegou a ter várias indústrias dedicadas à produção de óleo de cozinha de babaçu. Porém, o setor não foi capaz de competir com o óleo de soja, mais barato, e tem sofrido com a expansão da pecuária sobre os babaçuzais.

Além disso, Cayres afirma que muitos trabalhadores deixaram o babaçu por associá-lo à pobreza e por considerar a atividade extenuante.

CRÉDITO,SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO

Quebradeira de coco no Maranhão, onde fruto

 chegou a gerar renda para 300 mil famílias

Grande parte do serviço das famílias consiste em quebrar artesanalmente o coco que abriga as castanhas, função desgastante e normalmente assumida por mulheres.

A pesquisadora diz esperar que o cenário mude com o desenvolvimento pela Embrapa de uma ferramenta que facilita a quebra do coco.

A invenção, que já está sendo fabricada por uma pequena empresa local, foi finalista de um prêmio sobre tecnologias sociais da Fundação Banco do Brasil em 2021.

Cayres também aposta no desenvolvimento de produtos com maior valor agregado à base de babaçu, como biscoitos e sorvetes.

Comida que vai para o lixo

Também são consideradas PANC espécies que são consumidas nacionalmente, mas têm partes comestíveis descartadas pela maioria.

Um exemplo é o miolo do mamoeiro, que pode ser transformado em doces e farinha. Outro, o mangará ("coração") da bananeira, que pode ser servido refogado ou como recheio de pastéis.

 CRÉDITO,EMBRAPA

Além dos frutos, miolo do mamoeiro também é comestível.

Hoje, porém, quase todas as plantações comerciais de mamão e banana do país desprezam os itens.

Até mesmo a polpa de um fruto bastante popular, o caju, é descartada às toneladas no Nordeste por indústrias que processam a castanha da fruta, diz à BBC News Brasil o sociólogo Carlos Alberto Dória, autor de vários livros sobre gastronomia.

"Os galhos (dos cajueiros) são usados como lenha, e a castanha é torrada e exportada", ele diz. "O resto, a polpa, vai para o lixo em quantidade expressiva", afirma.

Um dos sócios do Lobozó, restaurante em São Paulo inspirado nas antigas culinárias caipira e caiçara do Estado, Dória diz que o movimento pela valorização das PANC tem alcance limitado.

"É uma coisa de classe média que quer experimentar novidade e que se angustia com o desprezo pela diversidade", afirma.

Diz ainda que ingredientes regionais, que só sejam produzidos ou consumidos em partes do país, tendem a desaparecer das prateleiras porque a indústria privilegia produtos de alcance nacional.

"A exceção talvez seja o açaí, um produto regional que virou uma commodity, mas isso é muito raro", afirma.

Agricultura urbana 

CRÉDITO,FAO

Horta urbana em Quito, capital do Equador.

Que meios então haveria para não só preservar mas também ampliar o acesso a alimentos tão ricos, que exigem tão pouco e ocorrem em abundância no Brasil?

O pesquisador Nuno Rodrigo Madeira, da Embrapa Hortaliças, sugere três caminhos.

O primeiro seria incentivar o cultivo de plantas alimentícias não convencionais, oferecendo apoio técnico aos agricultores, criando feiras para a venda desses itens e espaços para a troca de conhecimentos.

O segundo seria aprofundar o debate sobre a comida nas escolas; ensinar às crianças desde cedo a importância de consumir produtos frescos e nutritivos, fazê-las se questionarem sobre a origem dos alimentos e entenderem como a comida é feita.

Ele diz que o movimento em torno das PANC não é só sobre alimentação, mas também sobre aprender a observar a natureza, conseguir identificar as espécies que nos rodeiam, sentir-se parte de um sistema vivo e integrado.

O terceiro caminho para diversificar e baratear a comida, segundo o pesquisador, seria reaproximar a produção de alimentos da população - especialmente a população que vive nas cidades.

Pessoas que morem em casas com quintais poderiam se tornar quase autossuficientes em hortaliças, diz ele, se cultivassem alguns pés de espécies como ora-pro-nóbis, chaya ou moringa - todas elas árvores ou arbustos perenes que produzem folhas comestíveis em abundância o ano todo.

Mas como nem todos têm espaço em casa para produzir, o pesquisador defende que as cidades destinem espaços para a criação de hortas urbanas.

Ele afirma que é possível cultivar hortaliças para todos os habitantes de uma cidade em 10% de sua área - iniciativa que já vem sendo adotada com sucesso, segundo Madeira, em cidades como Detroit (EUA), Havana (Cuba) ou mesmo em Sete Lagoas, em Minas Gerais.

CRÉDITO,PREFEITURA DE SETE LAGOAS

Horta urbana no município de Sete Lagoas, em Minas Gerais.

A escolha das espécies levaria em conta as aptidões de cada local, mesclando plantas convencionais e não convencionais.

Ele diz que a produção de alimentos dentro das cidades reduziria os custos deles, pois se economizaria com o transporte dos itens até os mercados, e poderia ocupar moradores de rua e outros grupos marginalizados.

"Não faz sentido gastar um mundaréu de combustível para levar cenouras de um Estado para o outro, como é feito hoje no Brasil", diz.

Madeira diz que o cultivo de alimentos foi justamente o que propiciou o surgimento dos primeiros núcleos urbanos da história, conforme famílias se agruparam em torno de plantações.

"As cidades se formaram por causa da agricultura, e a agricultura não pode estar longe das cidades", diz. 

Principais espécies citadas na reportagem

Babaçu (Attalea speciosa)

Beldroega (Portulaca oleracea)

Buriti (Mauritia flexuosa)

Cará-de-espinho (Dioscorea chondrocarpa)

Caruru (Amaranthus deflexus)

Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata)


A 'banana falsa' que pode ser solução para alimentar milhões

 Helen Briggs

Repórter de ciência

 CRÉDITO,RBG KEW

Banana (à esquerda) e ensete (à direita)

Pesquisadores dizem que a planta Ensete ventricosum, nativa da Etiópia, pode ser um salva-vidas diante das mudanças climáticas. Também chamada de "banana da Etiópia", a ensete é quase desconhecida fora do país, onde é usada para fazer mingau e pão.

A cultura dessa 'banana falsa' - parente próxima das espécies de banana mais comuns no mundo - tem potencial para alimentar mais de 100 milhões de pessoas em um mundo afetado pelo aquecimento global, diz um estudo publicado na revista Environmental Research Letters.

A ensete é um alimento básico na Etiópia, onde cerca de 20 milhões de pessoas dependem dela para alimentação, mas não é muito cultivada em outros locais. Pesquisas, no entanto, sugerem que a planta pode ser cultivada em uma área muito maior na África porque outras espécies selvagens da mesma família - que não são consideradas comestíveis - crescem até o sul da África do Sul.

"Esta é uma cultura que pode desempenhar um papel muito importante na segurança alimentar e no desenvolvimento sustentável", disse Wendawek Abebe, da Universidade Hawassa, em Awasa, Etiópia.

O fruto da planta, semelhante à banana, não é comestível. Mas os caules e raízes podem ser usados para fazer mingau e pão.

Grande colheita

Usando pesquisas agrícolas e trabalho de modelagem, os cientistas previram o alcance potencial da ensete nas próximas quatro décadas.

Eles apontaram que o cultivo da planta poderia alimentar mais de 100 milhões de pessoas e aumentar a segurança alimentar na Etiópia e em outros países africanos, incluindo Quênia, Uganda e Ruanda.

O pesquisador James Borrell, do Royal Botanic Gardens, no Reino Unido, disse que o plantio da ensete como uma colheita reserva para tempos de escassez de outros produtos pode ajudar a aumentar a segurança alimentar.

"Tem algumas características realmente incomuns que a tornam absolutamente única como cultura", disse ele. "Você planta a qualquer hora, você colhe a qualquer hora e é perene. É por isso que a chamam de árvore contra a fome."

 CRÉDITO,RBG KEW

A planta pode atingir 10 metros de altura

A Etiópia é um importante centro de domesticação de culturas na África, lar do café e de muitas outras plantas domesticadas pelo homem.

Prevê-se que as alterações climáticas afetem seriamente os rendimentos e a distribuição das plantações no mundo e especialmente na África.

Há um interesse crescente em buscar novas plantas para alimentar o mundo, dada nossa dependência de algumas culturas básicas. Quase metade de todas as calorias que ingerimos vem de três espécies de alimento - arroz, trigo e milho.

"Precisamos diversificar as plantas que usamos globalmente, porque todos os nossos ovos estão em uma cesta muito pequena no momento", diz Borrell.


Papiro grego do Novo Testamento é encontrado à venda no eBay

 O Globo

Relíquia tem passagens do Evangelho de João; lance mínimo era de US$ 99

  REPRODUÇÃO/EBAY

Raro papiro do Novo Testamento em grego foi oferecido no eBay - 

RIO — Descobertas arqueológicas normalmente acontecem no campo, após escavações, mas Geoffrey Smith, especialista em Cristianismo na Universidade do Texas, realizou um grande achado na internet. Em janeiro deste ano, o pesquisador encontrou à venda no eBay, com lance inicial de apenas US$ 99, cerca de R$ 370, um fragmento de um antigo papiro grego do Evangelho de João. Do tamanho de um cartão de crédito, a relíquia é datada entre os anos 250 e 350. Contém seis linhas do texto sagrado de um lado, e um desconhecido texto cristão do outro.

— Eu pensei, isso não deveria ser permitido no eBay — disse Smith, em entrevista ao “New York Times”. — Isso vai desaparecer em uma coleção privada.

Smith entrou em contato com o vendedor e o convenceu a retirar a oferta do ar. O artefato foi analisado e os resultados, apresentados neste sábado, durante a conferência anual da Sociedade de Literatura Bíblica, em Atlanta. De acordo com o pesquisador da Universidade do Texas, trata-se do único papiro conhecido do Novo Testamento grego escrito a partir de um rolo, em vez dos códices, tecnologia que os primeiros cristãos preferiam para seus textos.

Papiros do Novo Testamento grego estão entre os mais antigos e raros traços da escrita cristã. Existem apenas cerca de 130 reconhecidos pelo Instituto para Pesquisa Textual do Novo Testamento, em Munique, na Alemanha, que registra manuscritos do Novo Testamento de todos o tipos.

O nome do vendedor não foi revelado, e a origem do papiro é desconhecida. Contudo, na oferta do eBay, o vendedor dizia que o pequeno fragmento fazia parte da coleção de Harold R. Willoughby, professor de Cristianismo da Universidade de Chicago, que morreu em 1962.

  REPRODUÇÃO

Na descrição, o vendedor afirma que a relíquia pertencia ao professor Harold R. Willoughby -

Brice C. Jones, pesquisador da Universidade de Concórdia, também localizou o papiro à venda no eBay. Em seu blog, ele fez uma breve descrição do documento, apenas com as informações postadas pelo vendedor. Uma lista manuscrita dos documentos pertencentes ao professor Willoughby indica o fragmento do Evangelho de João, mas não responde a todas as perguntas.

 “De onde vem esse papiro? Ele foi comprado por Willoughby no começo do século XX? Se for, de quem e de onde?”, escreveu Jones.

O temor dos pesquisadores era que o documento fosse parar em alguma coleção privada. Muitos pesquisadores se recusam a estudar manuscritos extraídos ilegalmente dos países de origem e os pertencentes a coleções privadas, para não valorizar o mercado. Mesmo assim, essas relíquias são valiosas. Jones destaca um fragmento romano do terceiro século foi vendido no ano passado pela Sotheby por cerca de US$ 500 mil.

— A História não pertence a uma pessoa — disse Jones, ao “New York Times”. — Coletivamente, globalmente, é nossa. Deve estar disponível para pesquisa, exposta ao público.


Aplicativos brasileiros tiram nota baixa em condições de trabalho, diz estudo

 Thais Carrança - @tcarran

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,LINCON ZARBIETTI

Projeto de Oxford avaliou Uber, 99, Ifood, Rappi e Get Ninjas. Para pesquisadores, plataformas contribuem para manutenção das condições desiguais e precárias do mercado de trabalho brasileiro

Um estudo coordenado pelo Oxford Internet Institute e pelo WZB Berlin Social Science Centre, realizado em 27 países, apontou que plataformas digitais brasileiras como Uber, 99, iFood, Rappi e Get Ninjas não oferecem padrões considerados mínimos de trabalho decente.

Segundo o relatório, que será lançado ao público nesta quinta-feira (17/3) e foi obtido pela BBC News Brasil em primeira mão, nenhuma plataforma brasileira obteve mais de 2 pontos, em um máximo de 10, em avaliação baseada em cinco princípios de trabalho justo — remuneração, condições de trabalho, contratos, gestão e representação justos.

iFood e 99 obtiveram apenas 2 pontos cada, enquanto a Uber recebeu 1 ponto. Rappi, Get Ninjas e Uber Eats ficaram com zero na classificação — apesar de constar do estudo, realizado em 2021, o serviço de entrega de alimentos da Uber encerrou suas atividades no Brasil em março deste ano.

 

Segundo os pesquisadores do projeto Fairwork, o resultado brasileiro é semelhante ao de outros países da América Latina, como Chile e Equador, mas pior do que o de continentes como África, Ásia e Europa, onde há plataformas com notas altas, como 7 ou 8 pontos, do total de 10.

Procurados pela BBC News Brasil para comentar o resultado do estudo, o iFood disse que está à frente da indústria, mas precisa e vai fazer mais; a 99 reconheceu a importância da iniciativa da Fairwork e disse trabalhar em parceria com a instituição.

A Rappi lamentou "o fato de o projeto não ter acessado as informações da empresa relacionadas ao objeto da pesquisa, o que provavelmente alteraria sua classificação". Já a Uber não comentou os resultados, optando por destacar pesquisas que têm apontado a importância da renda obtida com aplicativos no contexto atual.

A BBC News Brasil não tinha conseguido contato com a Get Ninjas, mas, após a publicação da reportagem, a empresa enviou nota dizendo que "não foi consultada durante elaboração da pesquisa realizada pela Fairwork para esclarecer o modelo de operação da plataforma".

Trabalho decente

Trabalho decente é um termo cunhado em 1999 pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 20130 da ONU (Organização das Nações Unidas).

"A ideia de trabalho decente é pensar não só na quantidade de empregados e desempregados, mas a qualidade desse trabalho", explica Rafael Grohmann, professor da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e um dos autores do estudo no Brasil.

"Entendemos que o futuro do trabalho tem de ser de trabalho digno, com menos precariedade e não somente de subempregos. Nosso objetivo é mostrar que empregos melhores e mais justos são possíveis na economia de plataformas", acrescenta o pesquisador.

O projeto Fairwork foi fundado na universidade de Oxford, no Reino Unido, em 2018. No Brasil, além da Unisinos, participam da iniciativa a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

A pesquisa e seus principais resultados

O grupo de universidades brasileiras colheu informações sobre as empresas através de pesquisa documental, evidências apresentadas pelas plataformas e entrevistas com trabalhadores. 

CRÉDITO,GETTY IMAGES

'Nosso objetivo é mostrar que empregos melhores e mais justos

 são possíveis na economia de plataformas', diz pesquisador

Para elaborar a pontuação, cada um dos cinco princípios de trabalho justo é dividido em dois pontos, um básico e um mais avançado, só concedido se o básico é cumprido.

Em remuneração, é considerado se os trabalhadores ganham acima do salário mínimo local (R$ 1.212 atualmente) ou acima do salário mínimo ideal (R$ 5.513,17, segundo cálculo do Dieese). Aqui, só a 99 pontuou no nível básico, ao demonstrar que todos os seus trabalhadores ganham acima do equivalente ao salário mínimo por hora de trabalho.

Em condições de trabalho, são avaliadas ações para proteger trabalhadores de riscos específicos relacionados à atividade. Nesse ponto, Uber e 99 pontuaram, com políticas consideradas efetivas de distribuição de equipamentos de proteção individual (EPIs) e de seguro de saúde e contra acidentes.

Em contratos, é avaliado se esses documentos são apresentados de forma clara, compreensível e acessível aos trabalhadores todo o tempo, com notificação em prazo razoável sobre eventuais alterações nos termos. Somente o iFood pontuou aqui, evidenciando ter padrões básicos em relação a contratos justos.

Em gestão, é avaliado se a empresa possui canais de comunicação eficazes, processos de apelação transparentes e políticas antidiscriminação. Nenhuma empresa pontuou nesse item.

Em representação, foi avaliado se a plataforma tem políticas para reconhecer a voz do trabalhador e da organização dos trabalhadores. Novamente aqui, apenas o iFood pontuou, por ter criado, a partir do seu envolvimento com o projeto Fairwork, um fórum de entregadores, como canal de comunicação com lideranças da categoria.

Assim, nenhuma empresa superou os 2 pontos, do total de 10 possíveis, e três delas não conseguiram obter ponto algum.

"As pontuações mostram que, no mínimo, as plataformas digitais de trabalho vêm contribuindo para a manutenção e, provavelmente, para o agravamento das condições desiguais e precárias do mercado de trabalho brasileiro", observam os pesquisadores em seu relatório final.

'Situação muito ruim'

"A leitura que devemos fazer desse resultado é que o Brasil está em situação muito ruim, inclusive dentro da América Latina. Em países da Ásia e da África, por exemplo, Gana, Indonésia, Índia, Egito, tem plataformas que pontuam 6, 7, 8", observa Rafael Grohmann, da Unisinos e da Fairwork Brasil.

"São em geral plataformas locais, que tem um pouco mais de relação com o bem comum e com a comunidade real do que algo somente por imagem", avalia.

Ele afirma, porém, que o resultado brasileiro é similar ao de Equador e Chile, onde nenhuma plataforma teve resultado acima de 3 pontos.

Grohmann observa que o objetivo do estudo não é ser apenas crítico, mas propositivo, servindo de base na mudança de políticas das plataformas, nas escolhas dos consumidores (que dentro de um mesmo setor podem, por exemplo, optar pela empresa com pontuação mais alta) e na formulação de políticas públicas setoriais.

"O que a gente sempre coloca é que o cenário atual não é inevitável. Temos agora um primeiro retrato, o segundo relatório vai ser lançado em dezembro desse ano e o terceiro, em outubro do ano que vem. Vamos ampliar o número de plataformas avaliadas e continuar pressionando as empresas por mudanças. Muitas dessas mudanças já estão em andamento", destaca o pesquisador.

Um futuro de trabalho digno

Para Grohmann, além dos exemplos de outros países, experiências nacionais de cooperativismo e de plataformas geridas pelo poder público com termos mais justos podem servir de norte ou alternativa para um trabalho gerido por plataformas mais digno.

Ele destaca ainda o papel da organização coletiva para a melhora das condições de trabalho. No relatório da Fairwork, os pesquisadores lembram das grandes greves de entregadores de 2020 e 2021, movimento conhecido como "Breque dos Apps".

CRÉDITO,ROBERTO PARIZOTTI/FOTOS PÚBLICAS

Mobilização do 'Breque dos Apps' chamou 

atenção para demandas dos entregadores

Os estudiosos observam uma frustração dos trabalhadores com os resultados da mobilização e as represálias sofridas em decorrência da luta. Para o professor da Unisinos, o processo de organização coletiva leva tempo, mas é chave para a mudança.

"É difícil organizar-se coletivamente em qualquer lugar, mas há uma série de lutas sendo travadas, organizações sendo montadas, há sindicatos e cooperativas de motoristas, entregadores e outros setores, como o de transcrição de vídeos do TikTok", exemplifica.

"O caminho é a organização, mas organização leva tempo", conclui.

O que dizem as empresas

Em nota, o iFood afirmou que tem se dedicado à criação de iniciativas que garantam mais dignidade, ganhos e transparência para os entregadores.

"Nossa nota na Fairwork mostra que, apesar das nossas iniciativas nos posicionarem à frente da indústria, precisamos fazer mais. E vamos", disse a empresa. "Nossa equipe se reunirá com a Fairwork nos próximos dias para escutar a devolutiva sobre o estudo e colher insumos importantes para aprimorarmos nossas políticas em prol da categoria."

A empresa citou como iniciativas que têm adotado dois reajustes de tarifas em menos de 12 meses; a criação de um seguro contra acidentes pessoais; o estabelecimento de mais de 1,4 mil pontos de apoio; e o avanço na relação com entregadores a partir do primeiro fórum com lideranças da categoria.

A 99, por sua vez, disse que "reconhece e reforça a importância da iniciativa do Fairwork Brasil e trabalha em parceria com a instituição, contribuindo proativamente e acompanhando de perto os resultados da pesquisa, que traz um novo norte ao setor no país".

"Para a 99, o bem-estar dos motoristas parceiros é nossa prioridade, e trabalhamos diariamente, nos últimos 10 anos, para melhorar sua jornada", acrescentou a plataforma.

A Rappi afirmou que "considera que a sustentabilidade de seu ecossistema digital somente é possível quando os três elos de sua cadeia são beneficiados, dentre os quais estão os entregadores parceiros. Desta forma, a empresa mantém um diálogo constante com eles e está permanentemente atenta a soluções que possam favorecê-los".

A empresa citou como iniciativas que vem adotando a oferta de centros de atendimento presenciais; suporte em tempo real; cursos de capacitação; botão de emergência para situações de risco; seguro para acidente pessoal, invalidez permanente e morte acidental; e dois planos de assistência em saúde.

Mencionou ainda um fundo de R$ 25 milhões destinado a garantir aumento de ganhos aos entregadores entre junho de 2021 e janeiro de 2022, compensado o aumento da gasolina, que teria resultado em aumento de 34% nos rendimentos por pedido nesse período.

A Uber citou pesquisas do Ipea e do Datafolha sobre o setor, mas disse não poder comentar o estudo do Fairwork em detalhes por não ter tido acesso à metodologia e íntegra dos resultados.

"Uma pesquisa recente do Instituto Datafolha identificou que 82% dos brasileiros consideram que dirigir ou entregar com aplicativos como o da Uber 'é um trabalho digno' e, para 88%, é uma opção que 'ajuda a reduzir o desemprego'", citou a empresa, em nota.

"Os próprios motoristas e entregadores, entrevistados pelo Datafolha em outra pesquisa nacional, revelaram o desejo de manter sua autonomia como profissionais independentes, mas contar com os benefícios oferecidos pela Previdência Social", observador a plataforma.

Uber e iFood disseram defender mudanças na legislação para permitir aos trabalhadores ligados às plataformas ter acesso à proteção previdenciária.

Após a publicação da reportagem, a empresa Get Ninjas informou em nota que o modelo de operação da plataforma a difere das demais empresas citadas pelo levantamento.

"Destacamos que o Get Ninjas opera como um classificado online, em que prestadores de serviço — o que inclui micro e pequenos empreendedores — anunciam seus serviços e conseguem novos potenciais clientes. Dessa forma, os profissionais utilizam a plataforma como um canal de anúncio para divulgar serviços e negociar com potenciais clientes", disse a empresa.

"O contato, negociação e pagamento do serviço entre profissional e cliente são realizados por fora da plataforma e, desta forma, são os prestadores que definem preço, horário e condições do serviço junto ao cliente", completou a plataforma.